Segundo Sacristán (2000), os componentes curriculares são elementos e dimensões de naturezas diversas que devem ser abarcados pelo currículo. Entre eles, destacam-se as características geográficas locais, os recursos disponíveis pela escola, as características institucionais ligadas à sua missão, visão e valores e, ainda, o perfil do egresso que se pretende formar. Quando se acrescentam a isso as dimensões tempo e espaço, percebe-se que o trabalho de organização curricular não é algo trivial.
Com base nessas considerações, a organização do currículo de um curso voltado ao ensino superior deve ser entendida como uma atividade complexa que necessita, para atingir seus objetivos, ser realizada por pessoas com características especiais, tais como: boa formação na área pedagógica e de gestão acadêmica, conhecimento da cultura, da política institucional e das práticas profissionais que envolvem a formação profissional. Ademais, deve-se também ter clareza em relação ao perfil do egresso que a instituição se propõe formar.
Diante desses “pré-requisitos”, organizar um currículo é uma tarefa importante e complexa. Portanto, requer grande atenção por parte dos responsáveis pelo processo educativo. Além disso, não se deve perder de vista que, apesar da complexidade, o currículo deve ter a capacidade de comunicar de maneira fácil e inequívoca seus propósitos porque somente dessa forma poderá ser levado a cabo e atingir seus objetivos. Para que isso aconteça, sua estrutura e forma devem estar adequadamente construídas.
Uma análise da literatura sobre organização curricular ajuda a entender algumas questões e desafios que envolvem essa área. Um dos desafios consiste no fato desse processo, constituído por etapas estruturadas e lógicas ser relativamente novo no âmbito escolar. Essa informação é corroborada por Linuesa (2013, p. 226): “o processo de elaboração de currículo é uma atividade relativamente recente no âmbito educacional”.
Ainda, segundo Linuesa (2013, p. 227-228), “a elaboração de um projeto curricular não deve perder de vista três perguntas: ‘que fins buscamos?; qual cultura selecionamos?; como pensamos realizar a prática? ’ ”.
Para conhecer um pouco mais da visão dessa autora sobre currículo, pode-se recorrer à análise da definição que ela apresenta para currículo:
O projeto curricular é configurado como um conjunto de reflexões, propostas, prescrições e previsões para a ação, mas esses elementos têm outras leituras e interpretações diferentes. Se entendermos o currículo como uma tecnologia, o planejamento e o projeto curricular serão uma atividade essencialmente técnica, um modelo perfeitamente ordenado, formalizado, racional e fechado ao qual tudo deverá se enquadrar, tornando-se um modelo de gestão científico, ao estilo taylorista de gestão empresarial (LINUESA, 2013, p. 227).
Nota-se que ela chama a atenção para a natureza multidimensional da educação e, em função disso, as considerações que o currículo deve expressar. Dessa forma, o currículo deve contemplar também aspectos sociais, pessoais, ideológicos, etc. Sendo feito com tais considerações, esse processo torna-se distinto daquele voltado à gestão empresarial, cujo objetivo principal é o lucro.
Linuesa (2013) também discute as formas de elaboração do currículo, mostrando os elementos que devem compô-lo. Segundo essa autora, o processo de planejamento do currículo pode ser expresso pela definição dada por “Um currículo é uma tentativa de comunicar os princípios e as características essenciais de um propósito educacional de tal forma que permaneça aberto à discussão e à crítica, e possa ser levado efetivamente à prática” (STENHOUSE, 1984 apud LINUESA, 2013, p. 235).
A seguir, com base na proposta de Linuesa (2013), apresenta-se o quadro 07, no qual se sintetiza uma série de atividades que implicarão o aparecimento dos componentes necessários ao currículo. Percebe-se, pelo conjunto de componentes que o quadro contém, que a autora ratifica aquilo que já foi citado nesta tese, ou seja, o currículo é muito mais que uma matriz curricular, contém a indicação de um conjunto de práticas que levam em consideração dimensões que extrapolam a sala de aula e a escola.
Desta forma, quando se compara a literatura que trata dos componentes curriculares, mais especificamente das dimensões e processos necessários à elaboração do currículo, versus Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de
bacharelado em Administração, nota-se que tal literatura traz os temas de forma mais detalhada, procurando sempre aprofundar a discussão. As DCN, pela sua natureza normativa, são mais objetivas e sintéticas.
Apesar de possuir uma abordagem diferente, as DCN são congruentes com os pressupostos literários específicos do currículo.
Quadro 7. Modelo Processual e os Componentes Curriculares
1. Considerações para abordar no Planejamento - O perfil institucional
- Reflexão sobre a prática
- Conhecimentos e experiências dos alunos - Previsão de consequências possíveis - Análise de limitações
- Conteúdos e atividades como elementos fundamentais do currículo - Diversidade de materiais e exemplos
- Recursos necessários - Trabalho em equipe
2. Âmbito das Administrações
- Selecionar objetivos gerais do sistema - Selecionar a cultura escolar
- Estabelecer áreas de conteúdos - Estabelecer o que seria opcional - Criar uma política de materiais 3. Âmbito do Centro Educacional - Linhas metodológicas
- Atividades gerais
- Selecionar e coordenar conteúdos - Decidir a oferta de opções
- Estabelecer critérios de avaliação
- Decidir como se fará o agrupamento dos alunos - Estabelecer o uso de espaços e do tempo - Avaliação da instituição de educação 4. Âmbito da Aula
- Reflexões sobre os objetivos e fins
- Seleção, organização e sequenciação dos conteúdos - Seleção de tarefas ou atividades
- Seleção de materiais e recursos
- Adequação e organização de espaços e tempos
- Avaliação, seleção de técnicas, do que será avaliado, em que momento etc. Fonte: Linuesa, 2013, p. 236-241. Adaptado pelo autor.
Então, para contribuir com essa discussão e corroborar com aquilo que propõe Linuesa (2013), apresenta-se a seguir uma definição da literatura técnica sobre currículo, que expressa de forma mais pragmática o significado de organização curricular. Gomes (2013, p. 46) apresenta uma definição detalhada, indicando a natureza prescritiva do currículo.
Tecnicamente a organização curricular reflete o conjunto de componentes curriculares do curso, bem como das demais atividades acadêmicas necessárias para a formação do profissional desejado. Desse modo, deve proporcionar uma visão geral, proceder à apresentação do currículo do curso coerente com as diretrizes curriculares nacionais aprovadas para o curso, o projeto pedagógico proposto e coerência com os objetivos do curso, o perfil profissiográfico do egresso, as habilidades e competências requeridas do aluno. Explicitar a fundamentação teórica, os princípios curriculares (epistemológico, metodológico e profissionalizante), a articulação das disciplinas e sua interdisciplinaridade. Explicitar os eixos curriculares, se houver (eixos temáticos, complementares, etc.). Explicitar os aspectos de flexibilidade e interdisciplinaridade.
Consonante ao tema, as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de graduação do bacharelado em Administração, CNE (2005, p. 01), em seu Art. 1º, Parágrafo 1º, discorre sobre os elementos estruturais do currículo e informa que o projeto pedagógico deverá, entre outras coisas, expressar de forma clara os seguintes elementos estruturais:
I - objetivos gerais do curso, contextualizados em relação às suas inserções institucionais, política, geográfica e social;
II - condições objetivas de oferta e a vocação do curso;
III - cargas horárias das atividades didáticas e da integralização do curso;
IV - formas de realização da interdisciplinaridade; V - modos de integração entre teoria e prática;
VI - formas de avaliação do ensino e da aprendizagem;
VII - modos de integração entre graduação e pós-graduação, quando houver;
VIII - incentivo à pesquisa, como necessário prolongamento da atividade de ensino e como instrumento para iniciação científica;
IX - concepção e composição das atividades de estágio curricular supervisionado, suas diferentes formas e condições de realização, observado o respectivo regulamento;
XI - inclusão opcional de trabalho de curso sobre as modalidades de monografia, projeto de iniciação científica ou projetos de atividades centradas em área teórico-prática ou de formação profissional, na forma como estabelecer o regulamento próprio.
Finalmente, pode-se fazer um comparativo que mostra, de fato, que, do ponto de vista processual, tanto as DCN como a literatura sobre currículo consultada neste trabalho apresentam subsídios para construção ou análise de um currículo. A justificativa para isso é que ambas apresentam de forma organizada os elementos que são imprescindíveis aos processos de comunicação, controle e integração do currículo.
Sendo assim, aqueles que vão lidar com um determinado currículo terão maiores chances de êxito se levarem em conta essas informações.
É importante ressaltar ainda que, mesmo com a natureza multidisciplinar e do comportamento de sistema aberto, o currículo pode ser trabalhado sob a ótica processual. O quadro 07 apresenta uma sequência de etapas que apoiam essa afirmativa e deixa claro que, independentemente das especificidades que um determinado currículo possa ter, quando se estabelece ordem lógica entre seus elementos criam-se condições para que os objetivos sejam alcançados.