Nos 100 anos de história da Igreja no Brasil revisitados aqui, o catolicismo mudou de cara diversas vezes, assumindo num determinado momento do tempo posições absolutamente diversas daquelas que defendia num período anterior. Os contrastes entre a Igreja da Libertação e a da Neocristandade são claros. Mas é igualmente claro o processo contínuo de estruturação de um catolicismo que havia ficado por quase 400 anos desorganizado.
139 Juntamente com os ideais e compromissos valorativos dos religiosos, o modelo ideal de organização eclesial variou. No entanto, uma tendência é unívoca: a racionalização do formato de instalação da Igreja no Brasil durante todo o período estudado é fortemente influenciado ou elaborado em resposta às ações do Estado e às condições da sociedade abrangente. As justificativas que buscam garantir legitimidade e plausibilidade às iniciativas organizacionais da Igreja sempre se nortearam pela busca deàe p i i àu àali ha e toà o à oç esàso eàoà e à o u .à
De 1890 ao final da década de 1920, os pactos estaduais permitiram a atuação conjunta da Igreja com os poderes políticos, o que expressou, de modo indireto, a saída da uelaà postu aà aisà a usado a à daà o diç oà ode a.à Issoà pe itiuà ueà aà Igreja desvanecesse aos poucos a imagem de grupo particularista e certamente permitiu que não se desenvolvesse no Brasil, diferentemente de muitos países latino- americanos, um anti-clericalismo em meio ao ambiente republicano. O ganho de legitimidade da Igreja na década de 1930 está em boa medida ligado à orientação a io alistaà deà D.à Le e,à ueà ide tifi ouà osà i te essesà at li os à aosà i te essesà nacionais. Posteriormente a ação dos movimentos de esquerda católica, desde a década de 1940 transmutou o ideal da caridade em justiça social, e a Igreja pôde se ali ha àaoàdese ol i e tis oàse à ueàpa e esseàesta à sai doàdeàseuàluga .àOài í ioà do processo de redemocratização, nos anos de 1980, não apagam a legitimidade da Igreja. E assim o Vaticano pôde enfatizar sua disciplina e o retorno ao conservadorismo sem prejuízo da imagem social do catolicismo.
Nas mais diversas circunstâncias de trocas e relações com o Estado, a Igreja do Brasil herda formatos organizacionais, técnicas de administração e avaliação, ideologias. A necessidade de coordenação do catolicismo por todo território nacional encontrou importantes soluções nos formatos institucionais seculares. Primeiramente através da instalação de dioceses em localidades política ou economicamente importantes (entre 1890 e 1930). Depois através de parcerias abertas com o Estado, que, num via de mão dupla, exportaram modelos eclesiais de assistência social e os trouxeram de volta, mais racionalizados e profissionalizados. A CNBB tem sua primeira sede no Rio de Janeiro, capital do Brasil, à época. Hoje, ela se localiza em Brasília. Com os Planos de
140 Emergência e Pastoral de Conjunto, são criados secretariados da CNBB por todo país, dividindo o te it ioà a io alàe à egio ais ,àassi à o oàoàIBGEàdi ideàpoliti a e teà o Brasil em meso e macro-regiões.
O apego à técnica é posteriormente criticado pela vertente progressista. Mas cabe ressaltar que isso não anulou e nem alterou fundamentalmente as práticas de planejamento pastoral. Após o Plano Pastoral de Conjunto, a CNBB decidiu tornar sistemáticas suas ações de planejamento. Desde a década de 1970 são formulados Planos Bienais dos Organismos Nacionais (hoje denominados Planos Bienais do Secretariado Nacional) e Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora nao Brasil (que são a continuidade direta daqueles grandes planos da década de 1960 – a publicação é quadrienal).
Mesmo com a crítica da Igreja da Libertação, a necessidade da técnica não foi questionada. O que os progressistas impugnavam era o excessivo valor da idéia de eficácia e de especialização – uma Igreja Popular não poderia esquecer a centralidade dos leigos (da coletividade) e da necessidade de manter um diálogo com bases numa linguagem acessível. Na Igreja não poderia haver o governo dos técnicos.
Esta revisão histórica chega até o final do século XX, que é quando a Igreja mais acirra a adoção de práticas administrativas modernas e empresariais. Mas um esboço do caminho já havia sido traçado. O grande arcabouço de práticas e perspectivas vistos aqui servirá como fonte de argumentos e justificativas para as atividades organizacionais contemporâneas. Às portas do século XX, a idéias de planejamento pastoral racional e de burocracia eclesial poderiam causar risos aos bispos da época. Às portas do século XXI, indiscutivelmente a Igreja já se constitui como burocracia autônoma e complexa, com práticas institucionalizadas de planejamento.
É importante destacar que, durante todo o processo narrado, a importância tantas vezes enfatizada da competição inter-religiosa à mudança organizacional das igrejas uaseà oàapa e e.àÉà e dadeà ueàe t eàosà e os à ode osàest oàoàp otesta tis oà e o espiritismo – e esses são também temas das primeiras reuniões da CNBB, na
141 década de 1950 (importante mencionar que, em 1954, foi lançada a Campanha Nacional contra a Heresia Espírita). No entanto, os resultados deste trabalho apontam que a competição religiosa teve importância marginal no período considerado. A maior fonte de racionalização organizacional parece ter sido uma relação de mimetismo com respeito ao funcionamento do Estado, bem como as grandes tentativas de alinhamento axiológico do catolicismo com a sociedade abrangente. Os maiores perigos para o catolicismo pareceram ser sempre as formas populares de religiosidade (que não requeriam controle sacerdotal), a secularização (que crescentemente tornava o Estado menos compromissado com os assuntos religiosos) e o crescimento do descompromisso religioso (expresso principalmente nas classes médias urbanas, o postasà deà at li osà o-p ati a tes .à Todosà essesà o i e tos,à e à dife e tesà pontos do tempo, ganharam força e legitimidade nas ideologias seculares.
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Capítulo 3 – áàgestãoàe lesialàeàseusà asosàdeàsu esso
E entrou Jesus no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas; E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões.
OsàVe dilh esàdoàTe plo ,àMateusà : -13.
A Igreja precisa ter ferramentas que lhes dêem esse respaldo estratégico, que dêem elementos de precisão para aferir os resultados, pois estas estão há muito tempo, já disponíveis no mercado. Por que não fazer uso delas e em benefício da
missão?
Padre Nivaldo Pessinatti, presidente do Ceris
Introdução
Este capítulo apresenta desdobramentos recentes da adoção de práticas administrativas modernas no interior da Igreja Católica no Brasil. Diferentemente do capítulo anterior, também empírico, os dados apresentados aqui, em sua maioria, foram levantados e produzidos durante a pesquisa desenvolvida no mestrado, frutos de entrevistas e observações em campo.
A apresentação será dividida e àt sàpa tesàp i ipais,àaà ueà ha eiàdeà asos ,àpostoà que narram situações mais ou menos independentes – como pequenos estudos de caso –, mas também em alusão à idéia de case, advinda do marketing, em que o uso se efe eà àhist iasà ueàe ide ia à oasàp ti as àouàusosàe e pla esàdasàt i asàdeà administração. De certo modo, também os casos aqui pretendem ser exemplares, por ilustrarem momentos e eventos em que posturas empresariais foram adotadas com grande intensidade pela Igreja. Não posso dizer queàse ia à asosà u iais à ECK“TEIN,à 1975)68 para um teste de hipótese. Ao contrário, não se trataria de um teste, mas apenas do reforço da plausibilidade das hipóteses levantadas no primeiro capítulo – dada a natureza de um estudo qualitativo como este.
68 Cf. Gerring (2007), para uma revisão das abordagens qualitativas de estudo de caso e uma crítica do o eitoàdeà asosà u iais .
143 O primeiro caso faz uma ponte direta com os assuntos tratados no capítulo anterior, sobre os desenvolvimentos do planejamento de pastoral. Aborda mudanças recentes no perfil das atividades e da organização do Ceris, organismo que havia sido criado para prover com pesquisas e dados as práticas de planejamento. O segundo caso trata de alguns eventos e feiras promovidos no âmbito do catolicismo brasileiro e que são grandes responsáveis pela difusão de um pensamento que poderíamos chamar de gest oà e lesial à – bastante associado a uma lógica mais empresarial de administração. O terceiro caso aborda principalmente os formatos rotineiros de administração, baseadas em funções de escritório e contabilidade. A instância estudada foi a Arquidiocese de São Paulo, instituição central do catolicismo no país, apoiadora de diversos eventos e movimentos de modernização administrativa.