4 Results, Analysis and Discussion:
4.2 Group formation, affiliation, performance and analysis
4.3.2 Psychological and personal Empowerment:
Na órbita de elementos em que gravita a vida das mulheres, o casamento é um dos mais cobrados, uma vez que a lógica falocêntrica as vinculou à presença masculina, transformando o casamento na principal maneira de elas adquirirem status e aceitação social, o que não significava que eram efetivamente valorizadas socialmente. Conforme Marilene Guimarães (1997), quando as tribos passaram a ser sedentárias, as mulheres assumiram o cultivo e a colheita de alimentos e o cuidado com os filhos, enquanto os homens guerreavam,
defendendo seus territórios, e caçavam. A sobra de alimentos levou ao comércio e ao acúmulo de patrimônio. O desejo de transmitir esses bens a herdeiros gerou no homem a vontade de assegurar a sua sucessão, levando-o a querer apropriar-se da mulher, depreciando-a. Como Guimarães afirma,
[...] a família patriarcal, a partir do interesse econômico, desvalorizou a mulher, confinando-a no espaço privado do lar, quase como uma propriedade do marido, levando à construção de uma identidade psicológica de submissão, atavicamente transmitida de geração em geração (GUIMARÃES, 1997, p. 31).
O casamento é o meio de a mulher adquirir um valor descaracterizado anteriormente pelo homem. Em nome desse atributo simbólico, muitas mulheres se sujeitam a rotinas humilhantes, ou sofrem por expectativas frustradas. O certo é que muitas delas querem fazer parte desse universo – qualificado pela condição civil de esposa – ou, pelo menos, ser valorizadas pela presença masculina, mesmo sem “papel passado”.
A vinculação feminina ao homem é reforçada, também, ao longo dos anos, pelas distintas legislações, evidenciando o quanto as construções socioculturais são orquestradas por um conjunto de instâncias que, silenciosamente, “naturalizam” o que é sócio- historicamente construído. O Código Civil Brasileiro de 1916, conforme Marilene Guimarães, “considerou a mulher casada relativamente incapaz, determinando a obrigatoriedade de autorização do marido para trabalhar ou gerir seus bens” (1997, p.32). Outro expediente de vinculação referia-se à incorporação do sobrenome do marido após o casamento. Ainda segundo Guimarães, essa prática passou a ser facultativa a partir de 1977, com a Lei do Divórcio, no entanto, muitas mulheres continuaram e continuam alterando seus nomes e agregando o sobrenome dos cônjuges até os dias de hoje. Recentemente, o Código Civil Brasileiro de 2002 reforçou a possibilidade de a mulher adotar o apelido do esposo, bem como possibilitou o mesmo ao marido, o que parece sinalizar uma mudança de mentalidade acerca das relações entre homens e mulheres, embora a solicitação da presença masculina junto à mulher continue existindo.
O conto Maria das Dores aborda essa vinculação “indispensável” ao masculino, condicionando a plenitude da existência feminina à união com um homem. Maria das Dores, a personagem principal, veio do interior para a cidade grande e deu um “mau passo na vida”, tornando-se mãe solteira.Vivendo na casa da tia, que ostenta os cuidados prestados ao filho dela, Maria das Dores sonha com o momento em que terá um companheiro, dará um nome ao seu filho e adquirirá segurança. Todos esses anseios serão solucionados através da união com
o namorado Henrique, homem de quase quarenta anos, dono de lanchonete. Ela se desdobra nos cuidados com ele e sua casa, nos agrados, à espera do reconhecimento e da valorização de si, a partir do amor dedicado a ele. Segundo Bourdieu (2011), esse comportamento provém da heteronomia, da condição de submissão em que uma pessoa ou grupo se encontra, decorrente da imposição de uma lei ou princípio ao qual tem de se subordinar. Aqui, a lei refere-se às estruturas e esquemas da dominação masculina, mantenedores da vinculação da mulher a uma posição subalterna nas relações sociais. Atrelada à noção de significação feminina a partir da presença masculina, Maria das Dores resume sua vida às atenções a Henrique e à espera pelo dia de ir morar juntos:
Henrique tinha uma boa situação, não era rico, era remediado, dono de uma lanchonete, num ponto movimentado, prometeu a Maria das Dores que lhe daria a responsabilidade da caixa, depois que estivessem vivendo juntos, enquanto isso não acontecia, antes de ir para o escritório, ela passava no apartamento dele, arrumava e limpava, cuidava das roupas e da comida... (OP, p. 29).
A união da mulher ao homem costuma ser vista como meio de adquirir segurança moral e financeira, além de prestígio social, resultante de uma mentalidade corrente no século XIX, como assinala Maria Lúcia Rocha-Coutinho: “o casamento [...] enobrecia a mulher e abria-se como a única possibilidade de ascensão social, em um tempo em que não eram permitidas às mulheres atividades que possibilitassem sua promoção por esforço próprio” (1994, p.83). Essas condições de ascensão social e segurança são desejadas por Maria das Dores: “em brevíssimo teria um companheiro, um pai para o filho, uma casa que não a da tia, teria segurança e, ainda por cima, o homem amado” (OP, p. 30). Essa lógica costuma ser repassada às mulheres através da ideia do casamento como uma necessidade, elemento praticamente obrigatório na vida delas, como pode ser visto também nas percepções da protagonista de As doze cores do vermelho. Na infância, a formação recebida a leva para o desejo de se casar e constituir família, logo concretizado na vida adulta: “1960. Você faz vinte anos e vai se casar. [...] Futuro. Um marido. Vozes repetindo. A mulher é a rainha do lar. [...] Você está preparada para o casamento. Alumbramento” (ADCV, p. 15).
A expectativa de ter uma vida nova ao lado do companheiro, feita de estabilidade financeira e afeto, é o que move não apenas Maria das Dores, mas também a personagem Madalena, do conto A despedida. Madalena também anseia o esperado dia em que deixará a loja de roupas e se casará com o homem que a fará feliz. O conto relata o último dia de Madalena no trabalho, despedindo-se das colegas para se unir a um homem de posses:
No dia seguinte bem cedo ela partiria para São Paulo, rumo à sua grande aventura de amor. Trabalhara trinta anos de sua vida em cima da máquina de costura. Só iria levar aquela aposentadoria porque dona Glória insistiu, as colegas também. Coisa tão pouca, o que ela poderia fazer com tal ninharia? Seu futuro marido, um comerciante tão rico, acharia graça (OP, p.108).
A esperança feliz, partilhada por ambas as personagens, de se unir a um homem, todavia, desdobrar-se-á de modos distintos, embora cunhada pela marca presente em seus nomes: o sofrimento. Maria das Dores o carrega explicitamente ao lado do genitivo “das”, tornando-se a Maria que tem as dores ou que pertence às dores. Consciente, ela afirma: “eu me chamo Maria das Dores não é sem motivo – apenas registrando, sem se lamentar, que tinha sofrido, suas dores grandes não eram grandiosas, tudo tão cotidiano...” (OP, p.30). Madalena, por sua vez, evoca o sofrimento a partir da figura bíblica homônima, considerada prostituta e condenada a ser apedrejada. O anseio de Maria das Dores converte-se em ilusão, possivelmente revelada com o regresso de Henrique a Belém do Pará. As colegas de trabalho leem a notícia de que ele casou-se, lá, com uma prima rica e velha. No caso de Madalena, o casamento com um homem abonado era um blefe para não assumir o incômodo com as pernas deficientes e a realização de uma nova cirurgia:
O silêncio pesava mais que as palavras de despedida. Todas gostariam de acreditar que Madalena iria se casar de verdade. Elas sabiam que nunca houve noivo nem haveria viagem de núpcias a Buenos Aires nem linda casa no Morumbi. Madalena tentaria em São Paulo mais uma operação nas suas pernas aleijadas (OP, p. 108).
Num estudo sobre o tema da espera nas personagens parenteanas, Antônio de Pádua Dias da Silva traz a “Ordem do Pai” ou “Ordem do Falo”15
como uma lógica sustentada na imagem do homem, produtora de normas e discursos que sujeitam a todos, inclusive o próprio homem. Na perspectiva dele, as personagens tentam se enquadrar nos modelos decorrentes dessa lógica ou sofrem por estar fora deles. Por esse viés, o logro de Madalena seria uma estratégia para se ocultar e, posteriormente, tentar se inserir na Ordem do Falo:
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Conforme Antônio de Pádua Dias da Silva, “a Ordem do Falo é, assim, uma prática que traz seu esquema de funcionamento no código genético cultural e/ou psicológico dos sujeitos, tornando todos iguais no aspecto que se refere à manutenção das estruturas basilares da cultura comportamental, entre as pessoas que associam-se as (sic) outras, na relação homem/ mulher, por exemplo, a fim de que haja, no contexto social, uma espécie de harmonia entre os componentes da comunidade, pois esta Ordem estabelece, [...] através de seus esquemas, normas de conduta, de aceitação/ transgressão para o discurso estabelecido” (SILVA, 2004, p. 27-28).
[...] o casamento inventado soaria para as demais pessoas o pertencimento dela à estrutura básica e comum das coisas da vida, do destino de mulher. A busca por uma cirurgia, camuflada na relação por um homem, não impede de dizer que a correção física poderia ser motivo para se ter acesso à Ordem do Falo, pois o pertencimento a essa lógica exclui, dolorosamente, sujeitos portadores de deficiência física (SILVA, 2004, p.38).
As duas personagens alimentam o imaginário do casamento como elemento de redenção feminina, de elevação de sua condição de “inferioridade” em relação ao masculino, e, contrariamente às ilusões que alimentam, não conseguem convencer àqueles que estão à sua volta. As colegas de trabalho são as vozes instabilizadoras dessa lógica em que Maria das Dores está absorvida: “– você não acha que ele está fazendo você de boba? – paciente, ela sabia que não, já não tinha ilusões, aprendeu a esperar e a se contentar com as coisas na medida em que vinham, o sofrimento ensinou sua lição” (OP, p. 30). Madalena, por sua vez, resguarda-se no mistério, nas poucas falas: “o ar enigmático de quem conhece o próprio futuro, compensava a ausência de beleza e mantinha as pessoas presas numa curiosa expectativa. Madalena falava pouco, porém no que não dizia, ficava suspensa uma interrogação grávida de surpresa” (OP, p, 105). No entanto, isso não lhe assegura a total adesão das colegas, ao contrário, promove os questionamentos cheios de desconfiança das certezas dela: “depois dos quarenta, a vida de Madalena sofreria uma grande mudança? Para melhor, Madalena? [...] Quando é que vai ser, Madalena?” (OP, p. 106).
É importante ressaltar a paciência de Madalena e de Maria das Dores no aguardo pela concretização dos seus desejos. A primeira viveu na espera: “Madalena esperou aquele instante durante os quarenta e cinco anos de sua tropeçada existência” (OP, p. 107). A segunda, conforme ela mesma, aprendeu com o sofrimento “a esperar e a se contentar com as coisas na medida em que vinham” (OP, p. 30), aprendeu a se resignar diante do sonho e das dores. Esse comportamento é resultante de aprendizagens calcadas nas estruturas da dominação simbólica, como alerta Bourdieu:
[...] toda a sua educação (das mulheres) as prepara, pelo contrário, a entrar no jogo (social) por procuração, isto é, em uma posição ao mesmo tempo exterior e subordinada, e a dedicar ao cuidado do homem [...], uma espécie de terna atenção e de confiante compreensão, geradoras também de um profundo sentimento de segurança (2011, p. 97).
O que se vê é um imaginário de felicidade ao lado do companheiro, evidenciado quer através de um desejo real, como acontece com Maria das Dores, quer através de uma projeção para ocultar a deficiência física. Esse imaginário concebe o casamento, segundo Maria Lúcia
Rocha-Coutinho (1994), como “fonte de felicidade”, destituindo-o dos emaranhados e estratégias presentes na realidade das relações de gênero.
O casamento é visto, seja pela família, seja pela mulher, como um dos principais projetos de vida dela, sob o qual recai uma série de expectativas que, quando não são atingidas, geram frustrações, como acontece com as personagens dos contos Espera e Caso antigo, do livro Cem mentiras de verdade. Em Espera, a personagem feminina vive à espera, como o próprio título evidencia. Tudo está pronto para o casório, inclusive o enxoval, porém o noivo não. O enredo é a própria espera por esse homem que oscila entre estar presente e ausente: “o vestido de noiva está pronto, só falta marcar a data do casamento Um sábado ele telefona, no outro mês ele aparece Ela sabe que ele está muito ocupado É bom lavar novamente todo o enxoval, pôr o vestido de noiva ao sol” (CMV, p. 8). O tempo passa na espera por marcar o casamento e no aguardo de que o noivo se presentifique, o que não acontece, promovendo a frustração e a raiva da personagem feminina: “um dia não, um sábado não Um mês não, um ano não Ela vende o enxoval, rasga o vestido de noiva” (CMV, p. 8). A lógica masculina presente aí é calcada no engano e no desrespeito, atitudes oriundas dos mecanismos de dominação masculina. Excluída do domínio de sua vida, a personagem mantém-se leal ao compromisso de noivado, negligenciado pelo noivo. É ele quem mantém e quem define o término do relacionamento pela omissão, ela apenas aguarda e compreende o fim mediante a ausência incontestável. A ideia de continuidade pode ser lida também através do uso exclusivo de vírgulas na pontuação da narrativa. Inexistem pontos, sinal utilizado para demarcar início e término de períodos e parágrafos.
Em Caso antigo, o engano não acontece, uma vez que a personagem masculina declara não querer casar-se ou juntar-se: “ele dizia claramente, não queria se casar, não queria se juntar. Não gostava de iludir” (CMV, p. 21). A personagem feminina, no entanto, alimenta a esperança de que ele mude de opinião: “assim ele dizia. Assim ele queria. Assim ela assentia. Na esperança de esperar, assim ela esperava. Um dia, quem sabe? eles se casariam” (CMV, p. 21). Por vinte anos, ela mantém o relacionamento na expectativa de que, um dia, eles se casem. Porém, após uma viagem, ele muda o comportamento, omitindo-se do contato com ela, à semelhança da personagem masculina de Espera. O término é anunciado num bilhete: “palidecências. De manhã, debaixo da porta dela, um envelope com a letra dele. Um bilhete. Obscurecência. Estava tudo acabado. Ele acabava de se casar” (CMV, p. 21).
O casamento, essa “fonte de felicidade” desejada pelas personagens, é também fonte de decepções. A necessidade de legitimação da existência ou de se sentir socialmente visível é o que pode justificar a longa espera de ambas as personagens, ou, na perspectiva de Antonio
da Silva (2004), o desejo de estar inserida na Ordem do Falo, por meio da união com o masculino. As personagens masculinas, no entanto, imprimem as marcas da dominação e da violência simbólica impregnadas nas práticas da vida em sociedade. Elas não têm qualquer respeito por essas mulheres submissas à invisível ordem de dominação, abandonando-as ou trocando-as por outras mulheres. Para Silva, “a espera é uma das formas da esperança se manifestar” (2004, p. 25), uma tentativa de ver o desejo realizar-se. Essa maneira de acreditar na esperança é também visível em A solteirona.
Embora o casamento não seja um desejo explícito da personagem de quarenta anos que protagoniza o conto A solteirona, sua postura diante da intransigência materna e da vontade do namorado de formar família revela não só a submissão à vontade materna, mas também a expectativa de se casar com ele. Todavia a figura materna, viúva, e os seus preconceitos inserem a filha na ordem da espera: à espera de que a mãe mude de ideia ou à espera de que a mãe morra, como o fragmento a seguir mostra:
Um senhor divorciado lá um dia conheceu. Que lhe dava muita atenção. De querer até se casar. Divorciado, minha filha? Só se eu morrer. Enquanto eu viver. Ele queria casar, mais se queria um lar. Ela dizia que não podia. Era esperar. Um dia a mãe compreendia. Divorciado? Só se eu morrer. Enquanto eu viver. Ele insistia. Ela dizia que não podia. Esperasse. Ele esperou enquanto esperava. Mas conheceu uma moça. Que não se morava com a mãe. E podia se casar (CMV, p. 70).
O preconceito materno quanto ao estado civil do pretendente – as pessoas desquitadas (Código Civil de 1942) ou divorciadas (Lei do divórcio de 1977) eram consideradas más companhias – e a subserviência à mãe paralisam a personagem e o andamento de sua vida. O namorado, por sua vez, colocado sob a mesma espera, aguarda por uma das soluções para o impasse (a mudança de opinião ou a morte), evidenciando a importância do relacionamento. No entanto, a espera da filha culmina na desistência do namorado, a esperança não se manifestou com sua face exitosa, relegando-a à solteirice indicada no título. É válido sinalizar que, no contexto da década de 1980, quando o conto é publicado, uma mulher solteira aos quarenta anos era considerada ultrapassada para o casamento. O que agrava a situação da personagem, diminuindo-lhe as probabilidades de vir a se casar e figurar na Ordem do Falo. A espera, como acontece com as protagonistas de Espera, Caso antigo e A solteirona, resulta em frustração, e o casamento começa a figurar sob o signo da impossibilidade. Essa, entretanto, não é a realidade de Maria de Fátima, personagem do conto Festa de casamento. Felizes por inserir sua filha na lógica falocêntrica,
por estar casando-a, os pais dela se comprazem de ter atendido às normas sociais estabelecidas para as “famílias de bem” e de estar vendo a filha “bem casada”:
Eu estou emocionada. Graças a Deus minha filha se casou com um rapaz muito bom, de boa família, bons costumes, sem vícios, respeitador dos pais, há de respeitar a esposa. Graças a Deus, durante o noivado nunca chegou tarde em casa com Fátima, sempre no horário. Faço muito gosto neste casamento. Gustavo também. Nos tempos de hoje, é uma bênção quando a gente vê uma filha bem casada. Também, o que você quer? Ela tem o exemplo dos pais (OP, p. 94-95).
A fala da mãe de Maria de Fátima desvela os valores morais vivenciados pelos pais (exemplo para a filha) e sob os quais ela foi educada. O juízo de valor emitido pela mãe acerca da filha estar “bem casada” evidencia que tanto o noivo quanto o ato em si de se casar atendem às expectativas dela e do marido. O campo semântico da expressão “Graças a Deus”, duas vezes repetida, e da palavra “bênção”, somados os princípios que fazem do noivo “um rapaz muito bom” (ou seja, que não tem vícios, é respeitador e proveniente de “boa família”, isto é, de uma família que comungue dos mesmos valores) remetem aos valores cristãos. Depreende-se, então, que Maria de Fátima foi educada dentro dos moldes cristãos e da lógica de submissão feminina, como mais uma vez a mãe revela:
Ela vai continuar a estudar?
Não, já deixou, você sabe, nós nunca quisemos que Fafá estudasse engenharia. O pai tanto insistiu, que ela acabou desistindo. O pai e o noivo. Nós somos da opinião de que a mulher é para o lar (OP, p. 95).
Vê-se, então, a família confirmando o seu lugar de instituição a serviço da manutenção e reprodução da ordem do pai e, por conseguinte, da dominação masculina, pois, como Pierre Bourdieu afirma, é à família “que cabe o papel principal na reprodução da dominação e da visão masculinas; é na família que se impõe a experiência precoce da divisão sexual do trabalho e da representação legítima dessa divisão, garantida pelo direito e inscrita na linguagem” (BOURDIEU, 2011, p. 103). Adepta dos valores cristãos, a família da personagem encontra-se também a serviço da disseminação do antifeminismo e de uma visão pessimista sobre as mulheres e a feminilidade que impregna a Igreja (BOURDIEU, 2011), outra instituição reprodutora das estruturas de dominação simbólica.
No fragmento do conto citado anteriormente, a mãe logo afirma que “a mulher é para o lar” e, subtende-se, não para os estudos, sobretudo os de Engenharia, evocando a velha polarização masculino/ feminino, público/ privado, razão/ emoção, hard/ soft. O pai e o noivo,
representantes da dominação masculina, aparecem como os promotores do afastamento de Maria de Fátima do curso de Engenharia, resguardando-a nos modelos definidos, como expõe Rocha-Coutinho acerca da mentalidade brasileira na metade do século XX, ainda presente numa narrativa publicada cerca de vinte anos depois:
[...] uma carreira era praticamente inconcebível para a mulher nos anos 50 e início dos anos 60 e sua educação, percebida como um luxo, visava principalmente a criar mães melhores, companheiras agradáveis para seus esposos e melhores companheiras para os maridos com carreiras. Embora algumas mulheres tenham ido à universidade, a carreira ou o curso universitário deveriam ser abandonados com o casamento (1994, p. 101).
A protagonista do romance As doze cores do vermelho ilustra bem o que Rocha- Coutinho assinala. Jovem, a personagem se vê impelida a se dedicar exclusivamente à vida doméstica: “A mulher é a rainha do lar. Você não vai mais entrar para a escola de belas artes. Você prometeu a seu noivo que não vai mais pintar” (ADCV, p. 15). Ou ainda: “ela conversará com a amiga loura sobre a possibilidade das duas entrarem para a escola de belas artes. [...] por que não poderiam? O marido dizendo não aos novos contornos que se delineando e defendendo o dever de toda mãe cuidar o mais tempo possível das filhas” (ADCV, p. 23). Se o casamento era visto como a porta de entrada para o status de ter ao lado