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Eware é a nossa terra sagrada. É o começo do mundo, onde foi criado o povo Ticuna. Nesse lugar corre o igarapé que também se chama Eware. Das águas do Eware nosso deus Yo´i nos pescou. Eware, tuas árvores e tuas águas são nossa herança. Os velhos contam que as árvores do Eware são diferentes. A mata é baixa, nunca cresce e nunca morre. O Eware é protegido por animais e gente encantada10.

A Sociedade Ecológica Amigos de Embu (SEAE), entidade sediada no município de Embu - SP, atua na defesa do meio ambiente desde sua fundação, em 1975. Na área de Educação Ambiental, quando eu assumi a coordenação, a entidade iniciou, em fins de novembro de 2002 e janeiro de 2003, propostas estratégicas que visavam sensibilizar e partilhar conhecimentos com a população escolar e a comunidade em geral: a organização, elaboração e edição do boletim Évare, com a participação de adolescentes filiados ou não à entidade e o projeto “Adote uma Escola”.

A proposta do boletim Évare surgiu como um meio de mobilizar os jovens, envolvendo-os num trabalho de pesquisa e comunicação, apoiando-se na investigação dos problemas atuais e mais próximos da população, numa linguagem descomplicada, atraente, de leitura rápida e informativa, apontando ações cotidianas viáveis em relação à preservação do meio ambiente e, ao mesmo tempo, pretendia construir uma ponte entre a SEAE e as escolas do município, localizadas, em sua maioria, em bairros carentes e ambientalmente bastante afetados.

Essa proposição teve o seu primeiro resultado quando o informativo foi distribuído nas escolas, tendo chamado a atenção especialmente de duas delas: a Escola Estadual Iracema Bello Oricchio, situada no bairro de Itatuba e a Escola Estadual do Bairro Capuava, ensino fundamental de 1ª a 8ª séries, ambas inseridas em regiões rurbanas,

10 Évare (Eware) nome inspirado no Livro das Árvores dos povos Ticuna, da Amazônia. Material organizado

por Jussara Gomes Gruber, faz parte do projeto A Natureza segundo os Ticuna, iniciado em 1987. O projeto integra uma série de atividades voltadas à educação ambiental do programa Curso de Formação de professores Ticuna – Habilitação para o Magistério, no estado do Amazonas. O livro abrange o olhar dos indígenas sobre a natureza e tudo o que os cerca, mostrando a sua intensa e rica relação com o maio ambiente (fonte: Boletim Évare, ano I, n. 1, jan. 2003, publicação SEAE). Essa foi uma experiência muito estimulante, inspiradora para o grupo que se iniciava. Entramos em contato com Jussara Gruber, contamos do nosso projeto e pedimos licença para usar o nome Eware, que convertemos em Évare, conforme a pronúncia. A idéia foi muito bem recepcionada pelo grupo dos Ticuna que estava à frente do projeto.

conforme categoriza o Plano Diretor da Estância Turística de Embu, quando de sua aprovação em dezembro de 2003.

As escolas citadas entraram em contato com a Ong. e realizaram alguns projetos com seus alunos, sobretudo pelas professoras de Ciências e Língua Portuguesa, em Itatuba; Matemática, Artes e 1ª e 2ª séries do Ensino Fundamental da Escola do Bairro Capuava (EE Capuava), ao mesmo tempo em que estabeleceram, através da SEAE, parcerias com o Programa “Observando o Tietê”, da Fundação SOS Mata Atlântica.

Segundo relatou Maria Ruth, diretora da EE Capuava, sempre esteve ligada à natureza. Filha de imigrantes japoneses, agricultores em Cotia, município vizinho, trazia consigo uma outra concepção de cuidado e respeito à natureza. Tinha, sobretudo, uma

preocupação enorme com a água do bairro do Capuava, muito afetada por esgotos despejados diretamente no mesmo córrego que abastece as famílias que vivem encostadas nas suas margens.

Inconformada, a diretora comentou, nesse primeiro encontro, que não conseguia

aceitar que a água, em qualquer lugar, seja transformada em fonte de doenças e sofrimento, pois a água é fonte de vida. Dessa nossa conversa, e do contato com outros

professores nas reuniões do HTPC, nasceu a idéia do projeto “Adote uma Escola”.

Àquela época, percebi que não adiantaria disponibilizar, apenas in loco, os vídeos e os livros da biblioteca da SEAE, como era a intenção dos membros da diretoria, nem o espaço da sede para debates e reflexões, apenas convidando os professores. Era preciso avançar, levando as propostas educacionais da Sociedade Ecológica para serem discutidas onde houvesse interesse e solicitação.

Elaborar campanhas e projetos pontuais nas escolas era tradição da entidade até aquele momento, desde sua fundação há 30 anos, o que desvelava uma postura ainda conservacionista, datada dos anos 60 e 70, com preocupações centradas na conservação de ecossistemas, dos recursos naturais, descolada, porém, do contexto social, sem questionar as estruturas sociais que provocam a degradação do ambiente.

Prevaleciam as denúncias e as propostas educativas eram pontuais, prescritivas, percorrendo as escolas com campanhas para o plantio de árvores, semeadura, adoção de jardins e praças. Promoviam-se denúncias ao poder público, exigindo-se “soluções” para os problemas de invasões e ocupações clandestinas, a destruição das matas nas áreas

invadidas, invasão e ocupação de áreas de proteção aos mananciais, mas nenhuma preocupação com as questões econômico-sociais que produzem esse cenário. Constante confronto com o poder público, sem a necessária visão crítica e relacional entre a crise ambiental e a crise política e econômica que assolam as sociedades modernas.

A SEAE tinha sim uma história de lutas, comprometimentos e muitas conquistas positivas em relação às questões e problemas ambientais do município e do país, mas enclausurava-se agora numa atitude reacionária, conservadora, elitista em relação aos problemas sociais e sua intrínseca associação com o aumento da pobreza e da degradação ambiental. Isto gerava resistências e antipatias por parte da população, do poder público e do empresariado do município.

Romper essa visão de sociedade e ambiente foi uma das minhas primeiras propostas de trabalho já no início da coordenação de educação ambiental na SEAE e o primeiro fio para esse novo traçado de propostas foi o projeto “Adote uma Escola”. A extensão do trabalho em educação ambiental se deu através do projeto Protagonismo Juvenil e

Cidadania Ambiental, com jovens da periferia, começando com os monitores do Parque

Francisco Rizzo, vinculados à Divisão de Educação Ambiental da Secretaria de Meio Ambiente.

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