3 Innhenting av opplysninger
3.9 Psykologiske tester
A investigação que desenvolvemos procurou construir conhecimento acerca da psicoterapia, de um modo contextualizado e sustentado, tendo como horizonte a sua viabilidade e utilidade. Para tal, diversas estratégias de validação foram utilizadas, tais como o recurso a um grupo de consenso, a coerência garantida pelo envolvimento de um consultor, os esforços no sentido da auto-evidência para os dados emergentes e o estabelecimento de uma relação dialéctica entre os dados empíricos e as compreensões construídas, perspectivando a validade reflexiva do estudo. Não obstante, a possibilidade de enviesamento existe em qualquer tipo de investigação (Stiles, 1993). Apesar de se terem considerado diferentes critérios de validação nesta investigação qualitativa, tal não significa a inexistência de vulnerabilidades.
O estudo que desenvolvemos centrou-se na perspectiva dos clientes na construção de compreensões acerca da experiência e mudança em psicoterapia. Investigar as experiências e percepções dos clientes parece promover compreensões e potenciar a prática psicoterapêutica. Todavia, outras perspectivas poderiam ser levadas em consideração. Apesar de sublinharmos a importância da perspectiva do cliente na construção de compreensões acerca da psicoterapia, sugerimos o desenvolvimento de mais investigações qualitativas e exploratórias centradas na experiência do cliente, que considerem para além da perspectiva deste, outras perspectivas (do terapeuta e observadores).
Por outro lado, o nosso estudo centrou-se na fase de finalização do processo terapêutico, pelo que os dados narrativos recolhidos eram concernentes a reflexões sobre processos, acontecimentos e experiências passadas, algumas distantes no tempo. A informação era, portanto, acedida de um modo retrospectivo. Considerando que os participantes no nosso estudo, mesmo retrospectivamente, sublinharam a experiência, a mudança e aspectos psicoterapêuticos úteis como processos, parece-nos relevante o desenvolvimento de investigações que foquem o curso do processo terapêutico, de forma a acompanharem as micro-mudanças à medida que ocorrem.
Os dados recolhidos dependeram da capacidade dos participantes reflectirem acerca da sua experiência e comunicarem linguisticamente. Esta limitação é minimizada se considerarmos que nunca existe um acesso total à experiência, na medida em que a capacidade de estar consciente da própria experiência é intrinsecamente limitada, porque é sempre filtrada por diferentes aspectos, como a linguagem ou a cultura (Polkinghorne, 2005). Por outro lado, a reflexão acerca da experiência, bem como a expressão dessa reflexão pela linguagem, serve sempre para mudar a própria experiência. Portanto, os relatos dos participantes são sempre construídos. De qualquer modo, não foi nossa pretensão perceber se estas construções correspondem a uma experiência objectiva, mas compreender como os participantes constroem significado para a sua experiência. O contrário seria dissonante com a perspectiva construtivista que preconizamos. Acresce que as compreensões que elaboramos a partir do estudo são também elas próprias construção a partir de dados linguísticos. Contudo, para facilitar a focalização nas experiências e momentos da psicoterapia, poderia ser útil um foco investigativo ao nível das sessões terapêuticas. Um trabalho a nível da sessão permitiria, paralelamente, focar não só na experiência do cliente, mas na interacção deste com o terapeuta e, assim, melhor compreender, por exemplo, como as percepções dos clientes se relacionam com o seu envolvimento e as dinâmicas da relação terapêutica.
Por outro lado, alguns autores sublinham a importância de se considerar quer a mudança nas sessões, quer a mudança que ocorre no período entre as mesmas (Miller, Duncan & Hubble, 2004), na medida em que os poucos estudos que existem sobre a mudança inter-sessões sugerem ganhos neste período na maioria dos clientes em psicoterapia (Reuterlov, Lofgren, Nordstrom, Ternstrom & Miller, 2000).
Assumir uma perspectiva de mudança contextualizada em experiências intra e inter-sessões (Fernandes, 2001) desafia novamente para a análise, momento-a- momento, da experiência complexa e multivariada da psicoterapia (Greenberg, 1999). Deriva que a compreensão da complexidade da psicoterapia exige a consideração de dimensões do processo (Elliott, Slatick & Urman, 2001), nomeadamente acontecimentos considerados significativos pelos seus participantes (Rice & Greenberg, 1984).
Outra limitação que identificamos no nosso estudo prende-se com questões de metodologia. O nosso estudo desenvolveu-se por recursos a metodologias exclusivamente qualitativas. A inclusão de algumas metodologias quantitativas poderia ser enriquecedora para a comparação de medidas de resultados, considerando que os participantes se encontravam em fase de finalização terapêutica, e seu cruzamento com os dados qualitativos decorrentes da recordação do processo. Alguns autores (e.g. Alexander, Holtzworth-Munroe & Jameson, 1994) referem a possibilidade válida de se considerar uma abordagem eclética de investigação, ou seja, uma metodologia que concilie as duas formas divergentes, que pode resultar numa complementaridade na compreensão da psicoterapia.
Concluímos que a consideração de diferentes perspectivas, focalização na experiência do cliente mas também na interacção terapêutica, articulação dos dados ao longo do processo terapêutico, análise da mudança na sessão e entre sessões, e o recurso a metodologias qualitativas e quantitativas garantiria fortemente a validação do estudo por via da triangulação (Morrow, 2005).
Gostaríamos, ainda, de referir que consideraríamos interessante proceder à determinação da validade convergente da narrativa protótipo construída acerca da representatividade da psicoterapia. O seu objectivo seria averiguar a verosimilhança e aplicabilidade pragmática da narrativa protótipo. Esta validação poderia ser efectuada através do confronto de clientes em fase de finalização da psicoterapia com o protótipo, solicitando a indicação da plausibilidade da narrativa na sua experiência. Se os participantes constituíssem o mesmo o grupo do nosso estudo, estaríamos a considerar a importância da narrativa fazer sentido para aqueles que foram envolvidos no fenómeno em estudo, considerando-os os melhores informantes acerca das potencialidades da
narrativa. Esta acção, porque envolve a apresentação, negociação a apreciação dos participantes acerca das compreensões que emergiram a partir das suas narrativas, corresponderia à validade certificada, de acordo com a tipologia de validação de análises qualitativas proposta por Stiles (1993), ou ao critério da correspondência, de acordo com a proposta de Riessman (1993). Por outro lado, a apresentação do protótipo a outros clientes em fase de finalização da psicoterapia ou a psicoterapeutas garantiria outros critérios de validação como a plausibilidade e a coerência.
A subjectividade é característica central às investigações qualitativas (Morrow, 2005). Apesar de alguns investigadores poderem considerá-la como uma limitação metodológica, na nossa perspectiva, trata-se de uma mais valia neste tipo de investigações. Não obstante as vulnerabilidades e limitações em qualquer estudo, e apesar de nenhum investigador conseguir despir-se completamente dos seus valores, e aprendizagens, é possível permeabilizar-se de modo a considerar novas compreensões. Ele pode desconfirmar expectativas, surpreender-se e mesmo mudar de posicionamento na compreensão de fenómenos. O importante é gerir a subjectividade no processo investigativo, o que, no nosso estudo, foi efectuado por recurso a algumas estratégias, já referidas e utilizadas como critérios para a sua qualidade e credibilidade. Neste sentido, consideramos o envolvimento com os participantes e com o material narrativo, seguido de construções refinadas e sistemáticas de compreensões, como promotores de um processo dialéctico pelo qual os dados empíricos adquirem um poder potencial para mudar perspectivas acerca dos fenómenos que se estudam. Por via da reflexividade, o investigador explora e analisa o processo de construção das compreensões ao longo do estudo.
Em suma, o nosso estudo procurou investigar a experiência e mudança dos clientes em psicoterapia a partir da sua perspectiva. Esta opção de investigação parece promover compreensões e potenciar a prática psicoterapêutica. Sugerimos, no entanto, algumas indicações para futura investigação. Por exemplo, a necessidade de desenvolver mais investigações qualitativas e exploratórias centradas na experiência do cliente ou na interacção deste com o terapeuta, que considerem outras perspectivas além da perspectiva do cliente, que se desenvolvam ao longo do processo terapêutico e não apenas no final, que foquem a sessão ou acontecimentos terapêuticos, que considerem a
sugestões são corroboradas por alguns autores (e.g. Doss, 2004) que argumentam a existência de uma distinção entre mecanismos de mudança, ou seja, mudanças intermédias durante o processo terapêutico, e processos de mudança, ou seja, aspectos activos e globais do processo terapêutico. Esta distinção tem subjacente a ideia de que devemos, no início, desenvolver compreensões acerca dos mecanismos de mudança ao longo do processo terapêutico e, subsequentemente, conduzir a investigação no sentido de identificar processos importantes de mudança.
Parece-nos, ainda, relevante referir a importância da inclusão de estratégias de validação nas investigações, no sentido de garantir a sua sustentabilidade científica, bem como da reflexividade do investigador como uma possibilidade para lidar com a subjectividade inerente às abordagens qualitativas e hermenêuticas de investigação.