Kapittel 7 Diskusjon
7.1 Prosessering
Fawcett (apud Baker 1998: 121) afirma que a relação entre a tradução e a linguística se pode desenvolver de duas formas: aplicando os conhecimentos e as descobertas da linguística à prática da tradução ou estabelecendo uma teoria da tradução baseada na linguística. A primeira confere ao tradutor a possibilidade de aplicar à tradução conhecimentos resultantes de abordagens à linguística e às suas sub-áreas, como a sociolinguística. Estes conhecimentos permitem ao tradutor uma adaptação formal do texto, questão que se revelará fundamental na parte final do nosso trabalho. No segundo caso, além de se poderem aplicar princípios e conhecimentos de linguística nos textos a traduzir, o autor refere a aplicação da teoria da linguística ao próprio conceito de tradução. Fawcett recupera a noção de equivalência dinâmica de Nida como exemplo de uma aplicação da sociolinguística na tradução quando a ênfase reside na legibilidade do texto de chegada e na captação do sentido total da mensagem do texto de partida.
Na senda desta simbiose, Bastianetto elaborou um ensaio acerca da relação entre Teoria da Tradução e Teoria da Linguística, procurando comprovar que estas «estão intrinsecamente ligadas para legibilidade de textos traduzidos» (2013: 1). A autora explora a relação da Tradução com diferentes áreas teóricas em torno do texto: Teoria do Texto, Teoria Literária, Teorias da Receção e Leitura, Teoria da Argumentação, etc., afirmando que a tradução busca em todas elas auxílio no desenvolvimento da sua atividade (Bastianetto 2013: 2).
Seguindo essa linha de reflexão, Bastianetto (2013: 2) afirma que a Teoria da Tradução precisa, ainda, de se relacionar com disciplinas que «corroborem para o entendimento de comportamentos linguísticos distintos, nas diversas línguas, para a expressão de traços universais», como a Sociologia, a Etnografia, a Antropologia, entre outras. Além disso, para a compreensão do léxico de especialidade, a Teoria da Tradução apoia-se nas áreas específicas ao tema tratado em cada texto. Resulta, assim, evidente que a Tradução tem um carácter eminentemente interdisciplinar, operando entre teorias, na interface entre várias áreas do saber.
Para reforçar a relação entre linguística e tradução, a autora recupera o linguista francês George Mounin (1965): «a Linguística, no seu sentido lato, entendida como disciplina que estuda os fatos da língua, deve a aceleração de seu desenvolvimento às primeiras investigações sobre tradução mecânica. Foram, pois, os engenheiros, matemáticos, lógicos e peritos em electrónica a perceber que o ponto fraco para o
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desenvolvimento da tradução mecânica estava na falta da análise da Tradução do ponto de vista da Linguística» (Bastianetto 2013: 2).
Também Baker enfatiza a importância primordial que o entendimento da linguística tem para o trabalho de tradução, ao afirmar que, para que a tradução seja encarada como uma profissão no sentido pleno da palavra, os tradutores devem, antes de mais, conhecer a matéria-prima que usam no seu trabalho, entender o que é a língua e as formas como é usada (Baker 1992: 4).
A proximidade extrema entre linguística e tradução foi definitivamente consagrada por Roman Jakobson, que em 1959 publica o artigo On Linguistic Aspects of Translation, sublinhando a importância da tradução para a própria linguagem, demonstrando que o ser humano, ao comunicar, realiza fatalmente um ato de tradução, que pode ser intralinguística, interlinguística ou intersemiótica.
Já no século XIX o linguista russo Federov havia defendido a necessidade de se criar uma teoria da tradução fundamentada, sobretudo, na Linguística (apud Bastianetto 2013: 3). Federov acreditava que uma teoria da tradução se devia basear no estudo linguístico das questões tradutórias. Na transição entre os séculos XIX e XX, o linguista suíço Saussure abre o ciclo dos grandes debates da Linguística, refletindo também sobre a tradução e afirmando que as dificuldades desta residem na descrição diferente que cada cultura faz do mundo e que se concretiza através da língua como forma de expressão desse mundo. De certo modo, Saussure confirmava a ideia de Humboldt de que o homem vê de forma diferente o mesmo objeto, dependendo da língua que fala (apud Bastianetto 2013: 4).
Em consequência desta evolução do paradigma da tradução, os teóricos precisavam de entender e poder explicar de que forma a tradução poderia dar conta de tantas representações do mundo. Essa questão abre caminho ao estudo sobre outra relação embrionária, a que se dá entre linguagem e cultura, e que funciona num movimento circular: cultura → linguagem e linguagem → cultura. Isto é, concebe-se a linguagem como parte integrante de uma cultura que a espelha e a condiciona. De acordo com Bastianetto (2013: 4), «Para os estudiosos que refletiam sobre a atividade da tradução, já estava claro que a tradução não se limita à substituição de signos verbais, mas pratica também a transferência e adaptação cultural de signos extralinguísticos.».
No virar do século XX, fruto do estudo e da prática, reconhecem-se diferentes formas de traduzir, aplicadas sobretudo na tradução de obras de culturas menos conhecidas, ou consideradas exóticas relativamente à cultura receptora. Segundo Bastianetto (2013: 5), «Essas modalidades, como a recriação e a transcriação, aceitam e incorporam na língua do texto traduzido a estranheza da obra estrangeira. Representam uma abertura, uma hibridação e uma descentralização, forçando a língua e a cultura domésticas a registarem as particularidades do texto estrangeiro».
Esse tipo de tradução adequa-se a textos que se caracterizam pela diversidade cultural e/ou pela conotação, em que há um cuidado especial com a manutenção da forma ou expressões autorais sui generis. É o tipo de tradução que, na Europa Oriental, é
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conhecida como “tradução artística” e, na Europa Ocidental, como “tradução literária” ou “teórico-literária”. Distingue-se dos outros tipos de tradução por ser encarada como um processo textual criativo.
Esta necessidade de criatividade tradutória em alguns tipos de textos pode ser ilustrada pela metáfora de uma ponte, pois, tal como uma ponte, a tradução faz sempre a ligação entre dois lados: o do texto original e o do texto traduzido, e a ponte (a tradução) permite a passagem de um lado para o outro. Nos casos em que a tradução não encontra termo equivalente do outro lado, o tradutor encontra uma lacuna, que preenche criando um novo termo, ou neologismo. Para o efeito, o tradutor deve conhecer profundamente os mecanismos linguísticos internos à língua responsáveis pela formação de palavras.
A língua encontra-se munida de recursos suficientes para possibilitar a tradução de uma palavra que não tem, na língua de chegada, um signo correspondente com o mesmo significado com que é empregada no texto de origem. Esses recursos são os processos de incorporação e os mecanismos de formação de palavras, podendo revestir a forma de importação lexical ou de criação lexical, resultando sempre num neologismo.
Pavel (1989: 125) contextualiza a criação neológica decorrente da tradução, defendendo que a evolução do pensamento e da tecnologia conduzem a uma mudança linguística, no seio de qualquer idioma.
No caso do mirandês podemos identificar, além destes, outros fatores de incremento do léxico, como sejam a integração numa organização internacional multilingue, como a União Europeia, que estimula a cidadania comunitária e a partilha cultural comum, criando a necessidade, ou a curiosidade, de traduzir para mirandês textos relativos à Comunidade produzidos noutras línguas, como é o caso de dois dos textos que vão enquadrar o corpus de extração para a análise prática deste estudo (Ouropa de las lhénguas, L génio de l’Ouropa), o acesso ilimitado aos meios de comunicação de massas e a produção intelectual crescente.