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4.5 Utvikling og testing

4.5.1 Prosessmodell

No processo de criação do espetáculo ―Anjos d´Água‖, as fontes de água das praças são pensadas como um território Sit Specific, que destaca a presença da água como elemento no cotidiano das cidades.

Quando se pensa nas paisagens e iconografias de Minas Gerias, a ideia dos chafarizes é sempre recorrente. Desde o Barroco esses aparelhos cumpriam a função de fazer jorrar nas ruas e praças a água pura vinda das nascentes e minas, saciando a sede de escravos, viajantes, trabalhadores livres e até mesmo dos senhores daquela época. Remanescentes do período escravocrata, ainda hoje é possível encontrar em cidades históricas como Ouro Preto, Tiradentes e Mariana ruínas desses charmosos e enigmáticos chafarizes.

É o caso do Chafariz de São José na cidade de Tiradentes/MG, situado na ladeira que leva à Igreja Matriz de Santo Antônio. Erguido em 1749 e tinha três funções: abastecer a

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―Fontes interativas‖ – Salto/SP – Petro Fontes - Foto disponível em http://www.petrofontes.com.br/. Acesso em 14/05/2013

―Chafariz de São José‖ – Tiradentes MG – Barroco Mineiro – (1749) foto: BernardoGouvêa (2007).

população com água potável, como espaço de trabalho às lavadeiras e de bebedouro aos animais. O enigmático chafariz tem traços de simbologia maçônica e é um dos principais cartões- postais da cidade. Este chafariz é considerado um dos mais significativos do barroco mineiro e é o único que possui oratório com a imagem de São José de Botas.

A presença da água no contexto da cidade para além de sua função orgânica, serviu também como espaço de convivência social. Pontos de parada sejam de tropeiros ou dos habitantes das cidades, as praças e chafarizes tinham a função de aglomerar pessoas, sendo um marco, um referencial de espaço, símbolo arquitetônico e organizacional das cidades. Presentes nas memórias e nos contos, da literatura ao cinema, esses lugares são fundamentais para a preservação da história do povo mineiro.

Com o advento da cidade moderna, o conceito desses chafarizes foi ampliado. Surgiram fontes de água, depois as fontes sonoro/luminosas que, se configuram como verdadeiros espetáculos urbanos, uma vez que reúnem elementos como a música, a luz, cor e o movimento em função do encantamento. Porém essas fontes se destinavam à apreciação distanciada do espectador. Nos dias atuais vimos surgir o conceito das fontes interativas, onde é possível participar fisicamente

do movimento da água, por meio de jatos que brotam do solo. Presentes principalmente em parques e cidades turísticas, essas fontes para além da sua função de entretenimento, podem ser consideradas como um meio de inserir novamente a água no contexto da cidade.

Os chafarizes e as fontes sonoro/luminosas sofrem com a perda

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de sentido no contexto urbano contemporâneo, com a degradação e falta adequada de manutenção e com a incompreensão de como se relacionar com o bem público pela própria população, ficando desativadas ou com funcionamento parcial. Essa situação coloca em cheque a relação cultural estabelecida com um equipamento urbano que gerou fascínio, sedução e entretenimento; simbolizado e poetizado em diferentes culturas e ao longo da história das civilizações. O debate empreendido nessa pesquisa, na articulação de teorias artísticas e contextos históricos, nos permite compreender que essa perda de sentido não é resultado apenas do descompromisso da administração pública é sobretudo um processo que pode ter suas raízes na compreensão da cidade no contexto da pós-modernidade, em que a identidade individual e coletiva, o fluxo social e a própria alienação do lugar público pelo cidadão corroboraram para tal situação.

Nessa análise, incluímos a percepção compartilhada pelo arquiteto Eduardo Rocha (1997) na qual se dedica a mapear a cidade pelos seus rastros de abandono, visando compreender o processo de apagamento e desfuncionalização de construções no contexto da cidade contemporânea, fundamentada no que ele denomina de Arquiteturas do Abandono.

As arquiteturas do abandono compreendem desde edificações desabitadas, ruínas, restos de construção como também favelas, resíduos, sujeitos excluídos e tudo que até o desprendimento da matéria poderá nos levar a sentir e a pensar.Num primeiro momento, apenas uma casa abandonada, em qualquer lugar, vizinha a tantas outras, nossa vizinha. Por ela, passamos todos os dias, caminhamos pela rua, a qual também acumula a sujeira, os restos, o capim. Tudo ao redor dessa casa, saindo pelas frestas, ruindo o reboco. A casa lar que antes abrigava uma família, agora se abre aos desabrigados, aos vagabundos, aos bandidos. Abandona-se ao bando.[...] (ROCHA, 2011, p. 48)

Presos apenas às lembranças dos moradores mais antigos, esses espaços tendem ao desaparecimento se medidas não forem tomadas no sentido de ressignificar as fontes nas cidades contemporâneas, sensibilizar a comunidade, poder publico e até mesmo a iniciativa privada sobre a importância de se ter nas cidades praças com suas fontes d‘água em pleno funcionamento.

Outra ideia que o autor apresenta é a consideração dos valores imateriais, ―in- arquitetônicos‖ e ―ante-estruturais‖ desses espaços. Refiro-me nos valores em escala afetiva, psicológica, imagética e criativa, elementos acionados no processo criativo de ―Anjos da

113 O campo de ação das arquiteturas do abandono é amplo e, muitas vezes, caótico, abarca a matéria e a imatéria. Abandonamos materialidades, prédios, ruínas, restos, objetos, coisas, tudo o que possamos tocar, roubar, quebrar ou assassinar. No entanto, abandonos são também imateriais, do campo do sensível, do que não podemos mensurar. O abandono imaterial é do campo dos sentidos, dos desejos ou das sensações. Só há abandono material, porque há abandono imaterial, um se alimenta do outro. É corpo, é alma. As arquiteturas materiais do abandono podem ser as forças que nos sacodem para os abandonos imateriais. Como nas artes visuais ou na música, que atravessam nossos corpos. Abandonos também são capazes de desencarnar dos corpos arquitetônicos e habitar a fronteira, o escape, a fuligem. (ROCHA, 2011, p. 53).

Assim como em outras cidades mineiras, a fonte da Praça Tubal Vilela em Uberlândia estava desativada desde 2004. Verificou-se por conta do processo de pesquisa do trabalho o forte sentimento saudosista e melancólico presente na memória e nos relatos dos moradores dos arredores, os quais presenciaram o pleno funcionamento da fonte nas décadas de 1960, 1970 e 1980.

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Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não

lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de

possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.

Italo Calvino

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CAPÍTULO III