No caso de alagamento de residência e ida para abrigo temporário, um aspecto é que há, desde logo, práticas tensionantes entre grupos: a identidade da mulher como mãe passa a ser influenciada por um agente externo que a faz sair de casa, agentes de defesa civil, bombeiros, etc. Dessa forma, esta mulher precisa desconstruir certos habitus, e, imediatamente, construir outro para continuar
abrigo temporário, pois assim poderá manter a unidade do grupo familiar. Esse refazimento do habitus, principalmente, entre mulheres recorrentemente afetadas
por desastres, surge da expectativa do sofrimento, da angústia, pois a partir dela pode-se antecipar cenários e construir estratégias referentes à chegada do desastre.
As famílias afetadas pelos desastres perdem seus marcos referenciais (bens materiais, a própria casa, ou ainda entes queridos), do espaço de realização da rotina no qual a identidade se afirma, e assim a ordem torna-se impraticável. Se considerarmos, ainda, a recomendação da Defesa Civil – em caso de famílias desabrigadas – para que haja separação dos alojados por sexo e não por família, pois a instituição acredita que assim as pessoas agirão para saírem logo e não se acomodarão – a situação torna-se mais lamentável12. E não apenas mais
lamentável, pois do ponto de vista da lógica familiar, tal atitude da Defesa Civil constitui-se como prolongamento do desastre, pois, como dito na introdução, o desastre não é o evento natural e sim um problema social, visto como uma construção social. Nesse sentido, um evento hidrometeorológico pode desencadear o desastre. Contudo, na medida em que a família chega ao abrigo e passa por esse tipo de restrição (separação por sexo), de adequação a uma outra racionalidade (neste caso, especificamente militar), as marcas do desastre continuam sendo impregnadas nesta família. Ou seja, a situação de desastre não muda, pois sob o amparo do Estado ela continua nesta situação.
Tal atitude do Estado configura-se em um conflito de racionalidade dentro dele mesmo, pervertendo seu próprio discurso instituicional. Porque, se a instituição existe no sentido do amparo e no fornecimento de condições para que a
12 Essa recomendação parte da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil do Estado de São Paulo, cf.
família desabrigada se reajuste, encontre uma reinserção social, não há nenhum tipo de base que essa família possa tomar como mola propulsora de novas condições de vida, de enfrentamento dos traumas do desastre dentro desta lógica de separação por sexo, de fragmentação da unidade familiar.
A família foi a última coisa que restou no meio dos vários danos materiais e é com base nela, na sua unidade, que tudo mais pode ser refeito, pois trata-se da instituição primordial de constituição do habitus. Porém, quando o Estado
fragmenta a própria família, que é reconhecida constitucionalmente como célula da sociedade, e tira a possibilidade dela exercer seus vários papéis, não só na individualidade de cada um que a constitui, mas também na intersubjetividade, rompendo as amarras de entendimento do sujeito com ele próprio e em relação ao outro, faz com que o tipo de sofrimento vivido termine numa indiferença social paulatina que rompe ainda mais qualquer possibilidade de cidadania. Ou seja, o Estado açambarca a família e depois na relação de dominação a fragmenta, já que ele não presta toda a assistência a que se tem expectativa deixando o outro sem a oportunidade de se realizar e prover com base na família.
Além disso, tal postura do Estado está em total desacordo com as recomendações do Programa de Preparativos para Situações de Emergência e Socorro em Casos de Desastre, da Organização Pan-Americana de Saúde, que diz:
A fin de facilitar la recuperación comunitaria o por lo menos evitar que surjan más problemas psicológicos, deben observarse ciertas normas básicas. Una de ellas consiste en mantener a la familia unida. Estas normas deben incorporarse en el proceso de respuesta nacional frente a los desastres, y se debe informar al personal que intervenga en dicha respuesta sobre su función en la salud mental13
13 A fim de facilitar a recuperação comunitária ou pelo menos evitar que surjam mais problemas
psicológicos, deve-se observar certas normas básicas. Uma delas consiste em manter a família
unida. Estas normas devem incorporar-se no processo de reposta nacional frente aos desastres, e se
deve informar à equipe que intervenha nessa resposta sobre o seu papel na saúde mental (Organización Panamericana de la Salud, 2002, tradução nossa).
(ORGANIZACIÓN PANAMERICANA DE LA SALUD, 2002a, p. 13).
Agindo de tal forma o Estado só acentua, ou até mesmo induz o aparecimento das patologias psíquicas mais recorrentes em caso de desastres, que são de tipo: depressivo ou de ansiedade, assim como os transtornos por estresse agudo e por estresse pós-traumático (ORGANIZACIÓN PANAMERICANA DE LA SALUD, 2002a), ou seja, o abrigo, local que deveria fornecer o suporte para os afetados se recuperarem, pode, deste modo, criar ainda mais problemas. Posteriormente tais patologias, no limite, podem cair na rede pública de saúde não apenas como transtornos mentais, mas somatizado em pressão alta, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, etc.
Podemos dizer, ainda, que o desastre expõe aqueles que não encontram os vínculos necessários para fazer valer uma rede de apoio familiar ou de vizinhança. Assim, apartados, tornam-se propensos a serem enquadrados como
outsiders. Segundo Elias e Scotson:
Afixar o rótulo de ‘valor humano inferior’ a outro grupo é uma das armas usadas pelos grupos superiores nas disputas de poder, como meio de manter sua superioridade social. Nessa situação, o estigma social imposto pelo grupo mais poderoso ao menos poderoso costuma penetrar na auto-imagem deste último e, com isso, enfraquecê-lo e desarmá-lo (ELIAS, SCOTSON, 2000, p. 24).
Segundo Goffman, “espera-se que haja uma certa burocratização do espírito, afim de que possamos inspirar a confiança de executar uma representação perfeitamente homogênea a todo tempo.” (1989, p. 58), o que a situação de desastre impede. O espaço de exercício da identidade (no caso, a moradia) está totalmente alterado, ou até mesmo destruído, expondo a forma como “as impressões alimentadas pelas representações cotidianas estão sujeitas à ruptura.” (Idem, p. 66).
A mulher, como chefe da casa, é quem culturalmente desenvolveu aptidões para identificar e expressar tanto as dimensões objetivas das perdas concretas na moradia quanto às dimensões imateriais e intersubjetivas dos danos no núcleo familiar. Tais aptidões devem-se ao fato de que é ela quem, historicamente, “produz” o núcleo familiar, isto é, toma para si a tarefa de reprodução e manutenção do sistema de valores e crenças para os demais membros bem como a de zelar o território onde se realiza a sociabilidade deste grupo, qual seja, a moradia (SIENA, VALENCIO, 2006).
No contexto de desestruturação dos meios de vivência que a mulher afetada vai tecer sua representação do abrigo temporário. A mulher afetada tenta reproduzir o ambiente privado no espaço público de um abrigo quando da necessidade de deslocamento, mesmo que seja tarefa difícil, pois como mantenedora da unidade do lar esta tenta restabelecer o cenário de afirmação de sua identidade, e por conseqüência da identidade dos outros que a cercam, o mais rápido possível.
A busca de uma alteridade necessária é exatamente o proposto pela ONU – o que pode ser observado nos documentos e boletins da EIRD (Secretaria Interagencial de Estratégia Internacional para Redução de Desastres da ONU).