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Embora haja teóricos que hesitem em aceitar a existência do fenômeno da religião civil nos EUA ou, em última instância, que afirmem que, caso tenha existido, não crêem ter sobrevivido à turbulência dos anos 60411 e ainda, que outros estudiosos da religião tenham desenvolvido propostas teórico-racionais412 embasadas em um corpus comportamental para entender o processo evolutivo da religião − e, naturalmente, também despertado críticas para si413 − o que observamos é que durante todo o tempo os estudiosos se debruçaram para entender a particularidade do processo da influência e penetração da religião nos EUA, mormente, em questões sociopolíticas. Falou-se muito, questionou-se sobremaneira e decantaram-se propostas inclusivas e excludentes à religião civil; porém, de um modo ou de outro, todos concordam que existe algo de extraordinário na participação da religião na política dos EUA desde o início da fundação daquele país até os dias atuais. E que não se confunda extraordinário com particular, para igualmente não se fazer parte do circuito de críticas que Bellah recebeu em decorrência de sua assertiva de que havia uma religião civil nitidamente diferente414 nos EUA; nada obstante a concordância unânime, entre os teóricos da religião civil, à opinião durkheiminiana da função social da religião.415 A propósito, o próprio Bellah declarou: “Hoje a religião civil na América é uma estrutura rompida e vazia.”416 E, tempos depois, contrário ao que muitos pensam, não abandona sua tese, apesar de, bem da verdade, ter escrito toda uma obra sem mencionar a religião civil, na qual ainda expôs a

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Ver: WEBER, M. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 411

Ver: AHLSTROM, S. E. A religious history of ... New Haven: Yale University Press, 1972. 1079-96. 412

Ver: STARK, R.; BAINBRIDGE, W. S. Theory of religion. New Brunswick: Rutgers University Press, 1996. 413

Ver: BRUCE, S. Choice and religion: a critique of rational... New York: Oxford University Press, 1999. 414

Ver: WILSON, J. F. Public religion in American culture. Philadelphia: Temple University Press, 1979. 415

Ver: DURKHEIM, É. As formas elementares da vida religiosa... São Paulo: Paulinas, 1989. 416

situação de um EUA imerso em um tipo de religião privada e diversa, a qual ficou tipificada pelo nome de Sheilismo − em decorrência da declaração de uma entrevistada, Sheila, a qual chamou sua fé em Deus de “[...] meu próprio Sheilismo [...] é só tentar amar a si e ser gentil consigo [...] eu acho que Ele quer que nós nos cuidemos mutuamente.”417

É inconteste a riqueza da diversidade e pluralidade religiosa nos EUA, a qual faz os nervos religiosos transparecerem à flor da pele entremeio à grande competição acirrada das denominações em busca de adeptos e frente à necessidade de cada qual querer afirmar a preponderância de suas convicções religiosas sobre as outras. Essa situação é um campo fértil para que emerjam conflitos, divergências, especificidades, diferentes prioridades e tantos outros paralelos.

Mas, abstendo-se da discussão acadêmica sobre todas as particularidades da crítica do conceito da religião civil, o que importa a este estudo é que:

A América continua a ser uma nação com uma religião civil vigorosamente estabelecida. A imaginação, a linguagem e os conceitos penetram o discurso público, aparecem em circulação e estão presentes no juramento à bandeira. Muitos cristãos enxergam a América de algum modo escolhida por Deus para cumprir Sua vontade. Os puritanos muitas vezes ligaram o novo pacto com Deus àquele de Deus com Abraão e buscaram criar a ‘Nova Israel de Deus’. Essa mistura de crença religiosa e desígnio nacional persiste até hoje. Pesquisadores revelaram que muitas crianças e adultos concordam com afirmações como ‘A América é o povo escolhido’, ‘considero feriados como o quatro de julho religioso e patriótico’ e ‘devemos respeitara autoridade do presidente, uma vez que sua autoridade vem de Deus’. [...] aqueles que sustentam essa religião civil quase sempre crêem que o presidente tem um papel mora, profético, bem como político. Talvez por esse motivo, as pesquisas demonstram que os americanos votariam em candidatos com origem religiosa muito diferente, mas somente uma minoria votaria em um candidato sem afiliação política. [...] a religião civil proporciona uma tendência oculta de unidade sob as águas revoltas da diversidade religiosa. Contudo, o significado dessa religião civil é contestado na América, com os moderados focando no cadinho da diversidade religiosa e a Direita Cristã, por outro lado, colocando no centro a idéia de que ‘os Americanos são o povo eleito de Deus’. 418

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BELLAH, R. et al. Habits of the heart: individualism and commitment in American life. Berkeley: University of California Press, 1985. p. 221.

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4 “DEUS ABENÇOE A TODOS VOCÊS E DEUS ABENÇOE A

AMÉRICA”

Neste último capítulo trataremos de fazer a análise de elementos específicos da retórica de Bush ligados à questão da religião.

É fundamental ressaltar que o intuito da análise é demonstrar qualitativamente os recursos dos argumentos − e não quantitativamente −, ou seja, iremos exemplificar as técnicas de argumentação utilizadas por Bush que consideramos de maior relevância ao propósito desta pesquisa.

Partimos dos princípios essenciais constitutivos da argumentação que são, grosso modo, as premissas e o auditório para, posteriormente, verificar a aplicação das técnicas argumentativas empreendidas na retórica de Bush.

Entretanto, para fazer a análise, decidiu-se categorizar elementos-chave recorrentes na retórica de Bush em uma divisão denominada pontos de captura primários e pontos de captura secundários. Trata-se de um recurso instrumental pragmático criado neste estudo para facilitar a interpretação. Entende-se, por captura, pontos fulcrais na fala de Bush potencialmente capazes de convencer o ouvinte ao argumento do orador (adesão); um fenômeno que se dá por meio de um complexo processo de identificação do auditório (ouvinte/leitor) com a fala e/ou o orador, que se estabelece por meio de técnicas de argumentação, fundamentadas sob a égide de um constructo sociohistórico, sociocultural e psicológico. Nessa proposição metodológica, os primários são elementos paradigmáticos da cultura estadunidense, constituídos a partir da origem da nação e, portanto, de maior influência no discurso de Bush, servindo de âncora no processo de adesão, enquanto os secundários são elementos que atuam, por assim dizer, como subsídio e apoio ao primário, a quem se liga exercendo um papel instrumental coadjuvante.

É desse modo que elencamos os pontos de captura primários considerados alicerces da retórica de Bush para serem aplicados às técnicas de argumentação da teoria perelmeniana. Porém, ainda nesse percurso, englobaremos os pontos de captura secundários, que estão ligados aos primários, dando-lhes força e ênfase.

Por fim, chegaremos a um único ponto de captura primário central − a liberdade – que avaliamos como o grande mobilizador da retórica de Bush, qual atrai para si e substitui qualquer outro ponto de captura, assim como um coringa em um jogo de cartas discursivo.