A tentativa de fazer um acordo com a mídia talvez tenha sido uma das maiores estratégias do locutor. No início do evento, ele tentou estabelecer uma relação aparentemente “amigável” com o jornalista Policarpo Júnior76, da Revista Veja, responsável pela reportagem na qual foi citado como principal envolvido no escândalo. Ele chegou, inclusive, a traçar uma imagem “positiva” (pró-ethos) do então jornalista, mas ressaltando que esse havia se enganado, conforme podemos ver a seguir:
76 Policarpo Júnior também foi o jornalista responsável pela divulgação da gravação na qual o ex-presidente do
IRB, Lídio Duarte, contava sobre o funcionamento do esquema coordenado por Jefferson nas estatais (REVISTA VEJA, ed. 1906, 25/05/05).
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Primeiro pronunciamento – fragmento 37
Sr. Presidente, li com carinho a matéria do sério jornalista. Quis saber quem é Policarpo Júnior. Indaguei isso à minha assessoria de imprensa, que me disse: "É um homem sério, correto. Duro, mas um homem correto, que não está livre de se enganar" [...]
Para autenticar a tese de que o jornalista Policarpo era um indivíduo correto, mas havia se enganado e, assim, se construir como um indivíduo sério, em um primeiro momento ele, através do discurso direto, atribuiu a responsabilidade de tal imagem à sua assessoria de imprensa.
Nessa nova enunciação, ele agenciou outro enunciador que pôs em cena uma estrutura coordenada adversativa, na qual predominou a imagem de um jornalista passível de ter se enganado. Logo depois, ele dirigiu-se a Policarpo, através da perífrase “desejo falar”, o que implicou, de certa forma, um pedido e caracterizou um ethos de humildade e respeito pelo então jornalista, confirmando a tese de que esse havia se enganado:
Primeiro pronunciamento – fragmento 38
Desejo falar um pouco agora para Policarpo Júnior, da Veja, a quem respeito e de quem minhas assessoras de imprensa fizeram as melhores anuências: a matéria está equivocada. A revista não pesquisou nada para receber essa fita. Repito: não pesquisou nada
Em nossa opinião, o locutor tentou fazer com que a mídia fosse sua aliada, uma vez que sabia de seu poder na sociedade - a mídia é o elo entre a instância política e a instância pública, um dos instrumentos simbólicos de poder na sociedade (BOURDIEU, 2005).
No entanto, no decorrer do evento, uma vez que o locutor não conseguiu nenhum apoio da mídia77, estabeleceu uma relação completamente diferente com ela. Passou a interpelar, diretamente, o jornalista Policarpo Júnior, sempre no sentido de desacreditar a matéria referente às denúncias e a alegar que a Revista Veja fazia parte de um complô (Teoria da Conspiração). Vejamos o fragmento:
77 A mídia continuou a cercar Roberto Jefferson. Veja a seção “A narratividade: a história do “Mensalão” na
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Primeiro pronunciamento – fragmento 39
Policarpo, a matéria é tão frágil porque você atribui ao PTB empresas que o PTB não tem. Não é o Maurício. É o próprio Policarpo. Ele diz aqui que a TRANSPETRO é uma empresa de interesses do PTB, que o Diretor da TRANSPETRO, Álvaro Gaudêncio Neto, é indicação do PTB. Não é. A matéria está equivocada. Nunca indicamos um diretor para a TRANSPETRO [...]
No fragmento acima, ele dirigiu-se ao jornalista, nomeando-o pelo nome próprio (ethos de familiaridade), na tentativa de desacreditar a matéria que, segundo ele, era frágil uma vez que a lista dos cargos ocupados por seus afilhados78 estava errada (agenciou uma oração coordenada explicativa). A partir de então, durante todo o evento, o locutor tentou desacreditar a Revista Veja, desqualificando-a79.
Além de Policarpo, ele dialogou também com o jornalista Expedito Filho, do Estadão, a quem chamou, sempre, de amigo, com a finalidade de desconstruir o ethos pré-discursivo de troglodita temido (homem violento e autoritário). Discutiremos essa questão, mais detalhadamente, na subseção “A desconstrução do vilão”.
O locutor afirmou que poderia ter dado entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, mas esse, segundo ele, embarcou no linchamento, não se preocupou com ele, não lhe deu oportunidade de defesa.
Ainda, o locutor interpelou Elimar Franco, do jornal O Globo, respondendo a uma acusação do então jornalista:
Primeiro pronunciamento – fragmento 40
Quero dizer para a Casa sem nenhum problema quais são os cargos que o PTB ocupa no Governo do Presidente Lula: Diretoria Administrativa da ELETRONUCLEAR; Diretoria da BR Distribuidora - aliás, Elimar Franco publica isso hoje, em O Globo; Presidência do IRB; Vice-Presidência da Caixa Econômica Federal; Presidência da ELETRONORTE; e uma Diretoria na EMBRATUR [...]
No fragmento acima, através de uma ressalva (oração interferente), introduzida pelo operador argumentativo “aliás”, que funcionou como um argumento decisivo, o locutor interpelou o
78 Segundo Lídio Duarte, a operação da máquina que arrecadaria recursos para o PTB incluía jantares na casa de
Jefferson em Brasília com todos os seus afilhados e a exigência de que cada um deles gerasse uma determinada quantia de dinheiro em arrecadação para o partido por mês. A premissa era de que em troca da indicação para o cargo o indicado teria de ajudar o PTB (FIGUEIREDO, 2006).
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jornalista Elimar Franco, do Jornal O Globo, para listar os cargos ocupados pelo PTB no Governo de Lula. É importante ressaltar que o jornal “O Globo”, tendo em vista mostrar a influência de Jefferson e de seus afilhados no governo, trouxe como principal reportagem um texto indicando que os aliados do presidente do PTB ocupavam oito cargos importantes no governo, responsáveis pela gestão de cerca de R$ 4 bilhões anuais – o que por si só já era uma demonstração da falta de influência que José Dirceu disse a Jefferson ter.
Durante o evento, o locutor teceu várias descrições pejorativas ao Jornal O Globo:
Segundo pronunciamento – fragmento 41
O jornal que vive de manchete escandalosa, de libelos, quer acertar sempre com o Governo. Quanto mais panfletária é a manchete, maior é o cheque que vão sacar no banco oficial. Refiro-me a O Globo. Na área econômica, na área cultural, na área de esporte, não tenho nada a dizer de O Globo. Mas, politicamente, é um jornal amoral. Falido, fiou-se sempre nos cofres públicos, nas contas do povo do Brasil. O povo do Brasil paga as contas de O Globo.
Passou a dizer que havia um complô da mídia. Acusou vários órgãos da imprensa de trabalharem a favor do Governo Federal, entre eles o jornal “O Globo, a quem denominou de “Diário Oficial do Governo”. Segundo Roberto Jefferson, a Revista Veja era politicamente favorável ao PSDB: “A Veja não, a Veja é dos tucanos”. Criticou também a TV Globo e a
revista Época, insinuando que favoreciam o governo em suas reportagens.
O locutor interpelou a mídia, especialmente o jornalista Policarpo Júnior (Revista Veja), com a finalidade de persuadir a opinião pública e não a própria mídia:
Com efeito, como a argumentação visa obter a adesão daqueles a quem se dirige, ela é, por inteiro, relativa ao auditório que procura influenciar. Como definir semelhante auditório? Será a pessoa que o orador interpela pelo nome? Nem sempre: o deputado que, no Parlamento inglês, deve dirigir- se ao presidente pode estar procurando convencer não só os que o ouvem, mas ainda a opinião pública de seu país. (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2000, p.21, grifo nosso).
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