Esta fase, nas palavras de Bardin (2007, p.95) “longa e fastidiosa”, nada mais é do que a administração sistemática das decisões tomadas, consistindo essencialmente de operações de codificação, desconto ou numeração, em função de regras anteriormente formuladas.
5.6.2.1 A Codificação
Codificar um material significa transformar os dados brutos do texto, por meio de recorte, agregação e enumeração, de maneira a atingir uma representação do conteúdo que possa esclarecer o analista acerca das características do texto.
Para Bardin (2007, p.97):
Torna-se necessário saber a razão por que é que se analisa, e explicitá-lo de modo a que se possa saber como analisar. Daqui a necessidade de se especificar hipóteses e de se enquadrar a técnica dentro de um quadro teórico.
Para Bardin (2007), a organização da codificação, no caso de uma análise quantitativa e categorial, compreende três escolhas:
a) o recorte: escolha das unidades.
b) a enumeração: escolha das regras de contagem; c) a classificação e a agregação: escolha das categorias.
5.6.2.2 O Recorte: Unidades de Registro e de Contexto
Unidade de registro é a unidade de significação a codificar, correspondendo ao segmento de conteúdo a considerar como base para a categorização e para a contagem de frequência. Entre as principais unidades de registro podem ser citadas as palavras, o tema, o objeto ou referente, o personagem, o acontecimento e o documento.
Os recortes podem ser executados por meio da semântica, como por exemplo o tema, ou por meio de da linguística , como por exemplo a palavra ou a frase.
No caso de se fazer uma análise temática, o pesquisador busca descobrir os núcleos de sentido que compõe a comunicação e que podem significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido por meio de sua presença, ausência ou frequência de aparição. (BARDIN, 2007)
Para Bardin (2007, p.100), “na realidade, a unidade de registro existe no ponto de intersecção de unidades perceptíveis (palavra, frase, documento material, personagem físico) e de unidades semânticas (temas, acontecimentos, indivíduos)”.
Já a unidade de contexto “serve de unidade de compreensão para codificar a unidade de registro e corresponde ao segmento da mensagem, cujas dimensões (superiores à unidade de registro) são ótimas para que se possa compreender a significação exata da unidade de registro”. (BARDIN, 2007, p.101-102)
5.6.2.3 Regras de Enumeração
Para Bardin (2007), deve-se fazer uma distinção entre a unidade de registro e a regra de enumeração, sendo a primeira o que se conta e a última o modo de contagem. Vários são os tipos de enumerações:
a) A presença, que pode funcionar como um indicador, sendo que muitas vezes a ausência também pode revelar algum sentido;
b) A frequência, pois geralmente a importância de uma unidade de registro aumenta com a sua frequência de aparição, sendo que este postulado é valido em certos casos mas não em outros;
c) A frequência ponderada, que geralmente corresponde a uma decisão tomada a priori quando se supõe que a aparição de determinado elemento tem maior importância do que outro;
d) A intensidade, pois a medida de intensidade com que cada elemento aparece é indispensável na análise dos valores e das atitudes;
e) A direção: traduz um caráter qualitativo, podendo ser favorável ou desfavorável, ou ainda ser de natureza diversa;
f) A ordem, pois a sequência de aparição pode ser um índice pertinente;
g) A co-ocorrência, que é a presença simultânea de duas ou mais unidades de registro dentro de uma unidade de contexto, sendo que esta análise dá conta da distribuição dos elementos e de sua associação.
Bardin (2007) alerta que uma variável de inferência pode manifestar-se de diversas maneiras e que possível atingi-la por meio de índices diferentes ou complementares. Mais ainda, para a autora deve-se procurar a correspondência mais pertinente na escolha de uma regra de análise, mesmo que seja uma escolha de várias regras, pois esta escolha se assenta numa hipótese de correspondência entre a presença, a frequência, a intensidade, a distribuição e a associação da manifestação da linguagem e de variáveis inferidas, não linguísticas.
5.6.2.4 A Categorização
Apesar da maioria dos procedimentos de análise organizar-se em redor de um processo de categorização, a divisão dos componentes das mensagens analisadas em categorias ou rubricas não é, segundo Bardin (2007), obrigatória.
Para a autora, tal processo consiste na “classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e, seguidamente, por re-agrupamento segundo o gênero (analogia), com os critérios previamente definidos.” (BARDIN, 2007, p.111)
O principal objetivo da categorização é fornecer por condensação uma representação simplificada dos dados brutos, sendo que a análise de conteúdo se assenta implicitamente na crença de que não são introduzidos desvios ou vieses quando se realiza a passagem dos dados brutos para os dados organizados.
Podem ser utilizados critérios semânticos de categorias temáticas, ou critérios sintáticos (verbos, adjetivos), ou critérios lexicais com a classificação das palavras segundo seu sentido, ou ainda os critérios expressivos (categorias que classificam as diversas perturbações da linguagem).
Na análise de conteúdo a mensagem pode ser submetida a uma ou várias dimensões de análise.
No processo de categorização podem ser criadas boas ou más categorias, e para se criar boas categorias devem elas obedecer às seguintes condições:
a) a exclusão mútua: cada elemento não pode existir em mais de uma divisão;
b) a homogeneidade: apenas um único princípio de classificação deve governar a sua organização;
c) a pertinência: deve estar adaptada ao material escolhido e deve refletir as intenções da investigação;
d) a objetividade e a fidelidade: as variáveis devem ser claramente definidas como também os índices que determinam a entrada de um determinado elemento em uma categoria;
e) a produtividade: que é medida pela quantidade de resultados férteis produzidos, seja em inferências seja em hipóteses novas e em dados exatos.