Antes de iniciar esta subsecção, gostaríamos de fazer aqui duas importantes obser- vações. Em primeiro lugar, quando se fala em diferenças culturais, deverão ser evitadas quaisquer simplificações ou generalizações desadequadas. As diferenças culturais, mencio- nadas por nós e por diversos autores, deverão ser sempre entendidas em termos de tendên- cias ou médias. Se, por exemplo, podemos afirmar que os escandinavos são, em média, mais altos do que os gregos, isto não quer dizer que não possam existir gregos mais alto que escandinavos. O mesmo se pode passar com possíveis diferentes atitudes, valores e padrões comportamentais entre as culturas. É como se tivéssemos duas curvas de Gaus, mais ou menos deslocadas, mas com substanciais áreas de intersecção. Também não deve- mos esquecer que qualquer casal bicultural é, também, de certa forma único, com caracte- rísticas específicas. Além disso, não devemos esquecer que, muito provavelmente, existirão mais diferenças entre uma cultura oriental e ocidental, do que entre duas culturas ociden- tais, por exemplo, entre a cultura francesa e a portuguesa.
Em segundo lugar, devemos tentar evitar, a todo o custo, uma valorização de quais- quer possíveis diferenças culturais entre os cônjuges. Não existe “melhor ou pior do que …”, apenas poderão ser verificadas diferenças. Estas possíveis diferenças nos valores, nas crenças, nas normas, nas expectativas e nos padrões entre culturas, mesmo que nos pareçam o mais absurdas possível, têm a sua função e poderão fazer sentido, num determinado con- texto sócio-histórico.
Os primeiros trabalhos sobre casais biculturais apresentavam uma visão muito nega- tiva sobre os efeitos da biculturalidade conjugal. Por exemplo, Lau (1984) relata um estudo elaborado por Cohen sobre famílias biculturais em que verificou a existência de fronteiras confusas na família, rejeição, por parte de um cônjuge, da sua cultura de origem, problemas de identidade e incapacidade dos cônjuges de se relacionarem com ambas as famílias de origem. Este estudo baseava-se, no entanto, apenas em famílias problemáticas. Alguns autores como Breger e Hill (1989), Laird (1998), McGoldrick et. al. (1982), McGoldrick e Preto (1984), McGoldrick, Garcia, Preto, Hines e Lee (1991), McGoldrick (1998) e Roma- no (2001) afirmam que os casais biculturais se debatem com uma maior complexidade ou dificuldade, devido a consideráveis diferenças encontradas entre os cônjuges, nos seus valores, percepções, padrões interaccionais e estilos de comunicação, que, normalmente, resistem à mudança.
Segundo McGoldrick et al. (1991), a biculturalidade no casamento afecta vários níveis como o sistema individual, conjugal, parental, fraternal e também sistemas mais lar- gos como a comunidade e sociedade, aumentando exponencialmente a complexidade na transição dos ciclos de vida familiar. Os autores afirmam que, em geral, quanto maiores são as diferenças entre os cônjuges, mais raros são os casamentos e maior as dificuldades de uma readaptação do casal. Os factores que influenciam o grau de ajustamento requerido em casais biculturais são, segundo McGoldrick et al. (1991): 1) a extensão das diferenças entre os valores culturais dos cônjuges; 2) diferenças no grau de aculturação dos cônjuges; 3) diferenças religiosas; 4) diferenças do fenótipo (“raciais”); 5) o sexo dos cônjuges de cada cultura. Partindo da hipótese de que as mulheres possuem uma maior capacidade de adapta- ção do que os homens, o casamento de uma mulher estrangeira com um marido da cultura local seria, em geral, menos problemático que o contrário; 6) diferenças socio-económicas; 7) familiaridade antes do casamento de cada cônjuge com o contexto cultural do parceiro; 8) aceitação, por parte de ambas famílias de origem, do casamento bicultural; 9) outros fac- tores, como razão da emigração do cônjuge, língua falada em casa, grau de diferenças dos padrões de expressão emocional e de comunicação e diferenças na “visão do mundo”.
As próprias atitudes face ao casamento podem divergir muito entre culturas. McGoldrick et al. (1991) mencionam os seguintes exemplos. Os latinos encaram o casa-
mento mais como junção de mais membros a uma rede social mais alargada. Existe aqui mais continuação do que ruptura.11 Os WASP12, alemães e irlandeses tendem a encarar o casamento mais como um começo de nova unidade distinta da família de origem. Em algumas culturas orientais, a mulher separa-se completamente da sua família de origem, juntando-se à família do marido e não se espera uma proximidade entre os cônjuges. Um bom marido é “saudável e ausente”. Segundo os autores, o amor romântico não constitui um conceito central na Irlanda. As culturas diferem, também, segundo McGoldrick et al. (1991), na sua atitude face ao casamento como subsistema e nas fronteiras entre o casal, a família alargada e o contexto social. O casamento pode ser considerado mais como uma cooperação entre dois parceiros, mais como um meio para educar os filhos ou como a extensão de uma família mais alargada. Desta forma, para uns, os filhos são o centro da atenção, para outros não.
Roman (2001) estabeleceu, com base em entrevistas a 26 casais biculturais, algumas áreas que poderão ser potencialmente problemáticas. O autor chama a atenção para o facto de não se dever generalizar estas diferenças a qualquer casal bicultural, referindo, também, que não são necessariamente exclusivas destes tipo de casais, embora a biculturalidade con- jugal possa acentuar consideravelmente estas potenciais diferenças, as quais iremos enume- rar:
1) O sistema de valores, isto é, o que é considerado bom ou mau, certo ou errado, verdadeiro ou falso, e importante ou não importante, pode divergir muito entre as culturas. São mencionados valores centrais como em relação à actividade (fazer versus estar) em relação à percepção do mundo (separado da natureza versus integrado na natureza) e em relação à percepção do self (individualismo versus colectivismo).
2) Diferenças nos hábitos alimentares em relação a comer e beber o quê?, quando?, onde? e como ou com que utensílios? Existem inúmeras histórias caricatas de famílias biculturais em relação a este assunto.
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Reparamos que, em países da Europa do Sul, as pessoas são tratadas, muito frequentemente, por “filho” ou “filha”, mesmo na idade adulta ou depois do casamento, o que não sucede em outros países, por exemplo na Alemanha.
3) Sexualidade e intimidade. Atitudes perante temas como a virgindade, fidelidade, importância do número de filhos, circuncisão, educação e higiene sexual podem divergir muito entre as culturas. Também podem existir consideráveis diferenças em relação à for- ma de revelar o afecto: por exemplo, pode-se beijar ou andar de mãos dadas em público?
4) Papéis de homem e mulher. Existem culturas com uma dominância do papel do homem, outras da mulher e, ainda, outras, onde se pretende uma relação mais igualitária. A definição dos papéis marido e mulher influencia questões de poder, de decisão, como, por exemplo: quem decide a gestão doméstica e financeira, a educação dos filhos ou assuntos ligados aos contactos institucionais extrafamiliares. McGoldrick et al. (1991) dão os seguintes exemplos. As mulheres irlandesas tendem a ser dominantes na vida familiar e são consideradas moralmente superiores. Os gregos enfatizam mais papéis hierárquicos, onde o pai é dominante, que critica muito e elogia pouco, e onde a mulher, mais submissa, não deve discutir conflitos domésticos fora da família. As mulheres porto-riquenhas tendem partilhar os problemas domésticos com outras mulheres, como uma estratégia de coping para lidar com tensões. O marido WASP13 desempenha um papel menos autoritário e dedi- ca-se mais ao trabalho.
5) Diferentes noções do tempo. Existem ritmos de trabalho distintos entre as cultu- ras. “Chegar atrasado” pode ter conotações diferentes: em algumas culturas, chegar 10 minutos depois de um encontro marcado, pode significar uma ofensa pessoal, em outras culturas a ofensa pode consistir em as pessoas aparecerem à hora marcada. As palavras “mañana” na América Latina, ou “bukra”, nos países árabes, que significam literalmente “amanhã”, podem referir-se, também, a um tempo indefinido no futuro, algo como “qual- quer dia”.
6) Local de residência. Em que país o casal bicultural decide viver costuma ser uma questão sempre em aberto, porque, normalmente, um cônjuge é estrangeiro, a não ser que o casal decida viver num “terceiro” país.
7) Amizades. Em primeiro lugar, o que é considerado um amigo difere considera- velmente de cultura para cultura. O que constitui um verdadeiro amigo, numa cultura seria, noutra, apenas uma relação superficial. Além disso, as actividades com os amigos podem
variar muito. Convidar os amigos para jantar fora é um acto cordial numa cultura, mas nou- tra (como a iraniana) uma grave ofensa, sendo interpretado como “afastar os amigos da nossa casa”. Também devemos considerar que o cônjuge estrangeiro possui, normalmente, uma mais precária rede social (ver Sluzki, 1996, 1998 e Abreu, 2000), sobretudo se não domina a língua local. Alguns casais biculturais acham, por isso, vantajoso encontrar outros casais biculturais que partilhem os mesmos problemas. Para corresponder a esta necessida- de, surgiram, em muitos países, associações de casais biculturais como o Verband bi- -nationaler Familien und Partnerschaften, na Alemanha.
8) Família de origem. Segundo McGoldrick et al. (1991), a forma de ligação com a família extensa pode variar também muito entre culturas. Segundo os autores, em muitas culturas (gregos, chineses e italianos), os filhos sentem-se obrigados a suportar os seus pais idosos e passam muito tempo com eles, enquanto que noutras culturas as relações com os pais idosos se restringem a visitas pontuais. Frequentemente, uma pessoa de uma cultura que mantém claras fronteiras com a sua família de origem, considera que se o seu cônjuge, que está muito envolvido com a sua família de origem, lhe é desleal. A este propósito, McGoldrick et al. (1991) relatam o caso de uma mulher irlandesa que foi à terapia porque estava convencida que o seu marido grego já não a amava, pois ele insistia em visitar, todos os fins-de-semana, a sua família. Desta forma, podem surgir dificuldades no casal bicultural por considerarem os sogros demasiadamente intrusivos ou demasiadamente afastados, o que pode depender de valores culturais distintos. É frequente haver problemas de comuni- cação com os sogros e até netos devido, simplesmente, a um insuficiente domínio das res- pectivas línguas maternas. McGoldrick et al. (1991) afirmam que a adaptação do casal bicultural se torna a curto prazo, mais fácil, se apenas uma família de origem estiver dispo- nível. No caso em que as duas estão disponíveis, podem, mais facilmente, surgircoligações (uma família de origem com o casal, contra a outra família de origem) e atribuições negati- vas à nora/genro e ao casamento bicultural, por medo de abandono ou rejeição pela filha ou filho. Segundo os autores, “casar fora” pode permitir novas oportunidades às famílias de origem ou pode diminuir o contacto com estas, utilizando o cônjuge como pretexto.
9) Diferentes religiões. Em primeiro lugar, devemos ter em consideração que muitas das nossas crenças, atitudes, valores, rituais e “filosofia da vida”, têm uma base religiosa, mesmo não sendo praticantes. Um casal bicultural, cujos cônjuges pertencem a religiões diferentes, enfrenta desafios acrescentados. Estes desafios começam logo com o casamento:
casar na religião de quem? Depois: educar os filhos segundo que princípios religiosos? Que rituais a seguir? Existem casais biculturais onde um cônjuge se converte, outros, onde se mantêm as duas religiões, evitando interferências e, frequentemente, acontece que os dois cônjuges se afastam das práticas religiosas distintas. Romano (2001) alerta para o facto de, em casos, em que ambos os cônjuges pertencem à mesma religião, mas são oriundos de países distintos, poderem existir, diferenças na interpretação da doutrina, valores e rituais, como, aliás, acontece com a igreja católica num país latino ou anglo-saxónico.
10) Educar os filhos. Muitos casais biculturais entrevistados por Romano (2001) afirmaram que começaram a ter consciência das diferenças culturais sobretudo a partir do nascimento do primeiro filho. Começa logo pela escolha do nome (de qual cultura?), educá- -los como monolingues (qual língua?) ou bilingues?, baptizá-los? em que igreja? Os estilos educativos podem variar muito entre as culturas: mais permissivo, mais autoritário ou, ain- da, um estilo mais democrático. Estes estilos educativos moldam o tipo de relacionamento pais-filhos. Nas sociedades colectivistas, educa-se os filhos para uma maior conformidade ao grupo, nas sociedades individualistas para uma maior autonomia, onde interessa que a criança expresse as suas opiniões e gostos e onde tome precocemente decisões. McGoldrick et al. (1991) afirmam que diferentes valores e atitudes em relação à educação podem consti- tuir um conflito nos casais biculturais, dando exemplos de pais alemães que tendem a enfa- tizar a estruturação e autonomia e não encorajam tanto a expressão emocional. Por sua vez, segundo estes autores, os latinos tendem a valorizar muito a alimentação dos filhos e consi- deram a saída de casa dos filhos como algo arriscado. Os filhos são confrontados com o problema de como lidar com as diferentes culturas dos pais. Uns podem identificar-se mais com a cultura de um dos pais. Outros podem tirar partido de ambos, fazendo um salto cria- tivo, transformando a diversidade numa nova e diferente percepção do mundo. Em geral, segundo os mesmos autores, os filhos que conseguem integrar e transformar esta complexi- dade, tornam-se mais flexíveis. Se esta tentativa falhar, podem surgir problemas ou sinto- mas. Romano (2001) afirma que a educação filhos é, talvez, a área em que o saber lidar com as diferenças culturais constitui o maior desafio.
11) Língua e comunicação. Se um dos maiores problemas entre qualquer casal é a comunicação, esta dificuldade pode ser acrescentada em casais biculturais, cujos cônjuges falam línguas diferentes. A escolha da língua na qual o casal bicultural comunica, pode afectar o equilíbrio do poder, porque o cônjuge que fala na sua língua materna possui
automaticamente mais informação e poder (de decisão) do que o cônjuge que fala uma lín- gua estrangeira, muitas vezes de forma precária. Por esta razão, existem casais biculturais que preferem comunicar numa “terceira língua neutra”14. Os estilos de comunicação verbal e não verbal podem variar consideravelmente entre as culturas, que podem ser de ordem racional, reservado, dramático, expressivo, directo ou implícito, assim como a forma de comunicar a tristeza (expressivo, negação, estóico, zangado). McGoldrick et al. (1991) rela- ta um caso em que a mulher WASP está triste e afasta-se, e o marido italiano interpreta esta atitude como rejeição.
12) Lidar com o stress e conflitos. Em algumas culturas, existe a tendência para exprimir os sentimentos negativos perante o stress, outras enfatizam o auto-controlo. Exis- tem também, entre as culturas, estratégias preferenciais diferentes para resolver conflitos como a confrontação, argumentação racional, expressão emocional, evitamento, afastamen- to ou dando respostas indirectas. Algumas estratégias de coping, nos casais biculturais, podem ser complementares, e outras podem constituir uma fonte de conflitos.
13) Doença e dor. Com base em muitos exemplos, McGoldrick et al. (1996) afir- mam que as pessoas diferem, através das culturas, em relação à forma de vivenciar e exprimir a dor, de considerar o que é sintomático, de comunicar a dor e os sintomas, em relação à crença sobre as causas da doença, à forma como procuram ajuda (familiares, médicos, terapeutas, padres) e ao tratamento esperado.
14) Segundo Romano (2001), a presença, num dos cônjuges, de uma visão etnocên- trica, impede uma atitude de tolerância, respeito mútuo e sensibilidade face aos valores e necessidades do outro, que são essenciais para este tipo de casais.
15) Lidar com a morte e o divórcio. Cada cultura possui os seus próprios rituais de luto, (ver McGoldrick et al., 2004). As leis de herança, divórcio e custódia dos filhos pode- rão ser muito diferentes entre as culturas. Por exemplo, existem países (por exemplo, alguns países muçulmanos), onde apenas o marido se pode divorciar da mulher, e onde a custódia dos filhos passa para o marido. Em outros países, a custódia dos filhos cabe à mãe e, ainda, noutros, tenta-se uma custódia partilhada dos filhos em caso de divórcio. Desta
14 Entrevistámos um casal bicultural, em que a mulher portuguesa fala em francês com o marido austra-
forma, podemos facilmente imaginar que o falecimento de cônjuges ou um divórcio de um casal bicultural impõe dificuldades acrescidas. Acontece frequentemente, segundo Romano (2001), o cônjuge estrangeiro regressar ao seu país de origem após o divórcio ou falecimen- to do cônjuge.
McGoldrick et al. (1991) consideram que é difícil reconhecer que as diferenças entre os cônjuges de casais biculturais são devidas a questões culturais. Existe, normalmen- te, a tendência para as atribuir a diferenças pessoais. Mas os autores chamam também a atenção para o facto de poder existir uma “camuflagem cultural”, isto é, evitar a responsabi- lização pessoal dos comportamentos, atribuindo-os à sua cultura ou à cultura do cônjuge. Assim, podem-se utilizar valores culturais, de forma selectiva, para justificar determinadas atitudes e comportamentos.
Falicov (1995) menciona três conflitos frequentes, que ocorrem em casais bicultu- rais: conflitos no código cultural (comunicação verbal e não verbal), conflitos devido a diferenças culturais e conflitos devido a uma utilização de estereótipos (hiper- -simplificação). Com base na teoria ecológica de Bronfenbrenner (1977, 1979, 1986, 2000), Molina, Estrada e Burnett (2004) discutem como a “camuflagem cultural” e os estereótipos associados a uma comunicação desadequada provindas de vários sistemas (dinâmica fami- liar, mensagem sociais e a compatibilidade com as culturais de origem), podem afectar o casal bicultural.
Pensamos que a questão fulcral é perguntar como se pode lidar com tais diferenças.
Romano (2001) postula quatro tipos de casais biculturais, que se caracterizam por utilizarem diferentes estratégias para lidar com as diferenças e dificuldades mencionadas: 1) submissão ou imersão, em que um cônjuge se submete à cultura do outro, 2) obliteração, onde ambos os cônjuges tentam negar a sua herança cultural, formando uma terceira “iden- tidade cultural”, que passa, muitas vezes, por viver num terceiro país “neutro” e falar uma língua “neutra”, que não seja a língua materna de um deles, 3) compromisso, onde cada cônjuge abdica de aspectos (por vezes, importantes) da sua herança cultural, e 4) consenso, onde os cônjuges estão continuamente abertos a mudanças conforme as circunstâncias. Este último tipo, considerado pelo autor o mais adequado, porque se trata, ao contrário dos outros tipos, de uma situação “ganhar-ganhar”, onde se pretende que ambos os cônjuges
“ganhem”, permitindo ao outro ser diferente sem perder a sua própria identidade cultural. Isto implica uma procura constante de soluções que satisfaçam tanto individualmente cada cônjuge, como também o casal no seu todo. Se uma solução se revelar não adequada tenta- -se procurar outra, o que requer, muitas vezes, soluções criativas nas quais o humor, a fle- xibilidade e o pensamento divergente, desempenham um papel importante.
Quais os recursos de que dispõem os casais biculturais para lidar com esta maior complexidade de diferenças? Na óptica dos casais biculturais entrevistados por Romano (2001), trata-se, essencialmente, dos seguintes aspectos: 1) ter a oportunidade de ser força- do a questionar os seus valores, ideias e preconceitos o que significa auto-crescimento; 2) ser exposto a novas, diferentes e válidas formas de abordar a vida e resolver os problemas; 3) vivenciar uma maior variação e vitalidade nos seus estilos de vida; 4) desenvolver uma identidade internacional; 5) ter filhos biculturais, que possuam uma visão do mundo mais lata e a capacidade de se sentirem em casa, independentemente de onde estiverem e 6) sen- tir-se pioneiro numa nova ordem mundial de tolerância, abertura e sem discriminação.
O mesmo autor (Romano, 2001) identifica os seguintes factores para que um casa- mento bicultural seja bem sucedido.
1) Forte comprometimento com a relação. Muitos casais biculturais sentem que têm de se esforçar mais, comparativamente com os casais monoculturais, mas acreditam que não só possuem um maior grau de tolerância face às diferenças, como também têm, logo no início, a consciência de que os esperam mais dificuldades, devido às diferenças existentes. Estes casais acreditam que estão mais preparados para tolerar imperfeições e falhas, porque aprenderam a relativizar as mais diversas questões. Curiosamente, parece que uma maior dificuldade e complexidade esperada pelos casais, mobilizam mais recursos e factores de resiliência.
2) Habilidade em comunicar, o que implica também ter o conhecimento da língua materna do cônjuge.
4) Mostrar interesse pelos aspectos culturais do cônjuge. Gostaríamos de mencio-