Na EaD, o sentimento de humildade começa com uma redefinição dos papéis de professores e alunos. Os professores não detêm mais o monopólio do saber, mas posicionam- se como parceiros, oferecendo aos estudantes suporte e orientação para que desenvolvam seus conhecimentos. Uma EaD dialógica valoriza as relações que se estabelecem entre educadores e educandos. A figura do educador depositário de conhecimentos e do aluno receptor, assimilador passivo, perdem sentido. Uma postura autocrática e monológica vai aos poucos sendo substituída pelo aprender junto, pela troca interativa.
De acordo com Dias (2005, p. 4), “a educação on-line constitui uma interessante oportunidade para o necessário deslocamento da pedagogia da transmissão para a pedagogia do diálogo”. Isso se dá porque as ferramentas de comunicação existentes (chat, fórum, mural, blog) permitem aos alunos expressarem e reformularem seus pontos de vista várias vezes ao longo do curso. Consequentemente, alunos que talvez não se pronunciassem numa sala de aula convencional podem se sentir mais a vontade para expressarem seu ponto de vista, discordando e argumentando sobre os temas em questão. Entretanto, é importante ressaltar que as ferramentas apenas criam essa possibilidade, sendo efetivada somente se alunos e professores tiverem uma postura dialógica.
O exercício do princípio da humildade em atividades de EaD compreende que todos os atores (educadores e educandos) podem contribuir com o aprendizado coletivo. O professor valoriza as colocações dos alunos, trazendo-as à discussão, sem discriminações. Renuncia a posição de detentor dos saberes e fonte única do conhecimento. Sua atitude passa a ser mais colaborativa e menos instrutiva, buscando desenvolver uma pedagogia problematizadora, de convite à reflexão, apresentando caminhos, provocando ideias e motivando a experiência fundamental de uma ação co-laboradora.
Na EaD, o princípio da humildade está diretamente relacionado ao princípio da fé nos homens, pois representa a valorização da autonomia dos estudantes. O professor passa a valorizar os pontos de vista de seus alunos, estimulando-os a também se expressarem no espaço virtual. Ele cria um ambiente no qual o estudante se sinta em uma posição de igualdade e não de inferioridade frente a ele e aos demais participantes. Preocupado em estabelecer relações sociais no contexto da EaD, o professor se engaja na proposição de questões que incentivam os estudantes à interação. Dessa forma, passa a envolver todos os participantes, sem desconsiderar sua heterogeneidade e diversidade.
Bittencourt et al (2004), comentando sobre o potencial da aprendizagem colaborativa suportada por computador, afirma que todos são beneficiados ao se engajarem em um projeto de construção colaborativa de conhecimentos. Alunos mais tímidos são convidados a se posicionarem acerca dos temas em discussão, enquanto aqueles que
costumam dominar o discurso são convidados a dividirem o espaço de comunicação com os demais. Todos, porém, têm a oportunidade de se expressar, de fazer comentários sobre os pontos de vista dos outros, demonstrando a importância da valorização humana em contextos educacionais a distância.
O princípio da esperança, por sua vez, ressalta o poder de criação dos estudantes, a consciência de que todos se encontram em um processo de construção coletiva de conhecimentos, podendo contribuir igualmente com o aprendizado do grupo.
O estudante deve ser estimulado a ampliar seus conhecimentos através da pesquisa em fontes que vão além dos materiais disponibilizados no curso. O espírito científico é um reflexo da consciência do inacabado que incentiva o aluno a navegar pelo mundo de informações contidas no ciberespaço, como também a pesquisar em outras fontes,trazendo os conteúdos à reflexão coletiva, através das ferramentas de comunicação do ambiente virtual de aprendizagem.
Aprender no formato atual da EaD significa muito mais estar aberto ao conhecimento através de fontes variadas do que somente ao conhecimento proveniente do professor e dos materiais didáticos por ele disponibilizados. É necessário também conhecer os benefícios que as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) proporcionam e utilizá-las ao seu favor (BIAGIOTTI, 2005). A indicação de sites da Internet, capítulos de livros, artigos de revistas e até mesmo de vídeos, filmes e entrevistas, traduzem o interesse do professor em construir uma EaD dialógica que valorize a esperança dos seus estudantes.
Através das TIC, o professor deve agir como um mediador de conhecimentos incentivando a busca constante de novos conhecimentos por parte de seus alunos.Para tanto, precisa trabalhar um processo educativo mais compartilhado, com profunda participação dos alunos, individual e grupalmente, onde as tecnologias darão o suporte comunicativo e em termos de conteúdos também. Segundo Moran (2003), ensinar e aprender exigem hoje muito mais flexibilidade espaço-temporal, pessoal e de grupo, menos conteúdos fixos e processos mais abertos de pesquisa e de comunicação. Além disso, os conteúdos trazidos à discussão
precisam fazer parte do contexto pessoal, intelectual e emocional de alunos e professores para que proporcionem uma aprendizagem verdadeiramente significativa.
Sentimentos de afetividade também podem ser praticados em trocas comunicativas da EaD. Apesar da centralidade na linguagem escrita, muitas ferramentas de comunicação oferecem recursos paralinguísticos (emoticons1, caixa alta, repetição de sinais de pontuação etc.) que possibilitam aos interlocutores traduzirem suas emoções no texto das mensagens. Em um trabalho anterior (DAVID et al, 2006), observamos que a linguagem praticada em listas e fóruns de discussão pedagógicos aproxima-se de uma conversação ao apresentar fortes traços de oralidade, embora se manifeste na forma escrita. Constatou-se que a presença de traços de oralidade nas comunicações escritas, efetuadas através de ferramentas de comunicação da Internet, atestam sua utilidade como veículos promotores da interação e do diálogo.
O professor não deve censurar o uso de recursos paralinguísticos pelos alunos e uma eventual fuga à norma culta nas comunicações que realizam em cursos a distância. Corrigi-los seria o mesmo que exigir um discurso oral em sala de aula completamente adequado às regras gramaticais. A preocupação deve ser muito mais de incentivar a construção de relacionamentos através do diálogo entre os participantes, valorizando o respeito mútuo e a ética, tão significativos no exercício de uma educação libertadora (FREIRE, 2007).
Assim, a postura dialógica pode ser verificada na forma de abordagem aos estudantes, na aceitação às críticas, na avaliação dos conhecimentos de forma construtiva e na valorização de todos os alunos como colaboradores do processo de aprendizagem.
No que diz respeito ao exercício de um pensar crítico na EaD, é notório o potencial que as TIC oferecem à prática deste princípio dialógico. Se o aluno é convidado a refletir sobre seu próprio processo de aprendizagem e a se posicionar criticamente sobre ele,
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Símbolos ou ícones que ilustram a atitude sentimental de pessoas interagindo por meio dos instrumentos de comunicação da Internet.
estará exercendo um pensar crítico. Ao desenvolver argumentos e/ou confrontar as afirmações feitas por outros participantes no contexto de um debate on-line, o estudante de EaD estará desenvolvendo a curiosidade crítica e uma atitude de não-conformidade com os conteúdos a ele apresentados. Normalmente, essa postura gera contradições e conflitos, cabendo ao grupo o engajamento mútuo para solucioná-los. O professor não precisa dar respostas prontas aos estudantes, mas oferece-lhes caminhos para uma reflexão. É importante apresentar questões desafiadoras e problematizadoras ao longo do debate, para estimular as trocas interativas.
Ao final desta seção, é possível constatar a relevância dos cinco pilares do diálogo freireano na formação de um contexto favorável ao aprendizado de estudantes de EaD. Esses pilares se revelam como fortes indicadores de interações contingentes, ou seja, de interações entre pessoas engajadas na construção coletiva de conhecimentos. No contexto desta pesquisa, o diálogo freireano será compreendido como parte do conceito de interação contingente, representando as ações dos atores envolvidos (professores e alunos) na formação de um cenário pedagógico reflexivo, crítico e colaborativo. O estabelecimento desse tipo de diálogo depende, em grande medida, do desenvolvimento de relações pessoais fundamentadas na ética, no respeito mútuo e na valorização do ser humano.
Outra área que tem contribuído para a compreensão do conceito de interação é a Psicologia. A próxima seção incluirá nesta discussão elementos teóricos deste ramo do conhecimento que permitirão compreender o papel do outro social nas aquisições conceituais de indivíduos engajados em situações de aprendizagem. O referencial teórico de Vygotsky (2003, 2005) e os trabalhos de estudiosos da linha sociointeracionista trarão elementos esclarecedores para uma definição mais consistente de interações contingentes.