Nas ruas há trabalhadores de todos os tipos, com diversas experiências. Uns nunca tiveram um trabalho formalizado, com carteira assinada. Outros viveram essa experiência, como o “V”, que provou a trajetória do trabalho formal para o informal. Além disso, na
economia informal, já foi camelô e hoje é catador de materiais recicláveis e “engenheiro” de
carrinhos. Por causa dessa característica, a história de vida desse trabalhador é bastante representativa e será narrada a seguir.
6.2.1 A história de vida de “V”
“V” é catador de materiais recicláveis. Na Praça do Peixe, no Bairro Lagoinha, ele
estava numa manhã nublada do mês de abril deste ano consertando um carrinho de um colega catador. Ele diz que sabe fabricar carrinhos, trabalho que aprendeu sozinho, porque fazia seus próprios brinquedos na roça.
Como ele disse, tem 58 anos e mora na rua: “uma hora eu durmo no canteiro da
Afonso Pena... outra hora eu durmo lá perto da polícia ali na... na Carijós. E outra hora eu durmo lá no hospital... naquele hospital no... no pronto socorro, lá no João XXIII”. Quando
perguntado sobre por qual razão ele não dorme no Albergue, ele explica que é para vigiar o seu carrinho, seu principal instrumento de trabalho, que ele não tem onde deixar:
I: O senhor gostaria de ir pro albergue, ou não? V: Ahn?
I: Pro albergue, o senhor gostaria de ir? Pesquisadora: Só pra dormir, né... V: Não... é... eu gostaria de ir... Pesquisadora: Tomar um banho, né... V: É.
Pesquisadora: Comer. Lá da janta, né...
V: Mas, se a gente deixar o carrinho na rua... os dono de depósito num tá aceitando mais a gente guardar carrinho não... É... só deixa guardar carrinho no... carrinho... do depósito mesmo, sabe...
I: Entendi.
V: O carrinho, assim, da... particular, eles num deixa a gente guardar não...
Como não frequenta o Albergue e não tem onde lavar suas roupas, “V” é homem que usa roupa “descartável”! Ele explica:
I: Onde o senhor toma banho, lava a roupa?
V: Não... roupa eu num lavo não. Eu uso roupa descartável, né. Roupa barata, né... I: Entendi.
V: A gente compra uma roupa aí nesses camelô. Tem um camarada que vende roupa baratinho aí, cinco reais...
I: Num tem jeito de lavar...
V: Cinco reais essa camisa... dez reais.
I: É, porque eu sempre vi o senhor arrumadinho. V: É.
Pesquisadora: Aí, usa até sujar e quando num dá mais joga fora! V: É, uai.
“V” também tem baixa escolaridade, mas consegue ler e escrever. Sobre o tempo que passou na escola, ele comenta : “Ah... eu estudei um ano e depois, quando eu fui pra Brasília
eu estudei mais um... lá... uns mês lá... que eu num sei ... num sei se foi uns cinco mês que eu estudei em Brasília né... lá no interior eu cursei o primeiro ano lá, só”.
Antes de chegar a Brasília, foi lavrador em Ataléia, Minas Gerais. Na capital federal
trabalhou na construção civil: “o primeiro serviço que eu fui... fiz... na construção civil foi
ajudar... ajudante de armador... armador, aquele de ferragem...”.
Há vinte e poucos anos, diz “V” que chegou a Belo Horizonte. No início, trabalhou no ramo da construção civil com carteira assinada, mas depois não conseguiu mais. Segundo ele,
o que o fez perder o trabalho “fichado” foi “aquele desemprego doido que tava aí, né... caçava
Como não conseguia mais arrumar emprego, antes de se tornar catador, “V” conta que foi camelô, quando teve condições financeiras de manter uma casa e ainda ter conta bancária. Em razão da intensificação da fiscalização da Prefeitura, teve que abandonar a atividade:
V: [...], mas primeiro eu trabalhei na... na... no camelô, né... antes disso, né... Pesquisadora: Ah, tá.
V: É, antes disso... fiscalização montou de cima... a gente trabalhava... a gente ganhava um troquinho bom, né... eu tinha lugar de morar e tudo, né, quando eu trabalhava de camelô. Mas, a fiscalização da prefeitura montou de cima, aí eu fui obrigado a largar o emp... o...a... a resid... a... é... o... a residência, né, que eu morava,né...
Pesquisadora: É?
V: É. Fui obrigado a largar, porque, depois, catador de papel num dá nada né... a gente num ganha o suficiente. Aí eu larguei, né...
De camelô para catador, “V” teve muitos prejuízos. Perdeu a casa, a conta no banco... Como catador, só consegue ganhar por dia, mais ou menos, dez reais. Ele só alcança mais quando encontra algum material mais valorizado, como o metal, ou quando está fabricando carrinhos. Por esta tarefa ele cobra R$ 150,00, mas diz que hoje em dia nem tem feito mais, porque a Prefeitura não permite que se faça esse serviço nas ruas. Ele explica: “não, eu num to fazendo mais não. Eu já deixei... a fiscalização montou de cima de mim, tomando meus carrinhos tudo... eu deixei de fazer, né”.
“V” conta que a apreensão dos carrinhos normalmente acontece quando ele está
dormindo, descansando:
V: Não, to falando é de noite, né. À noite. Agora, de dia, de dia a gente sai assim, pra poder trabalhar assim, é... depois de oito e meia, mais ou menos, a gente sai pra poder trabalhar. Aí, uma hora da tarde, né... uma ou duas hora da tarde, a gente para numa sombra pra poder descansar...
Pesquisadora: É...
V: É nessa hora que os fiscal já me carregou carrinho demais... foi essa hora, sabe... Pesquisadora: Hahaha.
V: Essa hora, que a gente vai dormir um sono, é que o fiscal... I: É...
V: Passa e carrega.
I: Fala pra ele que o senhor trabalhou de noite, de manhã já, né... Pesquisadora: É... tá precisando descansar, né...
V: Depois, cê vem com o carrinho cheinho e cê para, cansado, pra poder d... eles passa e vê o... ali mesmo, já me carregou um carrinho, ali em cima... me carregou outro lá... lá naquele viaduto da... da... no viaduto da Floresta, ali oh...
Pesquisadora: Como é que eles chegam? Chegam falando alto, gritando?
V: Não... é... quando a gente tá dormindo eles pega o carrinho caladinho, sem a gente ver...
Pesquisadora: Nossa...
V: É... A gente tá dormindo aí... aí eles... Pesquisadora: Covardia, né...
Isso é um pouco da vida e do trabalho na rua do “V”, que ele se sentiu à vontade para contar. Como ele, há muitos trabalhadores. Nem todos usam roupas “descartáveis” e vivem nas ruas. Outros enfrentam problemas diversos, como “P” e “F”, que dormem no Abrigo e se sentem discriminados nas ruas. Mas todos relataram que enfrentam uma dificuldade comum: a fiscalização da prefeitura.