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5  Vurdering av metoder for avvanning og tørking

5.1  Prosesseringsmuligheter med andemat

Todos os Guarani entrevistados disseram que a escola é necessária na aldeia, que todos concordaram com a construção e implantação do CECI. A decisão da construção foi efetivada a partir de reuniões realizadas com a comunidade por suas lideranças e representantes da Secretaria Municipal de Educação, assim como aponta o Sr. Laurindo Tupã, pajé da aldeia Krukutu: “A gente precisa ter escola na aldeia, precisa de escola pra estudar. Desde pequeno tem que conhecer nossa cultura e aprender a cultura do povo de fora” . Para Olívio Jekupé, presidente da associação Nhe’e Porã,

O CECI foi construído para resgate da cultura, com o Centro Cultural, para atender aos turistas, brincar com as crianças... O CECI possibilitou ampliar conhecimento... O CECI dá continuidade à casa de reza... leva as crianças na casa de reza para participar das atividades, para cantar... No CECI faz colares, desenho etc. Trabalham no CECI pessoas que conhecem a cultura para dar continuidade na cultura... coloca os tradicionais para falar. O CECI é para o fortalecimento da cultura indígena” (Olívio Jekupé/2011)

Muitas das atividades planejadas no CECI são realizadas na casa de reza. As crianças cantam e dançam, participam das cerimônias e de outras atividades lá desenvolvidas.

Figura 5: Sr. Laurindo Tupã, Xeramõe(pajé) e educador do CECI, na Opy

Fonte: arquivo pessoal da autora, 2005

Segundo Marcondes (2008), para os Guarani a Casa de Reza (Opy) é um centro sagrado no tekoa, sendo o tekoa o lugar onde vivem segundo seus costumes e leis.

O espaço físico de um tekoa deve possuir todos os recursos necessários para

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conter recursos naturais preservados que permitam a manutenção de seu

nhandereko. (Marcondes, 2008, p.23)

Na Casa de Reza, também são tratados assuntos pertinentes ao CECI, seja alguma orientação, resolução de problemas ou mesmo sugestões para seu melhor funcionamento. Não foi por acaso que logo após a inauguração do CECI, o xeramõe (pajé) orientou que antes do início das atividades no CECI fôssemos à Casa de Reza para Nhanderu abençoar o trabalho que seria iniciado na aldeia.

Nas cerimônias religiosas às vezes conversamos sobre o CECI, tudo depende, quando tem dificuldade. Os pais tem que mandar as crianças; os monitores tem que se esforçar mais um pouco.., Nas cerimônias falamos sobre o CECI, sobre a limpeza, conservar mais o lugar, saúde... (Laurindo, 2011)

O CECI foi construído e está incluso no tekoa. A apropriação do CECI pelos Guarani se faz presente no cotidiano da aldeia e nos diversos projetos que a comunidade realiza. Das atividades realizadas no CECI estão as que contemplam também as ações em parceria com a equipe de saúde da UBS Krukutu, da pastoral da criança e de FURNAS, parceiros importantes com relação aos cuidados com a saúde e nutrição das crianças. Além do trabalho educativo e preventivo, o CECI está atento às deficiências nutricionais das crianças a partir da demanda informada por aqueles. Quando uma criança está com baixo peso, desnutrida ou em alguma dieta alimentar, o fato é comunicado à coordenação do CECI e aos funcionários da cozinha, que atentos acompanham a nutrição da criança em questão.

A equipe de saúde da UBS Krukutu, além de acompanhar alguma dieta específica para os alunos do CECI que necessitam desse procedimento, também utilizam o espaço do CECI para ações preventivas como palestras e demais orientações necessárias. A pastoral da criança, através da coordenadora do projeto da pastoral na aldeia e das lideranças Guarani, realizam um trabalho voluntário agindo na promoção da saúde e do desenvolvimento integral de gestantes, crianças e suas famílias. Mensalmente utilizam o espaço do CECI para realizarem as reuniões com a comunidade e a pesagem das crianças, sendo anotadas as informações em caderno próprio. Rosamar, coordenadora do projeto da pastoral na aldeia, relata que as lideranças da aldeia autorizaram a efetivação do projeto após consulta à comunidade, desde que fosse respeitada a religião Guarani. No início do projeto, em 2000, Rosamar relata que o enfoque era o combate à desnutrição e prevenção da mortalidade infantil. As crianças a

56  partir dos seis meses tinham um alto índice de desnutrição. A carência alimentar era geral e não afetava somente às crianças. Dentre as obrigações de FURNAS, contidas no termo de compromisso de ajustamento de conduta do Ministério Público Federal, capítulo V, estava o compromisso de construir, na aldeia Krukutu, Unidade Multifuncional com área aproximada de 120 metros quadrados, destinada à implantação de cozinha comunitária e de unidade básica de saúde, conforme “Projeto da Unidade Multifuncional”, previamente discutido e aprovado pela comunidade indígena, a partir do ano 2000. A cozinha comunitária seria destinada a preparação e oferta de comidas tradicionais, sobretudo às crianças, como incentivo ao consumo da culinária Guarani, à produção de gêneros necessários na própria aldeia e à recuperação nutricional dos seus membros, além do fornecimento dos equipamentos necessários ao seu funcionamento. Com estes compromissos cumpridos por FURNAS, a implementação desses equipamentos foram efetivados. Uma equipe de saúde designada pela FUNASA para trabalhar no posto de saúde, além da cozinha comunitária, que começou a ser utilizada pela comunidade à medida que recebiam alimentos ou em alguma comemoração específica. Como nem sempre tinham alimentos, a cozinha foi pouco utilizada nesse período.

Além da implantação da cozinha comunitária e da unidade básica de saúde, o “Projeto de Recuperação Ambiental e Subsistência” de FURNAS, coordenado pela engenheira agrônoma Roseli Alleman, contemplou a aquisição de sementes, adubos orgânicos, mudas, ferramentas, alimentação para mutirões de trabalho, fretes, deslocamentos, povoamento da área da aldeia com espécies de vegetação nativa, sobretudo das mais utilizadas pelos índios como fonte de alimento, saúde e em sua cultura material, com apoio às atividades de agricultura de subsistência e artesanato a serem desenvolvidas pela comunidade e a construção de açude na aldeia do Krukutu para criação de peixes.

Em algumas ações específicas, a parceria CECI e FURNAS foi muito significativa, principalmente no que diz respeito à nutrição e educação alimentar. Oficinas de nutrição, plantio de roças tradicionais como o avaxi (milho), viveiro de mudas, mutirão de plantio de mudas frutíferas, foram uma das atividades realizadas pelos educadores e crianças do CECI, fazendo parte do planejamento das atividades pedagógicas a serem desenvolvidas. Todos os Guarani entrevistados nesta pesquisa apontaram para a melhora da saúde das crianças depois da implantação do CECI na

57  aldeia: “(...) melhorou alimentação, melhorou a saúde, diminuiu internação no hospital... O pessoal do hospital perguntou porque não tem mais crianças indo lá... Antigamente lotava o hospital... A nutrição do meu filho melhorou” (Marina Katu, 2011). Relata-se uma experiência vivida na segunda semana de trabalho no CECI, em 2004:

Na semana seguinte em que ocorreu a inauguração do CECI, presenciei o velório de duas crianças na Opy, onde há uma semana tinha participado da cerimônia dando início aos trabalhos. A aldeia estava em luto. As atividades foram suspensas. A tristeza se fazia presente em todos os olhares. A causa da morte de uma das crianças foi desnutrição e pneumonia e da outra também desnutrição acompanhada de complicações cardiológicas. Nos meus primeiros contatos com as crianças já havia percebido uma situação de fragilidade nutricional, acompanhada de corizas, gripes e pneumonia de acordo com relato de algumas mães. Acompanhar o sofrimentos das mães, das crianças e demais Guarani da aldeia foi um fator determinante para o combate à desnutrição através da alimentação e trabalho realizado no CECI, buscando ações e projetos com enfoque multiprofissional. Minha indignação ao ver crianças desnutridas no município de São Paulo foi muito grande. Neste momento “conversei” com Deus e afirmei para mim mesma que no que dependesse do trabalho realizado no CECI nenhuma criança mais morreria de fome ou desnutrição. No entanto, para efetivar esse trabalho sabia que precisaria da ajuda de pessoas que também atuavam com as crianças, isto é, a equipe de saúde, da pastoral da criança, da engenheira agrônoma, das lideranças e dos pais. Ao finalizar meu trabalho no CECI, saí com a sensação do dever cumprido pois além de nenhuma criança ter morrido de desnutrição, as mesmas se encontravam saudáveis e com uma considerável queda nas internações, graças ao envolvimento e compromisso de todos nesta força tarefa. (Anotações da pesquisadora)

Neste período coube a equipe de saúde da UBS Verá Poty, anexo Krukutu, disponibilizar uma lista com nomes de crianças que estavam abaixo do peso ou com alguma carência nutricional, indicando reforço alimentar ou algum outro tipo de procedimento. A pastoral da criança, mensalmente, também disponibilizava uma lista com nomes de crianças, sendo que para algumas já havia entregue a farinha enriquecida. Esta lista ficava fixada na cozinha. Quanto ao trabalho da engenheira agrônoma Roseli Alleman, contratada por FURNAS, foi o de incentivar e subsidiar o cultivo de hortas, inclusive no CECI, a criação de uru (galinhas), o plantio de árvores frutíferas e o manejo da terra para outros plantios. Os parceiros no combate à desnutrição e nas formas de melhorar a saúde das crianças foram e são de fundamental importância, além de outros projetos também desenvolvidos na aldeia.

58  Dados fornecidos pela pastoral da criança6 revelam que em 2000, ano em que se deu início ao trabalho na aldeia, o índice de desnutrição era de 24,8%; em 2004, quando se iniciou o projeto CECI, era de 23,5%; em 2008, o índice foi de 6,4% e, em 2011, de 4,9%. Podemos observar, através destes índices, uma diminuição muito significativa na desnutrição das crianças da aldeia. Para a agente da pastoral da criança, a Sr.ª Rosamar, a diminuição da desnutrição diminuiu muito depois da implantação do CECI, mas ainda há alguns casos. Ela reforça que a desnutrição esta relacionada a falta e qualidade na alimentação adequada, sendo que algumas famílias não tem como adquirir alimentação em quantidade suficiente para crianças e adultos, por isso, também é importante a implantação de projetos de sustentabilidade, a partir do que terão renda para aquisição de alimentos.

Além da diminuição da desnutrição outras mudanças ocorreram, assim como relata Olívio Jekupé (2011):

(...) Teve mudanças no cotidiano da aldeia... computadores, filmes. Como o CECI é no centro da aldeia, é um lugar onde as pessoas gostam de conversar, é aglutinador de pessoas; a qualidade de vida melhorou muito com a criação de empregos para as pessoas/famílias, melhorou a saúde das crianças também, pois além da água ser ruim, antes do CECI, as crianças passavam fome.

São nas conversas, reuniões e cerimônias que o nhandereko, o modo de ser e viver Guarani, também se faz presente. Nesses encontros, somente é falada a língua Guarani. Só utilizam a língua portuguesa quando se comunicam com os juruás7. Não perder a língua Guarani é uma das preocupações entre os indígenas da aldeia. Frequentar o CECI é uma ferramenta para que a fluência da língua seja recuperada, como descreve o Sr. Laurindo Tupã: “Não devemos deixar de falar a própria língua. Até 5 e 6 anos fala só Guarani e depois começa aprender português. Algumas crianças de 3 anos já querem aprender a falar em português algumas palavras”.

      

6 Dados fornecidos pela pastoral da criança a partir das informações anotadas no Caderno da Líder da Pastoral da Criança que atua na aldeia Krukutu desde 2000, a Srª Rosamar Maria Coelho.

7 Percebi com o passar do tempo que os Guarani insistiam que eu aprendesse a falar a língua Guarani. Foi nesse contexto que um dia ousei chamar as crianças para a refeição em Guarani, estimulada pelos educadores ali presentes. No entanto, a frase não saiu como deveria e fui motivo de muitas gargalhadas por parte de todos, pois tinha que dizer “Peju Kyrĩgue Pekaru” (Crianças venham comer), no entanto, disse: “Peju Kirĩngue pekuaru” (Crianças venham urinar).

59  Para os Guarani a palavra é muito importante. Nela se encontra a confiança, o conhecimento, o vínculo, o respeito, o afeto, o transcendental, os mitos, a religião. A palavra tem “força”, tem sentimento e realização. Observa-se a importância dada às palavras nas reuniões realizadas no CECI, nas cerimônias na casa de reza, nas conversas pausadas e cuidadosas, no instante em que a conversa tem que ser interrompida para que possam utilizar o petyngua (cachimbo), buscando a melhor palavra e ou a melhor decisão a ser tomada. Desse modo, a língua Guarani faz parte da resistência e fortalecimento da cultura, sendo um dos motivos de preocupação para as crianças não aprenderem outra língua antes dos seis anos aproximadamente. No entanto, assim como já foi descrito, as crianças abaixo de seis anos têm contato com a língua portuguesa através dos meios de comunicação e diversas mídias presentes na aldeia, criando um ambiente facilitador na aprendizagem precoce de algumas palavras. Nas reuniões realizadas no CECI sempre foram discutidos os assuntos prioritariamente na língua Guarani, sendo traduzidas as ideias principais em português para prosseguimento das decisões.

Um exemplo interessante da “força” da palavra é o que diz respeito à palavra monitor, utilizada no início do projeto CECI. Os Guarani refletiram sobre esta palavra e decidiram mudá-la para educador, com o apoio da coordenadora geral Ana Lucia, como relata Luis Karai: “Não tem sentido a palavra monitor, somos educadores, educadores de crianças. Temos mais respeito com esta palavra”.

Percebe-se que, ao mesmo tempo em que ocorre a preocupação com a perda da língua Guarani no diálogo intercultural, ocorre também uma valorização desse mecanismo, no caso o CECI, para auxiliar no trabalho com a língua Guarani, ou seja, a escola, instituição alienígena à aldeia, é o lugar onde ocorre o seu fortalecimento. De uma maneira geral os Guarani da aldeia Krukutu sabem o que esperam da escola: valorizam-na em determinados aspectos, questionam e também não concordam com algumas ações ali realizadas, tentando sempre uma adequação ou mesmo uma substituição de procedimentos.

A escola na aldeia é legal porque as crianças aprendem a estudar e falar português, conhecer como os brancos falam. Serve para aprender a responder e falar com os Juruá. Não tem problema falar na escola português porque entre nós só falamos Guarani; a gente dá conselho para as crianças só falar em Guarani com a gente. Os pajés falam também que tem que ser assim. O Português fala na escola. Os pais não acham ruim falar. Tem que falar Português na escola porque quando crescerem eles podem ser cacique e aí vai

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saber falar português, se tiver reunião já participa da reunião e vai saber como responder às pessoas (Luiz Karai da Silva, 2011)