Foucault demonstrou como a medicina, a partir do século XVIII, veio a conceber o corpo como uma realidade biopolítica, e em grande parte de suas obras assinalou pontos a partir dos quais fundamentou o que ele mesmo denominou de biopoder, algumas de suas práticas e as primeiras áreas de sua intervenção: a natalidade, a morbidade, as incapacidades biológicas, os efeitos do meio. De tudo isso, o biopoder fundamenta seu saber e define seu campo de intervenção.
Nos mecanismos implantados pelo biopoder, desde o século XVIII até os dias atuais, nas sociedades contemporâneas, denominadas, por Gilles Deleuze de “sociedades de controle” (cf. DELEUZE, 2006b, p. 219-226), a medicina vai se ocupar de modo mais refinado de previsões das doenças, de estimativas de adoecimento e morte, de medições globais; vai tratar, igualmente, não só de modificar algum fenômeno em especial, mas, essencialmente, de intervir nas determinações de fenômenos gerais, naquilo que eles têm de global (FOUCAULT, 2002, p. 293). Sendo assim, dentre os fenômenos de interesse da medicina na contemporaneidade, estão as práticas sexuais desprotegidas, consideradas como um dos principais fatores responsáveis pelo surgimento de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), importantes causas de óbitos. Assim, os discursos dirigidos aos indivíduos e às populações, produzidos pela medicina e disseminados pelos múltiplos meios disponíveis, no intuito de que as relações sexuais sejam feitas com proteção, ou seja, de que se use camisinha, são discursos biopolíticos.
O sexo não se julga apenas, administra-se. Sobreleva-se ao poder público; exige procedimentos de gestão; deve ser assumido por discursos analíticos. No século XVIII o sexo se torna questão de “polícia” [...] Polícia do sexo: isto é, necessidade de regular o sexo por meio de discursos úteis e públicos e não pelo rigor de uma proibição (FOUCAULT, 2005, p. 27-28).
Como disse Foucault, o sexo tornou-se um objeto político, e por isso, alvo de gestão. Com o advento da AIDS e o número gigantesco de óbitos por ela ocasionados, o sexo e as práticas sexuais tornaram-se alvos privilegiados da
biopolítica em sua tarefa de modificar e fazer a gestão da vida, em baixar os níveis numéricos de adoecimento; em suma, em seu engajamento na busca da longevidade, no encompridamento da existência humana.
Brilhantemente, Foucault apontou a desqualificação progressiva da morte como a mais clara manifestação do biopoder. A morte, que foi durante dezenas de anos um dos principais objetos de ritualização pública, deixou de sê-lo desde o fim do século XVII; e hoje, como nunca, constitui objeto de negação. É por isso que, nas sociedades contemporâneas, tanto os indivíduos com vida sexual ativa como os que têm potencialidade de a “ativarem”, são alvos de disciplinamentos e regulamentações, são indivíduos-alvo do convencimento de que devem utilizar medidas de proteção, convocados a se reconhecerem como co-responsáveis pelo seu estado de saúde, pela gestão de sua sexualidade, de seu corpo e de sua existência. A responsabilidade pelo cuidado está passando das figuras do médico e dos demais profissionais de saúde, reconhecidas autoridades do saber, para o próprio indivíduo. A vigilância sobre a prática sexual passa a ser exercida pelo próprio indivíduo, o responsável direto pela sua vida e por sua morte.
Assim, a forma do poder exercida pela indução de uma vigilância contínua do indivíduo sobre si mesmo encontra, na informação que adverte sobre riscos um ininterrupto convite à moderação (conf. VAZ, 1999, p. 105). Um convite, inclusive, que está sendo fortalecido com os avanços da biotecnologia. Pois, com o mapeamento do genoma humano e sua junção com a epidemiologia, nasce uma medicina que é preditiva; uma medicina não endereçada aos doentes, mas aos indivíduos sãos. Com os dados sobre o genoma, serão reveladas as pré-disposições dos indivíduos a contraírem doenças, e as pessoas tornar-se-ão doentes antes da hora.
No futuro, os pacientes em uma consulta médica para um check-up físico terão o sangue testado para vários auto-anticorpos preditivos em um único exame. Em um cenário plausível, o médico enviaria uma amostra de sangue a um laboratório, juntamente com os exames rotineiros de colesterol, glicose sanguínea e outros indicadores de saúde. Uma máquina passaria o sangue por um chip minúsculo, que exibiria uma série de auto-antígenos conhecidos. Os auto-anticorpos no sangue que se ligassem a um ou mais desses antígenos disparariam pulsos de luz, captados por um detector. Em questão de horas, o médico receberia uma leitura com uma tradução dessas informações em uma previsão da saúde do paciente (NOTKINS, 2007, p. 45).
Considerado, hoje como um conjunto de bits a ser transferido pelas ondas da web, capturado e armazenado para futuras transações capitalistas, o indivíduo potencialmente capaz de adoecer, ou já doente, tornou-se objeto de marketing. Sua doença é o marketing das grandes empresas farmacêuticas e do saber médico. Antes, sua dor abria-lhe as portas; hoje, quem lhe abre as portas é seu cartão de acesso e, num futuro não muito distante, suas moléculas. Estamos diante de uma nova medicina, “sem médico e nem doente”. Viver, agora, depende de saber operar na distância entre tudo o que pode acontecer e o que é mais provável que aconteça; depende da restrição de possibilidades – e não de sua invenção. Os mediadores na relação de cada um consigo mesmo não precisam mais ser aqueles que vigiam; cabe, sim, aos meios de comunicação, informar aos indivíduos sobre os riscos que correm, dado o que fazem e o que trazem como herança genética (conf. VAZ, apud PACHECO & COCCO, 2002, p. 143). Generaliza-se o conceito de “portador” e provoca-se o desaparecimento gradual da distinção entre estados de saúde e doença. Pelas predisposições e pelos hábitos de vida, todos somos portadores virtuais de alguma doença. Desse modo, pela crença numa possibilidade oriunda de estudos avançados, devemos nos comportar como doentes sem ainda estarmos doentes.
Não se trata mais, portanto, daqueles corpos laboriosamente convertidos em força de trabalho, esculpidos em longas e penosas sessões de treinamento e disciplina para saciar as demandas de produção industrial [...] Em lugar dessas configurações, agora emergem outros tipos de corpos e outros tipos de subjetividades: autocontrolados, inspirados no modelo empresarial, imbuídos a administrarem seus riscos e seus prazeres de acordo com o seu próprio capital genético, avaliando constantemente o menu de produtos e serviços oferecidos no mercado, com toda a responsabilidade individual necessária em um mundo onde impera a lógica automatizada do self-service e onde a exterioridade se superpõe à interioridade (SIBILIA, 2002, p. 206-207, grifos da autora).
Se uma característica fundamental da “sociedade de controle” é a nova relação entre atores leigos e peritos, em que a opinião ou conselho de algum cientista sobre algum tema (dieta, saúde, etc.) rapidamente passa para a consciência e à rotina diária dos indivíduos, através dos meios de comunicação, a
necessidade de se empregar a camisinha tornou-se uma espécie de carro-chefe dos discursos biopolíticos presentes nas publicidades sanitárias. O que se objetiva concretamente com tais discursos é que a conduta dos indivíduos e da massa se torne cada vez mais governada pelo consumo de um conhecimento considerado reflexivo, de modo que se desloque ou se esvazie aqueles discursos incorporados pela tradição ou pela força do hábito.
A medicina parece pretender, como nunca, permear as mentes das pessoas com seus achados, na expectativa de que a concepção de risco que ela produz torne-se a base para a gestão da vida humana.
O mais seguro de todos os comportamentos sexuais, como ensinam muitos sistemas religiosos e éticos, é a abstinência. O único material preventivo que uma pessoa precisa é aquela droga maravilhosa, o “autocontrole”. Não saia de casa sem ela. [...] Depois que o cérebro informado, pensativo e bem controlado estiver engajado, pode não haver necessidade da “reflexão de látex” (JENKINS, 2007, p. 296).
Com esta afirmação, o que Jenkins reafirma é a clara necessidade de disseminar, de fazer chegar até o ponto mais extremo das relações sociais aquelas informações relacionadas às descobertas, aos novos achados em saúde, capazes de promoverem mudanças comportamentais que garantem uma “vida saudável”. Para ele, como para todo o sistema sanitário da atualidade – e isso desde o século XVII –, a vida e a morte estão na dependência do conhecimento. Um conhecimento qualificado, revestido de cientificidade, que é preciso fazer circular, fazer chegar até as extremidades do tecido social, e cuja adesão ao mesmo poderá defender a sociedade, preservar a vida. Quando isso acontecer, segundo Jenkins, quando o cérebro estiver plenamente imerso, banhado nesse oceano de informações, não haverá necessidade de dizer: “use a camisinha, use o 'látex'”.
Os homens sempre atribuíram à doença diferentes fins. Mas, é preciso datar o período a partir do qual, a doença passa a ser empregada como meio de instruir e de corrigir o sujeito. Desde que convenceram o homem de que ele, mediante seu comportamento, sua conduta, seus hábitos de consumo e seu estilo de vida, é responsável direto por suas doenças. A estas foi atribuído certo papel pedagógico. Utilizando-se da doença, diversos discursos foram fabricados para o homem,
afirmando que existem comportamentos que ele deve abandonar, de que mudanças devem ser efetuadas em seu modo de viver, em suas escolhas, aonde habitar, o quê e como deve comer, com quem pode e deve conviver ou relacionar-se. A doença, de anormalidade, passou a ser normalizante. De disfunção orgânica e corpórea, que é concebida por muitos, a doença adquire papel importante na ortopedia da razão, na promoção da docilidade dos corpos e na pedagogia social.
Na escalada pela saúde perfeita, que parece não ter fim, observa-se o desenvolvimento de uma bio-história, uma história de novas relações entre o poder político e o corpo dos viventes, entre o poder político e o corpo populacional. Nessa bio-história, foi transcrita a linguagem da doença, do corpo doente, num discurso capaz de corrigir os desvios, restaurar a anormalidade, proteger a sociedade. Uma linguagem capaz de penetrar todo o “tecido do doente” e exercer efeitos de ajuste. Para que tivesse penetração, essa linguagem necessitou ser revestida de caráter de verdade, de uma dimensão técnico-científica inquestionável.