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Publikums forventninger - tillit til politiet

Apesar do avanço das tecnologias comunicacionais, de acordo com Emediato (2015) e Maingueneau (2015), os estudos sobre o universo do discurso nas redes sociais digitais pela perspectiva da Análise do Discurso ainda acontecem de forma tímida. Talvez pela infinidade de dados ali disponíveis ou, ainda, por entender a internet como espaço “perigoso” e até mesmo “pouco desbravado” para que se analise discursos de uma forma mais profunda.

38 “A interpretação é o sentido pensando-se o co-texto (as outras frases do texto) e o contexto imediato”

63 O fato é que, mesmo em seus primeiros passos, a pesquisa em Análise do Discurso no ambiente digital tem mostrado sua importância, pois a internet possibilita lugares de comunicação digital, como as redes sociais digitais, nos quais sujeitos podem se expressar e conversar, criando, recriando e até circulando discursos. Dessa forma, cada vez mais anuncia-se a necessidade de que analistas do discurso selecionem corpora ligado aos ambientes digitais na internet.

Nessa perspectiva, Maingueneau (2015) considera a diferença entre texto39 e corpus

essencial. De acordo com Charaudeau e Maingueneau (2014), o texto é uma “unidade complexa” para se restringir em conceitos. Segundo os autores, somente as noções de coesão ou coerência linguística não dão conta daquilo que o faz como unidade. “Se existem regras de boa formação, estas regras são certamente relativas aos gêneros de discurso, ou seja, as práticas sociodiscursivamente reguladas” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2014, p. 467). Pensando nos estudos da Análise do Discurso40, o corpora “[...] é o corpus que de fato define

o objeto de pesquisa, pois ele não lhe preexiste. Mais precisamente, é o ponto de vista que constrói um corpus, que não é um conjunto pronto para ser transcrito” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2014, p. 138, grifos dos autores). Para Maingueneau (2015), portanto, a análise do discurso não pode estudar textos, a não ser que estes sejam convertidos em corpora. De acordo com o autor, um corpus pode ser estabelecido por um grupo mais ou menos amplo de textos, trechos de textos, como também por apenas um texto.

Sobre a escola francesa de Análise do Discurso, Maingueneau (2015) considera que,

[...] com a evolução das tecnologias da comunicação, as situações se tornam cada vez mais difíceis de classificar, tal é a mistura entre atividades verbais e não verbais. A presença crescente das novas tecnologias na vida moderna torna possíveis formas de interação que se deixam prender cada vez menos em uma oposição elementar entre atividade verbal e não verbal. Depois dela, torna-se mais difícil associar um gênero de discurso a uma situação de comunicação: o hibridismo torna-se regra (MAINGUENEAU, 2015, p. 116).

O autor entende que, com o uso progressivo da informática, estamos cada vez mais distantes da ideia de textos como “totalidades dadas” capazes de serem assimiladas por leituras “atentas e justapostas”. Para o estudioso, o desenvolvimento constante dos computadores como

39Maingueneau (2015) agrupa os usos do texto em três eixos principais, são eles: o texto-estrutura, entendido

como a relação frase a frase ou o agrupamento de frases; o texto produto é assimilado como “traço” de uma atividade discursiva (oral, escrita ou visual) e associado a “dispositivos de comunicação” e a “gêneros do discurso”; por último, o texto-arquivo é tido como algo permanente, por sua fixação em suporte material ou na memória. Nesse caso, entretanto, o texto não é associado a uma “atividade de discurso”.

40“Os analistas do discurso não estudam obras, eles constituem corpora, eles reúnem materiais que julgam

necessários para responder este ou àquele questionamento explícito, em função das restrições impostas pelos métodos aos quais recorrem” (MAINGUENEAU, 2015, p. 40, grifo do autor).

64 potência, como a multiplicação dos instrumentos de gravação, a possibilidade de acesso aos “rastros” deixados pelos usuários no ambiente digital e o crescimento da capacidade de armazenamento, por exemplo, permitem a integração de grande número de textos em vastas bases de dados. Esse material serve como base para que pesquisadores elaborem corpora e sejam levados, paulatinamente, a lidar com dados selecionados e tratados para serem traduzidos em corpus de pesquisa (MAINGUENEAU, 2015).

Maingueneau (2015) afirma que o universo do discurso se revela como a interação multiforme do dizer e do já dito. Assim, o autor apresenta a noção de traço41, “[...] toda retomada

de enunciações anteriores sob forma de citação é um traço dessas enunciações. Pode-se, igualmente, em um nível mais especulativo, lembrar que, no discurso, se enlaçam permanentemente construído e pré-construído” (MAINGUENEAU, 2015, p. 149). A perspectiva abordada aqui, entretanto, é considerada pelo pesquisador mais restritiva, pois se limita aos enunciados que podem ser conservados, aqueles que se convertem em objetos capazes de circular e em sujeitos a serem submetidos a “diversos processamentos”. Segundo o pesquisador, os traços podem ser preservados e difundidos como arquivos escritos ou na memória, como também por meio de outras técnicas de conservação e transmissão. Para ele, trabalhar sob a ótica do discurso é realizar a experimentação das confusas relações entre traço, ética e poder. Segundo Maingueneau (2015), preservar o traço de uma enunciação jamais se resume a uma ação neutra. O autor afirma, ainda, que passamos hoje por uma profunda transformação na relação com o traço.

Independente dos problemas específicos suscitados pela Web, com a multiplicação dos instrumentos de gravação, o crescimento da capacidade da memória dos computadores e o acesso aos arquivos de atividade semióticas que lhe escapavam ou que não existiam (gravação de solicitações nos motores de busca, do SMS, dos e- mails etc.), vê-se crescer de maneira quase incontrolável o campo do arquivável. De fato, aos traços “explícitos”, os documentos online, se juntam aos traços “implícitos” destacados sem o conhecimento dos internautas (MAINGUENEAU, 2015, p. 156, grifos do autor).

Sobre o retorno ao arquivo, Dias (2015) argumenta que a sua construção não é linear, muito menos pontual, mas assume diferentes formas materiais. Para a autora, o movimento se dá pela polissemia e deve levar em conta as condições de produção na internet, “[...] a discursividade da rede de sentidos, que não escapa à injunção do digital e dos modos de existência dos sujeitos e de produção de sentidos na sociedade digital” (DIAS, 2015, p. 980).

41 “Em seu nível, os estudos de discurso também contribuem para criar traços, pelo simples fato de que convertem

enunciações em corpus, traços formatados com vistas a uma pesquisa de certo tipo. Essa conversão pode se apoiar em documentos escritos ou em vídeos previamente existentes, mas pode também ser um trabalho do pesquisador, que grava dados” (MAINGUENEAU, 2015, p. 156).

65 Além disso, ela considera fundamental a compreensão da relação entre língua e discursividade, feita com o trabalho real de leitura do arquivo. “Pensar o arquivo, a leitura e a constituição do corpus da perspectiva da análise do discurso é de suma importância, pois, com a internet, o discurso digital, pensa-se que tudo é novo” (DIAS, 2015, p. 980).

Maingueneau (2015) complementa que o analista do discurso, assim como o historiador, não deve se satisfazer com a descrição de procedimentos que possibilitaram que chegassem até ele, com suas emergências de pesquisa, um ou outro tipo de traços. Segundo o autor, é preciso, também, refletir sobre as configurações sócio-históricas determinadas, que tornam esses traços possíveis. De acordo com ele, o desenvolvimento das bases de dados construídas por meio de “traços” deixados pelos usuários nas redes digitais é explorado por companhias globais como o Facebook ou o Google, por exemplo, submetendo-os, assim, a uma infinidade de processamentos, conforme os objetivos da empresa, a fim de monetizarem o processo.

Segundo o pesquisador, o ambiente digital transforma profundamente o que se entende como “universo do discurso”. Este aparece, agora, como “[...] um universo atravessado por uma falha constitutiva entre dois constituintes assimétricos cujas relações evoluem sem cessar e que são indissociáveis sem serem complementares” (MAINGUENEAU, 2015, p. 148, grifo do autor), e não mais como a interpenetração mais profunda de dois universos de discurso.

O internauta cujos cliques são arquiváveis pelos servidores, a rede social que conserva de maneira ilimitada os conteúdos publicados na internet por seus membros, os serviços de espionagem que captam conversas telefônicas ou mensagens eletrônicas, ou simplesmente os metadados... são práticas que propiciam inevitavelmente debates de ordem ética. O domínio dos traços deixados pela fala é um extraordinário instrumento de poder (MAINGUENEAU, 2015, p. 157).

Maingueneau (2015) diz, também, que algumas noções conceito da AD se mostram úteis para analisar as práticas discursivas no ambiente digital. É o caso, por exemplo, da noção de “hipergênero” que, para ele, é uma composição de “gêneros fracos” que podem resguardar gêneros muito diferentes, limitando “frouxamente” a enunciação. Trata-se, ainda, de uma categoria que pode ser apreendida em vários níveis e que, muitas vezes, não pode ser explorada sem levar em conta o setor de atividade social envolvido. Desse modo, o autor explica que, no ambiente digital, “[...] o recurso a um hipergênero ou a uma cenografia está longe de ser insignificante. Pelo contrário, permite dar sentido à atividade de comunicação, instaurando uma relação entre os parceiros da comunicação, e tais escolhas são sintomáticas de determinada configuração social” (MAINGUENEAU, 2015, p. 164).

66 Nessa perspectiva, Emediato (2015) afirma que o universo digital mostra abertura, como nunca antes outro aparato tecnológico o fez à “[...] expressão multiforme da retórica humana [...]”, em suas variadas proporções e atribuições. Antes da internet, segundo o autor, a retórica apenas acontecia publicamente quando monitorada em condições institucionais e praticada por “homens eleitos” e ligada aos “dispositivos institucionais”. Hoje, entretanto, possuímos um ambiente no qual um número significativo de pessoas pode se expressar e ter visibilidade, sem necessariamente pertencer a uma “instituição”. O pesquisador usa como exemplo as redes sociais digitais, que, além de se mostrarem como grande novidade nas democracias, também colocam em cena várias especificidades do humano.

No sentido pragmático, se faz muita coisa em uma rede social, como o Facebook, por exemplo. A palavra se faz ação, efetivamente. Podemos encontrar, nessa rede, tudo o que poderíamos supor no universo de discursos e nos espaços discursivos. Múltiplas formações discursivas, diferentes gêneros de discurso, e o dialogismo em todos os seus estados. Está tudo ali. (EMEDIATO, 2015, p. 173, grifo nosso).

Entende-se que as redes sociais digitais, mais especificamente o Facebook, vêm se mostrando como espaço de bastante relevância para os estudos de discurso. Constituindo-se na sociedade contemporânea como um ambiente destinado à comunicação, no qual os atores assumem papéis e lugares de fala diversos, o levantamento teórico das discussões que abrangem Análise do Discurso e Facebook mostra-se necessário à pesquisa aqui realizada. Assim, tais questões, bem como as especificidades dessa rede social digital para o âmbito do discurso, são debatidas no tópico a seguir.