O tema do comportamento é abrangente e multifacetado. O assunto já foi estudado sob diversos prismas. William Gartner (1990), ao analisar um conjunto de trabalhos publicados na área, identificou quatro dimensões associadas ao empreendedorismo: indivíduo(s), organização, ambiente e processo.
Neste trabalho, vamos priorizar a dimensão “indivíduo(s)”, principalmente nas características comportamentais e culturais. O empreendedorismo tem papel fundamental na sociedade em virtude de sua influência no crescimento econômico e desenvolvimento do país. A importância de estudar e conhecer a atividade empreendedora, bem como o perfil do empreendedor, contribui positivamente para identificar as estimativas desta atividade e permite elucidar o futuro deste processo.
O termo teve seu significado ampliado para outras manifestações humanas voltadas à realização de novos projetos organizacionais (Gimenez et al., 2008). A partir do início da década de 80, com a consolidação de congressos e revistas acadêmicas dedicadas ao empreendedorismo que o tema se fortalece como uma área de interesse relevante, em especial na Administração. (GIMENEZ; FERREIRA; RAMOS., 2008, p. 3).
Segundo Gartner (1990), é através do comportamento que se consegue classificar um indivíduo como empreendedor, independentemente de ser sócio de uma organização, idealizador de um startup, membro de um grupo social ou empregado de uma organização pública ou privada.
Para Robbins (2009), a motivação é o processo responsável pela intensidade, direção e persistência dos esforços de pessoas para o alcance de uma determinada meta, ou seja, é fator crítico para o desenvolvimento do indivíduo.
Podem-se observar os seguintes fatores motivacionais (BAGGIO, A. F.; BAGGIO, D. K, 2014):
Pessoais: desejo de realização pessoal, insatisfação no trabalho, desejo de ganhar dinheiro, desejo ardente de mudar de vida, e fato de ser demitido de seu emprego;
Ambientais: analisar e identificar oportunidades de negócios ou a possibilidade de entrar num projeto;
Sociológicos: possibilidade de ter um grupo de pessoas competentes com características semelhantes; influências de parentes; ou modelos já desenvolvidos na família.
Uma vez que a motivação pode ser entendida como um processo responsável pela intensidade, direção e persistência dos esforços pessoais para o alcance de uma determinada meta, deve-se analisar caso a caso para compreender qual fator poderá influenciar mais o indivíduo.
O psicólogo David McClelland estudou o comportamento humano com o objetivo de identificar as características pessoais que destacassem os indivíduos motivados. Segundo Coelho (2011), as pesquisas de McClelland sugeriram que o comportamento exitoso é mais frequente em pessoas que buscam controlar o meio em que atuam, estabelecem metas, procuram constantemente novas oportunidades e usam a criatividade como ferramenta diária.
Para McClelland (1972), a motivação para a realização dá ao individuo uma maior capacidade de concentração e uma resposta mais rápida a diferentes estímulos. Ou seja, pessoas orientadas à realização apresentam maior velocidade no aprendizado de formas inovadoras de realizar tarefas e têm um desempenho orientado à inovação superior em relação àquelas que apresentam baixa orientação para essa esfera (COELHO, 2011).
As dez (10) principais características de comportamento empreendedor foram divididos em três (3) conjuntos distintos:
Figura 3: Características do Comportamento Empreendedor (CCEs) Fonte: Adaptado pelo autor de Sebrae (2014)
Conjunto de Realização
Este conjunto enfoca a aceitação, a habilidade e a tendência para tomar iniciativas e a procurar e alcançar maior qualidade, produtividade, crescimento e lucratividade nas atividades desenvolvidas (SEBRAE, 2014). Ele também envolve a tendência de se colocar em situações moderadamente desafiadoras, conforme cada contexto, e de agir com determinação e compromisso na busca de resultados esperados (SEBRAE, 2014).
Busca de oportunidades e iniciativa: realização de atividades antes de solicitado ou forçado pelas circunstâncias; age para expandir o negócio a novas áreas de atuação, produtos e serviços para ampliação do empreendimento; aproveitamento de oportunidades fora do comum para começar um novo negócio; obter financiamentos, equipamentos; local de trabalho ou assistência.
Correr riscos calculados: avaliação de alternativas e cálculo de riscos cuidadosamente; ação para diminuição de riscos ou controle de resultados; colocar-se em situações que implicam em desafios moderados, sempre que as chances de sucesso sejam maiores que a de fracassar; busca de controle sobre os fatores que determinarão o sucesso do empreendimento.
Persistência: ação diante de dificuldades relevantes; responsabilidade pessoal pelo cumprimento dos objetivos estabelecidos; insistência ou mudança de estratégia com a finalidade de enfrentar desafios ou dificuldades; capacidade de analisar resultados e aprender com fracassos, evitando as persistências que não são produtivas.
Exigência de qualidade e eficiência: ação para melhoria da capacidade de execução de tarefas, tanto no que diz respeito ao custo quando à habilidade de realização; segurança de cumprimento de prazo e atendimento ao padrão de qualidade estabelecido; superação do padrão de excelência na execução das ações; destaque do empreendedor quanto ao nível de qualidade do seu trabalho, oriundo dos padrões de excelência e energia dispensados na realização das ações.
Comprometimento: sacrifício pessoal; trabalho em equipe; prioridade à manutenção da boa-vontade de longo prazo, em vez de lucro de curto prazo; primazia pela manutenção da satisfação dos clientes.
Conjunto de Planejamento
Em geral, os indivíduos com alta necessidade de associação preferem trabalhos em que as interações com outros indivíduos sejam intensas e produtivas. Indivíduos com grande necessidade de associação valorizam em geral o trabalho em equipe e, principalmente, a cooperação (COELHO, 2011).
Isto envolve a tendência de agir com foco na busca de resultados específicos, de pesquisar sobre a melhor forma de desenvolver uma determinada atividade e se colocar em processo contínuo de aprendizagem, e de agir de maneira orientada, ou seja, planejada na busca do que se pretende alcançar (SEBRAE, 2014).
Geralmente, os indivíduos com alta necessidade de associação escolhem amigos ao invés de especialistas para trabalharem consigo e tendem a evitar decisões impopulares, mesmo que para isso tenham que permitir exceções as regras. Dessa forma, tais indivíduos trabalham bem em equipe, mas são deficientes quando se colocam em posições de liderança. Abaixo, as características deste perfil, segundo Coelho (2011):
Busca de informações: pesquisa pessoal de informações de clientes, fornecedores e concorrentes; pesquisa pessoal sobre fabricação de um produto ou oferta de um serviço; solicitação de orientação de especialistas para obter assessoria técnica e, assim, fundamentar e possibilitar elaboração da estratégia, com maiores chances de êxito.
Estabelecimento de metas: fixação de objetivos que proporcionem desafios e tenham significância pessoal; fixação de metas de longo prazo claras, específicas e tangíveis; fixação de objetivos de curto prazo e mensuráveis.
Planejamento e monitoramento sistemático: planejamento de um trabalho denso, dividindo-o em partes menores e com prazos pré-estabelecidos; acompanhamento e revisão de planos, embasados em informações sobre o desempenho real e em novas circunstâncias; manutenção de registros financeiros e utilização desta informação para tomada de decisão. Busca atividades que forneçam informações constantes e concretas sobre o próprio desempenho.
Envolve a tendência a confiar em si e no potencial para realizar atividades diversas e superar desafios, assim como a disposição a estabelecer e manter contato com pessoas que representem importância para seus objetivos. Além da habilidade de influenciar e persuadir pessoas a partir do consciente estabelecimento de estratégias (SEBRAE, 2014).
Independência e autoconfiança: busca de autonomia em relação às normas e controles de outros; firmeza de decisões ante à oposição de outro indivíduo e/ou diante de resultados ruins; confiança sobre sua própria capacidade de completar uma tarefa difícil ou de enfrentar um desafio. Normalmente, indivíduos com estas características analisam as situações com objetivo de avaliar as fraquezas e ameaças às suas ações, buscando mecanismos de controle para eliminá-las ou amenizá-las. Persuasão e rede de contatos: uso de estratégias para influenciar ou persuadir os outros; recorrer a pessoas influentes para atingir seus próprios objetivos; ações em prol do desenvolvimento e manutenção de relações comerciais. Exercer controle sobre situações que em geral implicam no exercício de influência sobre pessoas. Para realizar objetivos, é necessário negociar, fazer acordos, convencer pessoas e levar a acreditarem em determinada ideia.
McClelland (1972) sugere que as 10 características do comportamento empreendedor (CCEs) tem relação direta com o sucesso de um indivíduo como empreendedor. Desta forma, buscaremos entender as relações entre estas características e os principais indicadores de sucesso empreendedor deste trabalho na descrição das hipóteses.