Lenharo estuda a música e o contexto cultural dos anos 1950, o rádio, seus artistas e as transformações nos circuitos de produção e consumo que levaram ao esquecimento dos cantores do rádio. Mas vamos incluí‐lo no subitem seguinte para colocá‐lo junto a outros trabalhos dedicados à chamada Era do Rádio.
3.6 HISTÓRIA, MÚSICA E CIRCUITOS DE PRODUÇÃO E CONSUMO
Lenharo discute a questão da “produção social da memória” através da biografia de Nora Ney e Jorge Goulart, personagens que ele considerou emblemáticos do esquecimento geral destinado aos artistas que foram sucesso de público nos anos 50. Na sua visão, os estudos da música popular estavam seguindo uma tendência similar à do público em geral, de desconsiderar a produção dos chamados “Anos Dourados”. O autor aponta a biografia de Noel Rosa, escrita por Carlos Didier e João Máximo241, como texto que valoriza a produção musical dos anos 1930, e o livro de Ruy
Castro sobre a bossa nova242 como exemplo de uma posição que coloca o gênero como
marco de um salto qualitativo no campo da música popular. E se pergunta “o que sobrou para o período intermediário”, do qual pouco se fala e em geral se ressalta apenas “a euforia das ‘macacas de auditório’ e os escândalos” e rivalidades entre os cantores, não se atribuindo “importância musical a essa época”. O autor se propôs olhar para o período em sua singularidade, questionando as narrativas tradicionais através da pesquisa em vasto corpo documental cruzada com depoimentos dos biografados e outros.
O texto de Lenharo insere‐se na perspectiva de uma História Cultural da música popular. O autor afirma claramente ter a intenção de fazer do seu texto “um recurso metodológico” através do qual procura “inovar em termos de recuperação do passado e de construção do conhecimento histórico”. Em suas palavras, não foi “a grande política, nem os grandes acontecimentos” que o atraíram “para a captura do espírito do tempo e o desvendamento cultural de uma época”, mas os cantores do rádio, “personagens incrivelmente afinados com seu tempo, com sua cultura, com suas
241 DIDIER, Carlos; MÁXIMO, João. Noel Rosa: uma biografia. Linhas Gráficas Editora/ Editora da UNB, 1990. 242 CASTRO, Ruy. Chega de saudade: a história e as histórias da Bossa Nova. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
transformações, com seus sonhos e realizações”. Seu trabalho tronou‐se uma referência fundamental nos estudos sobre rádio e sobre um tempo em geral um tanto renegado pela historiografia e pelos estudos da música popular no Brasil de um modo geral.243
Alcir Lenharo foi o orientador da dissertação de mestrado de Maria Marta Picarelli Avancini, Nas Tramas da Fama: as estrelas do rádio em sua época áurea, Brasil
anos 40 e 50.244 Esta pesquisa acompanha o surgimento das estrelas do rádio a partir
do final da década de 1940. Considera que “os artistas ligados ao rádio são elevados à condição de estrelas por meio de mecanismos característicos da cultura e da comunicação de massa”, num processo que marca “a consolidação e a intensificação” de seus “procedimentos e modos de funcionamento” no Brasil. Avancini discute dois tipos de abordagens que considera clássicas no debate sobre a radiofonia brasileira. De um lado, “a priorização da dependência do rádio às estruturas do poder econômico e político”, com consequente ênfase no sentido de dominação; de outro, “a possibilidade do rádio funcionar como autêntico canal de expressão popular, embora a determinação econômica não seja completamente descartada”. A autora cita como emblemáticos destas posturas os trabalhos de Maria Elvira Federico e José Ramos Tinhorão,245 que
retraduziriam “abordagens consagradas da cultura de massas, compreendendo‐a, respectivamente, pela esfera da produção e do consumo”. Dialoga com as elaborações de Adorno, Eco e Morin, e também com o trabalho clássico de Miriam Goldfeder,246 para
quem a dominação não se daria “de forma unívoca, mas num movimento que qualifica como pendular: ora a cultura de massa funciona rigorosamente dentro do projeto de dominação que a orienta, ora responde às necessidades mais genuínas do público”. Rejeitando análises que considera generalizantes, Avancini procura identificar a singularidade dos processos de constituição e funcionamento do circuito cultural, de práticas, sociabilidades e estéticas potencializadas em torno das estrelas do rádio nos anos 1940 e 1950. Procura demonstrar como, por meio de mecanismos de exposição
243 LENHARO, Alcir. Cantores do rádio. Campinas: Editora da UNICAMP, 1995. pp. 8‐11.
244 AVANCINI, Maria Marta Picarelli. Nas tramas da fama: as estrelas do rádio em sua época áurea, Brasil, anos 40 e
50. Dissertação de mestrado em História. Campinas: IFCH/UNICAMP, 1996, pp. 6, 14 e 35.
245 FEDERICO, Maria Elvira Bonavita. História da Comunicação: rádio e TV no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1982;
TINHORÃO, José Ramos, Música popular: do gramofone ao rádio e TV. São Paulo, Ática, 1981. Apud AVANCINI, op.cit., p.2‐7.
246 GOLDFEDER, Miriam. Por trás das ondas da Rádio Nacional. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980. Publicação da
dissertação de mestrado em Ciência Política Manipulação e participação: a Rádio Nacional em debate. Campinas: IFCH/UNICAMP, 1977.
dos artistas e, em especial, cantoras, criam‐se determinadas figuras cujos perfis combinam elementos ligados à vida privada delas, às músicas que cantam e a fatos que acontecem com elas. Segundo a autora, num processo “em que se cruzaram séries discursivas e sígnicas diversas, criam‐se territórios que definem modos de ser, comportamentos e sociabilidade que demarcam a chamada cultura do rádio” nos anos 1940 e 1950, delineando‐se “uma estética historicamente demarcada”.
Quando canta o Brasil: a Rádio Nacional e a construção de uma identidade popular 19361945, de Claudia Maria Silva de Oliveira, aborda o período anterior ao da
dissertação de Avancini. Tem a proposta de pesquisar a construção de um modelo de radiodifusão e de uma linguagem radiofônica variada e eclética no período, a partir das atuações dos artistas da Rádio Nacional. Para demonstrar o que considera criações individuais “improvisacionais” de uma “nova linguagem radiofônica”, a autora analisou quatro modalidades artísticas da Rádio Nacional, através das figuras de Orlando Silva, Radamés Gnattali, Almirante e da dupla Jararaca e Ratinho. Discute também os dois modelos de radiofonia que se delinearam nos anos 1930, que denomina de “modelo erudito‐educativo, difundido pela Rádio do Ministério da Educação” e “modelo popular‐ comercial”. A autora toma Mikhail Bakhtin como referencial para a reconstrução do perfil do artista popular, situando‐o como personagem do universo cômico, e Roberto da Matta, para a reconstrução do universo do cantor e do profissional de rádio em geral. Oliveira cita também o trabalho de Miriam Goldfeder e textos de Sérgio Cabral e Ruy Castro, entre outras biografias. Compara o que considera a “linguagem inovadora da Rádio Nacional” e a “linguagem conservadora da radiodifusão oficial” e conclui que a nova linguagem emergiu, cresceu e se impôs “porque era a síntese de todas as vozes que compunham o universo social do Brasil”. Para a autora, “a Rádio Nacional foi o espaço de criação das várias heterogeneidades que compunham a cultura brasileira e também o espaço para difusão nacional desta cultura”. 247
A dissertação de mestrado de Raimundo Dalvo da Costa Silva, Cotidiano,
memórias e tensões: a trajetória artística das cantoras do rádio de Salvador de 1950 a 1964, tem por objetivo “recuperar a história das cantoras do rádio de Salvador”,
“mostrando sua trajetória artística e cultural” na cidade. “Procura compreender sua
247 OLIVEIRA, Cláudia Maria Silva de. Quando canta o Brasil: a Rádio Nacional e a construção de uma identidade
história de vida até se formarem como cantoras do rádio e como vivenciaram e apropriaram‐se dos ambientes artísticos” de Salvador. A pesquisa foi construída “a partir, basicamente, das memórias das cantoras e de outras pessoas que vivenciaram a cidade e os tempos áureos do rádio”, procurando mostrar “as experiências vividas pelas cantoras como também o cenário social de Salvador”, dos anos 1950, “quando o rádio atingiu o seu ápice, e conclui na década de 1960, momento em que o rádio passou por um processo de mudança e extinção dos seus programas de auditório em razão do golpe militar de 1964.” Trata‐se de um trabalho de memória social, na linha da história oral, no qual a questão musical propriamente dita não está no primeiro plano. 248
Sobre a vida musical de Salvador, no mesmo momento histórico, mas com o foco numa prática instrumental, existe a dissertação de mestrado Violão, violonistas e
memória social nas décadas de 50 e 60 em Salvador, do excelente guitarrista e violonista
Carlos Edmundo Chenaud Drehmer (Carlito), estudo sobre “a memória do violão, as tradições musicais e a experiência dos violonistas em Salvador, nas décadas de 1950 e 1960”. Com base em depoimentos orais de violonistas que atuaram naquele período e em pesquisas na imprensa de época, o autor reflete sobre “a memória social, a cultura violonística e a experiência social desses personagens que viviam e atuavam em Salvador, acentuando um recorte dos territórios, em um trajeto intermediado entre a cidade, os músicos, o trabalho, e os meios de difusão”. Músico de formação e atuação profissional, professor da Universidade Católica de Salvador, Carlos Drehmer estuda, sem valorações ou hierarquias, as práticas violonísticas das tradições musicais que denomina de “formal‐erudita” e de “informal‐popular”. Formal e informal dizem respeito aos modos de aprender e tocar, e o autor aponta conexões e circularidades entre estas práticas. Uma referência importante para o trabalho foi Cantores do Rádio, de Alcir Lenharo, enquanto forma de se olhar a história social da cultura e a questão da memória e do esquecimento. Esquecimento que, para o autor, “é maior no caso dos músicos instrumentistas, violonistas, que não tiveram o papel de destaque dos cantores e/ou solistas”. Drehmer aponta que a historiografia da música raramente se refere à instrumentistas acompanhantes ou mesmo solistas “que ficaram distantes do eixos nacionais de difusão. O autor mostra que na “prática de esquecimento em relação à
248 SILVA, Raimundo Dalvo da Costa. Cotidiano, memória e tensões: a trajetória artística das cantoras do rádio de
musica instrumental”, especialmente àquela da tradição informal‐popular, muito elementos se perderam “tais como técnicas, arranjos e composições” daqueles que não tiveram oportunidade de gravar suas performances. Entretanto, acredita que parte dessas tradições sobreviva incorporada nas formas de tocar dos violonistas que os sucederam. O trabalho coloca ênfase nas práticas musicais, nos modos de aprender e tocar o instrumento, de sobreviver como músico e de atuação num momento em que estas práticas estavam em transformação.249
3.7 HISTORIOGRAFIA, LINGUAGEM E TEMAS POÉTICOS.
No ar: amores amáveis. Um estudo sobre a produção do amor na música brasileira (19511958), tese de doutorado de Wolney Honório Filho, analisa
“movimentos de promoção do amor, como um modo específico e singular de sentir emoção, no interior dos circuitos culturais da época, privilegiando os periódicos especializados sobre o mundo da música”. O autor aponta que “o conteúdo amoroso não era uma novidade temática nas letras dos anos 1950” e nem mesmo o era em períodos anteriores, “como no tempo de Noel Rosa”. Porém, investiga a hipótese de que, “para o final dos anos 1940 até a segunda metade dos anos 1950, é a presença do rádio, bem como de indústrias de discos e de um mercado editorial com publicações de letras de lançamentos musicais, histórias de vida de cantores, locutores de rádio e outras personalidades do mundo artístico, fomentam novas configurações amorosas na sociedade brasileira”. Na pesquisa, tem destaque os “relatos amorosos imersos tanto nas canções interpretadas principalmente por Ângela Maria, gravadas em disco de 78 rpm, quanto nas formas de constituição da cantora como intérprete de sucesso no cenário musical do Brasil dos anos 1950”. 250
Trilha sonora: topografia semiótica paulistana nas canções independentes das décadas de setenta e oitenta, de Fátima Amaral Dias de Oliveira, trabalho que teve a
orientação de Alcir Lenharo, pretende discorrer “sobre as percepções do cotidiano na cidade de São Paulo” por “uma aproximação musical”. O trabalho oscila entre um
249 DREHMER, Carlos Edmundo Chenaud. Violão, violonistas e memória social nas décadas de 50 e 60 em Salvador.
Dissertação de mestrado em História. PUC‐SP, 1999, pp. 14‐16 e 19‐20.
250 HONÓRIO FILHO, Wolney. No ar: amores amáveis. Um estudo sobre a produção do amor na música brasileira