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1. INTRODUCTION

1.2. B ACKGROUND

1.1.6. PUFA biosynthesis

No Brasil do século XIX, o movimento romântico indigenista adquiriu grande importância no cenário nacional por trazer a tona o personagem indígena como protagonista. A elaboração dos enredos atendeu a necessidade de se resgatar o papel do indígena como primeiro brasileiro, ser dotado de valores e que relacionava-se de forma harmônica com a natureza, montando um quadro idílico. Para a construção de suas histórias, os românticos resgataram textos elaborados a época da conquista e essas crônicas relatavam acontecimentos relacionados aos primeiros contatos entre os europeus e os indígenas.

A esse respeito, Lilia Moritz Schwarcz assinala que havia por parte do movimento literário indigenista um interesse relacionado à tentativa de restauração de um passado mítico, com o objetivo de concretizar a sistematização teórica de uma história nacional, projetando uma identidade brasileira em detrimento a colonial, buscando promover a autonomização da literatura brasileira. A autora salienta que apesar do pouco conhecimento referente aos indígenas do passado, os autores dos romances procuraram incorporar a figura dos indígenas às suas obras e, pensando sobre o processo de elaboração da escrita a seus enredos, ela afirma que os dicionários e

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gramáticas nativas feitas pelos jesuítas passaram a ser estimados, pois eram nestas obras onde se recolhia os termos indígenas que poderiam dar mais vida e cor aos seus romances87. Nesse sentido, foram de muita importância os documentos que eram publicados à época, tendo como veículo os anais e revistas do IHGB que era à época, o centro aglutinador das discussões e teorizações sobre o passado nacional.

Gonçalves Dias, importante escritor do romantismo indigenista demonstra este interesse inclusive produzindo uma obra intitulada “Dicionário da Língua Tupi – chamada língua geral dos indígenas do Brasil (Português-Tupi)”88 cujo teor expõe uma metódica pesquisa de alguns termos, acompanhados de explicações que elucidam o leitor sobre os usos, demonstrando o interesse do autor pela matéria.

José de Alencar filiou-se ao indigenismo e seu célebre romance “O Guarani” fulgura entre as mais consagradas obras do movimento. Com o objetivo de localizar as representações dos indígenas e identificar as fontes por ele utilizadas, elaboramos as análises que seguem.

4.1 A utilização dos termos em tupi

A utilização dos termos em tupi na obra “O Guarani” aparece principalmente quando Peri89, o personagem principal do romance, desenvolve algum tipo de relação com a natureza ou com seus antagonistas, os indígenas da etnia aimoré. A riqueza dos detalhes se expressa quando o autor procura elaborar alguma descrição ou de uma cena ou de algum ritual envolvendo indígenas, como quando Peri luta contra os aimorés e por eles é aprisionado. Assim, percebemos o incessante uso de palavras em tupi nestes dois contextos – envolvendo a paisagem natural e o antagonismo entre os grupos indígenas.

O romance “O Guarani” é organizado em quatro partes: Os Aventureiros, Peri, Os Aimorés e A Catástrofe. O quarto capítulo da primeira parte recebeu o nome de “A

87 Lilia Moritz Schwarcz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo,

Companhia das Letras, 2010. p. 131.

88 Gonçalves Dias. Dicionário da Língua Tupi: chamada língua geral dos indígenas do Brasil. Rio de

Janeiro, Livraria São José. 1965.

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Onça” e é o momento em que Peri é apresentado aos leitores. Esta aparição dá-se de forma heroica, pois o personagem surge lutando contra uma onça90 em condições de igualdade . Na descrição física de Peri aparece o termo aimará

Uma simples túnica de algodão, a que os indígenas chamavam de aimará, apertada a cintura por uma faixa de penas escarlates, caia-lhe dos ombros até o meio da perna, e desenhava-lhe o talhe delgado e esbelto como junco selvagem.91

A vestimenta do personagem é uma túnica de algodão, contudo, não bastou ao autor salientar a simplicidade do traje, ele fornece a explicação de que o traje tem um nome específico para os indígenas, chama-se aimará. Vale salientar que na primeira edição de “O Guarani” (datada de 1857) aparece a palavra guarina para nomear o traje de Peri, já nas edições posteriores incorporou-se a palavra aimará. O motivo que levou a esta mudança e o momento em que ela se deu, infelizmente, não temos condição de precisar.

Nesse mesmo capítulo, prosseguindo na luta entre o herói e a onça, é utilizado o termo ticum, que se refere ao material com que se faz corda, espécie de fibra vegetal. O texto diz que Peri “(...) meteu a mão debaixo da túnica e tirou uma corda de ticum que tinha enrolada à cintura em muitas voltas.” (p. 31), o que nos leva a entender que esta corda de ticum estava sempre ao alcance das mãos para ser utilizada em caso de necessidade. Outros exemplos de uso de tupi aparecem quando lemos sobre a batalha entre os portugueses e os aimorés, da qual Peri participa tomando partido pelos primeiros. Em um determinando momento Peri é capturado pelos aimorés e, seguindo a

90 Por vezes a onça é chamada de tigre no mesmo capítulo, quiçá para realçar a grandeza e força do

felino, rei das selvas brasileiras. E em nenhum momento ao referir-se a onça o termo jaguar (onça em tupi), é mencionado. O termo jaguar aparece apenas na página 272, afim de traçar uma comparação entre o felino e algumas características dos aimorés: “Os dentes agudos como a presa do jaguar, já não tinham o esmalte que a natureza lhes dera(...)”

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tradição desta nação de indígenas, preparou-se o banquete no qual o prisioneiro seria devorado em ritual antropofágico.

Os aimorés, depois de ligarem os punhos do prisioneiro, conduziram a alguma distancia à sombra de uma árvore, e aí o prenderam com uma corda de algodão matizada de várias cores a que os guaranis chamavam muçurana.”92

Podemos localizar nesta afirmação uma especificidade, que para nós é esclarecedora. Ao fim da sentença, o autor nos informa que aquela corda recebia o nome de muçurana pelos guaranis e, assim sendo, podemos afirmar que existe, por parte dele, a intenção de produzir uma narrativa voltada para enaltecer a linguagem do guarani, pois este grupo é eleito para dar nome às coisas. Todos os termos indígenas presentes no texto são de origem tupi e, em nenhum momento aparecem vocábulos relacionados a cultura dos aimorés. Esta é uma constante na obra, revelada também pela inexistência do uso nomes próprios para os aimorés, sendo que estes são chamados genericamente pelo nome de sua nação.

A muçurana era um tipo de corda e foi utilizada para atar os punhos de Peri, uma vez que ele era prisioneiro dos aimorés. O ritual de antropofagia seguia algumas normas, pois era um ritual orientado para satisfazer algumas necessidades religiosas. Contudo, em “O Guarani”, o ato de canibalismo resvala-se em uma necessidade de vingança, posto que um português – dom Diego, filho e herdeiro de dom Antônio de Mariz - assassinou de modo acidental uma jovem índia aimoré, e a batalha iniciou-se por conta da necessidade de os aimorés equipararem o dano causado pelo rapaz. O ritual de canibalismo era uma festa, durava vários dias e, de acordo com Carlos Fausto, existiam vários passos a serem seguidos e um deles envolvia a muçurana.

Durante esse período, o cativo era preparado para execução num processo crescente de “re-inimização”: no dia que antecedia o massacre, segundo

67 Cardim, encenavam uma tentativa de fuga do prisioneiro e sua captura. Era-lhe dado também o direito de vingar antecipadamente a própria morte: amarrado pelo ventre por uma grossa corda de algodão ou embira, chamada muçurana, recebia pedras frutos, cacos de cerâmica, que deveria lançar contra a audiência, mostrando sua ferocidade e coragem. 93

Em Alencar, o leitor experimenta uma nuance deste complexo ritual, pois os acontecimentos são narrados de modo frenético, para prender o leitor à narrativa. Percebemos que a obra apresenta uma simplificação, pois Peri é preso e, imediatamente, no campo de batalha mesmo, iniciam-se os preparos para o canibalismo. O cauim94 já estava pronto para ser consumido e as canções entoadas traziam a simbologia do assustador ritual e “o ar estrugiu com o som rouco da inúbia e do maracá95” (p. 291).

Apesar dos aspectos sombrios e do ambiente de tensão criado em torno da cena, elementos românticos são incorporados também nestes momentos tão críticos para o herói guarani. A guardiã do prisioneiro, uma jovem aimoré, depois de apaixonar-se por ele, oferece-lhe a possibilidade de fuga ao que ele nega, preferindo permanecer cativo e morrer com honra.

Em um determinando momento da trama, esta jovem aimoré lança seu corpo sobre o de Peri, protegendo-o de uma seta fatal, e morre ofertando sua vida no lugar da de seu cativo. Nas Notas de “O Guarani”, Alencar acrescenta uma informação referente à figura da “esposa de túmulo”, fazendo menção ao que escreveu o cronista Gabriel Soares de Sousa em “Roteiro do Brasil” 96. Ele diz que

93 Conforme mencionado por Carlos Fausto. Fragmentos de História e Cultura tupinambá: Da etnologia

como instrumento crítico de conhecimento etno-histórico. In: História dos índios no Brasil. São Paulo: Companha das Letras, 2009.p. 391.

94 Cauim: cachaça de mandioca utilizada para finalidades rituais. 95 Maracá: chocalho usado em rituais.

96 Gabriel Soares de Sousa: autor “Tratado descritivo do Brasil em 1587”. Através de sua crônica,

elaborou um registro fecundo sobre a natureza do país, dedicando especial atenção aos grupos indígenas que povoavam as terras brasileiras à época.

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“Espôsa de túmulo - “Dão a cada prisioneiro por mulher a mais formosa moça que há na sua casa; a qual moça tem o cuidado de servir e dar-lhe o necessário para comer e beber””. (Nota 280, p. 378)

Mais adiante, na Nota 282 Alencar justifica, através de um recorte do mesmo documento de Gabriel Soares de Sousa, a incorporação do elemento romântico anteriormente citado, em que a guardiã de Peri lhe oferece a possibilidade de fuga. O trecho em questão, ao tratar das tais “esposas de túmulo”, diz que

Mas também há algumas que tomaram tamanho amor aos captivos que as tomaram por mulheres, que lhes deram muito jeito para se acolherem e fugirem das prisões que eles cortam com alguma ferramenta que ellas às escondidas lhe deram (...)

O cronista, ao registrar esta recorrência entre os indígenas habituados aos rituais de canibalismo, ofereceu um fecundo material de trabalho para os escritores que pesquisavam e escreviam sobre a temática dos primeiros povos do Brasil. José de Alencar valeu-se destes registros, utilizando-os na construção de seu romance, elaborando um enredo que é fantasia e deleite contudo, a trama é articulada em torno de fatos verossímeis.

Nesse sentido, Machado de Assis, ao prefaciar a edição de 1887 de “O Guarani”, assevera que “a originalidade do autor estava na imaginação fecunda, - ridente ou possante, - e na magia do estilo” 97. Esta pujança imaginativa, aliada ao ritmo frenético em que a narração ocorre, percorre toda a trama e a natureza exuberante, tanto da paisagem como do indígena representado, agregam vivacidade à literatura de Alencar.

97 O imortal Machado de Assis prefaciou uma edição de “O Guarani” em 1887, que foi publicada após a

morte de Alencar. Este prefácio está disponível em uma edição posterior, datada de 1970. José de Alencar. O Guarani. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1970. p. 7-11.

69 Iara é outro termo em tupi utilizado na obra e que revela a relação existente entre Peri e Ceci. A palavra surge num momento em que o herói resgata a jovem filha de dom Antônio de Mariz da morte.

De repente, entre o dossel de verdura que cobria esta cena, ouviu-se um grito vibrante e uma palavra de língua estranha:

- Iara.

É um vocábulo guarani: significa senhora. 98

Mais uma vez podemos verificar a preocupação do autor em ilustrar o leitor, oferecendo o significado do termo que ele está utilizando. No trecho selecionado, evidencia-se a inclinação informativa de Alencar, pois a estrutura da narração aponta para este caráter didático. Havia por parte dos adeptos do romantismo como expressão literária, o interesse de elevar aspectos da indígena, e isso se deu através da incorporação de termos em tupi e elementos da cultura nativa as suas narrativas.

Ao optar pela língua tupi e edificar a trama em torno do guarani, Alencar produz uma diferenciação deste grupo frente aos demais e apresenta, a nosso ver, uma tomada de posição a favor destes e em detrimentos aos outros – sendo estes representados, na obra, pelos aimorés.

4.2 Peri

O personagem principal do romance “O Guarani” é Peri, um jovem de origem goitacá que foi conviver com os portugueses por conta de sua devoção a Ceci, filha de dom Antônio de Mariz. No capítulo intitulado “Iara” é narrado o primeiro diálogo entre o fidalgo português e Peri, logo após o rapaz ter salvo a vida de Ceci

70 Por fim D. Antônio passando o braço esquerdo pela cintura de sua filha, caminhou para o selvagem e estendeu-lhe a mão com gesto nobre e afável; o índio curvou-se e beijou a mão do fidalgo.

- De que nação és? perguntou-lhe o cavalheiro em guarani. - Goitacá, respondeu o selvagem erguendo a cabeça com altivez.

- Como te chamas?

- Peri, filho de Ararê, primeiro de sua tribo.

- Eu, sou um fidalgo português, um branco inimigo de tua raça, conquistador de tua terra; mas tu salvaste minha filha; ofereço-te a minha amizade.99

São fartas as possibilidades de análise para este diálogo extraído do livro de Alencar e, dentre estas, optamos pela que revela a condição de Peri frente ao fidalgo. O herói indígena acabara de salvar vida da jovem Ceci e, passado o susto, o pai queria saber sobre o salvador. Ele estende a mão a Peri e a reação do indígena é de pronta submissão, pois ele se curva e beijando-lhe a mão, ato que denota respeito e sujeição, incompatível com um guerreiro guarani, primeiro de sua tribo. O fato de dom Antônio de Mariz conhecer o idioma indígena pressupõe que este já teria travado um contato com indivíduos da etnia de Peri, a ponto de dominar sua língua e aprender a comunicar- se com eles.

Quando indagado sobre sua origem, Peri responde com altivez que é um goitacá, e é o primeiro de sua tribo – seu pai, Ararê era o líder da tribo e com sua morte, caberia a Peri ocupar esta função. Mais uma vez dom Antônio de Mariz se coloca numa condição superior a de Peri, afirmando que é um branco português, um conquistador, um inimigo da raça do jovem índio. Apesar de todos esses elementos que jogariam por terra todas as possibilidades de entendimento entre ambos, o heroico ato de Peri amenizou um possível conflito que pudesse existir, a ponto de o pai da menina oferecer amizade ao salvador de sua filha e estabelecer, a partir disso, uma relação de respeito e confiança com ele.

Nos apontamentos finais da obra, as Notas deixadas por José de Alencar revelam que o autor tinha conhecimento dos registros deixados pelos cronistas e apoiou-se

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nestes textos para produzir a narrativa. Esta revelação reforça a ideia da constante pesquisa histórica feita pelos autores românticos, para que suas obras tivessem mais respaldo teórico

O tipo que descrevemos é inteiramente copiado das observações que se encontram em todos os cronistas. Em um ponto porem variam os escritores: uns dão aos nossos selvagens uma estatura abaixo da regular; outros uma estatura alta. Neste ponto preferi guiar-me por Gabriel Soares que escreveu em 1580, e que nesse tempo devia conhecer a raça indígena em todo o seu vigor, e não degenerada como se tornou depois.100

Mais uma vez Alencar se refere aos registros de Gabriel Soares de Sousa e esta é uma constante nas Notas. Este cronista, através de sua descrição revela o olhar do conquistador branco que aqui vivia e procurava manter sua subsistência, tratou também de elucidar sobre as disputas entre os diferentes grupos indígenas que pelejavam por terras naquele período.

Um aspecto que despertou nossa atenção foi a observação feita por Alencar, referindo-se ao indígena que viveu na época de Gabriel Soares de Sousa. Para ele, naquele período a raça indígena era plena em vigor, mas, com o tempo, houve a degeneração. Essa afirmação presente nas Notas revela o julgamento do autor em relação aos indígenas contudo, não é possível verificar o conteúdo subjacente dessa fala, pois ele não prossegue discutindo o tema da degeneração. Acreditamos que existe uma relação entre esta ideia e aquela já desenvolvida num capítulo anterior, na qual nos referimos as discussões sobre a degeneração na América.

Referindo-se especificamente aos indígenas Goitacazes, no já mencionado Tratado de Gabriel Soares de Sousa podemos encontrar no capítulo XLV intitulado “Em que se diz quem são os Goitacazes, sua vida e costumes” uma preciosa narrativa sobre a nação de Peri

72 (...) Esse gentio tem a côr mais branca que os que dissemos atrás, e tem diferente linguagem; é muito bárbaro; o qual não granjeia muita lavoura de mantimentos: plantam somente legumes, (...), e a caça, que matam às flechadas, porque são grandes flecheiros. Não costuma esta gente pelejar no mato, mas em campo descoberto, nem são muito amigos de comer carne humana (...); não dormem em redes, mas no chão, com folhas debaixo de si.

Costumavam estes bárbaros (...) andarem no mar nadando, esperando os tubarões com um pau muito agudo na mão, e, em remetendo o tubarão a eles, lhe davam com o pau, que lhe metiam pela garganta com tanta força que o afogavam, e matavam, e o traziam à terra, não para o comerem para o que se não punham em tamanho perigo, senão para lhes tirar os dentes, para os engastarem nas pontas das flechas.

Tem esse gentio muita parte dos costumes dos tupinambás, assim no cantar, no bailar, tingir-se de jenipapo, na feição do cabelo da cabeça e no arrancar os mais cabelos do corpo e outras gentilidades (...) 101

Em que pese alguns adjetivos valorativos empregados, tais como os que julgam bárbara a natureza destes gentios - como quando é ressaltada a sua limitação para a agricultura - percebemos que, de um modo geral, a caracterização traçada para estes indígenas é positiva. O cronista diz que eles não comem carne humana (hábito que representa grande temor para seus contemporâneos, tanto brancos como indígenas) que são grandes flecheiros e que gostam de lutar em campo aberto. É apontada também uma particularidade dos Goitacazes, que é a engenhosidade, manifesta através de técnicas para dominar a natureza.

O relato descreve a destreza dos Goitacazes no que se refere à produção de suas armas de guerra, sendo que eles descobriram que dos dentes dos tubarões poderiam obter as pontas para tornar suas lanças mais letais destacando, desse modo, as virtudes dos indígenas da etnia goitacá.

73 4.3 O confronto: aimorés x guaranis – a importância das crônicas

O enredo de “O Guarani”, até onde pudemos aferir, foi alicerçado com o intuito de exaltar os indígenas da etnia guarani, afim de elevá-los positivamente à condição de primeiros brasileiros, sendo pois necessários para a construção da identidade brasileira, insígnia do indigenismo. E Alencar confirma esta premissa nas Notas quando, ao teorizar sobre os guaranis o autor esclarece que

O título que damos a este romance significa o indígena brasileiro. Na ocasião da descoberta, o Brasil era povoado por nações pertencentes a uma grande raça, que conquistara o país havia muito tempo, e expulsara os dominadores. Os cronistas ordinariamente designavam esta raça pelo nome Tupi, mas esta denominação não era usada senão por algumas nações. Entendemos que a melhor designação que se lhe pode dar era a da língua geral que falavam naturalmente lembrava o nome primitivo da grande nação102.

Evidencia-se, através da leitura desta observação feita pelo próprio autor a tendência de que, para os autores românticos, preocupados com a construção de uma identidade indígena brasileira, seria necessário resgatar elementos da cultura guarani em detrimento das demais nações indígenas que partilhavam o território com os mesmos. O autor inclusive rejeita a nomenclatura Tupi, comumente destinada aos indígenas