O curso de formação dos formadores da escola iniciou-se no mês de novembro do ano de 2010, nas dependências da unidade escolar e, concomitantemente, iniciou-se a formação dos professores. Foram envolvidos na formação dos professores duas professoras da escola e o Professor Coordenador com o objetivo de que estes pudessem ajudar os demais durante a formação a distância. Essa sugestão contou com o apoio da equipe da DE e da SEE.
No primeiro encontro presencial ocorrido na escola, somente 5 professores aderiram ao Projeto, mas ainda em 2010, este grupo já contava com 20 professores. No entanto, em virtude do pouco envolvimento deles nas atividades online, sobretudo pela interrupção do ano letivo, a formação foi retomada no ano de 2011, com a participação desses 20 professores. Os gestores da escola participam da formação desde o início.
Em 2011, a escola recebeu dois professores novos, os quais foram integrados à formação. Um professor foi removido para outra escola da região, mas manifestou interesse em continuar participando das atividades previstas pelo projeto e sua solicitação foi acatada.
Com a retomada do projeto no mês de março de 2011, foi estabelecido um novo cronograma para o desenvolvimento das ações de formação, constantes nos cinco módulos, cuja finalização estava prevista para julho do mesmo ano, mas acabou sendo finalizada no mês de agosto, com uma oficina sobre elaboração de projetos, visando oferecer subsídios ao desenvolvimento do ProGitec. Apesar de o Módulo 5 ter acontecido no mês de agosto, outras oficinas e encontros foram realizados na escola durante o segundo semestre, já com a finalidade de oferecer subsídios aos professores e gestores para a continuidade do projeto em 2012.
O fim do curso, portanto, não significou o término do apoio institucional e da universidade. A PUCSP instituiu um “Plano de Sustentação” para que a escola tivesse condição de dar continuidade ao seu projeto e amadurecer o ProGITec, incorporando-o às suas práticas e ao seu Projeto Político - Pedagógico.
Essa iniciativa não estava prevista pelo Programa de Formação Brasil, mas foi considerada fundamental pela equipe de formação da PUCSP. No replanejamento das ações da escola, ocorrido no mês de julho de 2011, foi feita uma referência à importância do ProGITec para a escola e isso estimulou a reescrita de uma nova versão para o Projeto Vivendo a Leitura, que já vinha sendo desenvolvido na escola desde o ano de 2001. O projeto ganhou novos contornos para inserir o uso de tecnologias, inclusive o laptop, e passou a ser denominado “Vivendo a Leitura na Era Digital”. Esta iniciativa da escola demonstra sua intenção em integrar tecnologias às práticas que já vinha desenvolvendo, no entanto, deixou claro que ainda seriam necessários outros esclarecimentos à equipe gestora e aos professores sobre a concepção de ProGITec, de modo que a escola ampliasse seus conceitos sobre o assunto. Afinal, o ProGITec não se resume a um projeto da escola, mas um projeto de gestão integrado às tecnologias com várias dimensões.
Assim, no mês de agosto de 2011, foi realizada uma Oficina na escola com o objetivo de orientar os professores sobre a elaboração de projetos, consolidando os conceitos trabalhados anteriormente no Módulo 4, além de fortalecer os princípios do ProGITec.
Nesta Oficina, o grupo demonstrou maior integração e coesão para o encaminhamento de um projeto interdisciplinar, sem deixar de valorizar o trabalho que a escola já vinha desenvolvendo nos anos anteriores.
A motivação gerada pela formadora, incitando os professores a analisarem as estratégias utilizadas, de modo a perceberem como as tecnologias poderiam agregar valor ao trabalho que vinham realizando, foi uma marca durante o desenvolvimento da Oficina. Os professores participaram da Oficina demonstrando interesse pelo conhecimento novo, dispostos a colaborar com os colegas e com os professores novos que estavam iniciando seus trabalhos na escola no segundo semestre e com outros que, certamente, passariam a integrar o corpo docente no ano de 2012.
A participação das representantes da DE também foi positiva, pois além de colaborarem com a reflexão relativa ao assunto que estava sendo abordado, informaram os professores sobre a possibilidade de encaminhamento do projeto da escola para conhecimento e aprovação da Coordenadoria Pedagógica da SEE e, com isso, a possibilidade de receberem recursos para a sua execução. Na ocasião, os professores disseram que não sabiam dessa possibilidade. Mais uma vez, ratifica-se a importância de um trabalho integrado entre as instituições, pois são inúmeras as possibilidades de contribuição para a escola e também para os parceiros, quando todos estão cientes do que está ocorrendo no contexto escolar e vice- versa. A informação da PCOP sobre a possibilidade de a SEE homologar um novo projeto da escola e, com isso, enviar recursos para o seu desenvolvimento, motivou a equipe escolar, pois um dos entraves ao desenvolvimento de projetos tem sido a falta de recursos para a compra de materiais, para a manutenção dos equipamentos e melhorias no espaço da escola.
Além disso, durante a oficina foi utilizada a técnica denominada brainstorming para levantar ideias e contribuições para o desenvolvimento do projeto, sendo que essas sugestões foram registradas no laptop e imediatamente apresentadas aos participantes. A formadora aproveitou para destacar a contribuição da tecnologia para o registro das informações e como isso pode ser útil para os trabalhos da escola. Nenhuma contribuição fica perdida ou na dependência somente da memória dos participantes. Nessa dinâmica de participação, diálogo e conscientização, a oficina chegou ao final com uma proposta inovadora de projeto, instrumentalizando os professores para a elaboração do ProGITec.
Esta Oficina é um bom exemplo de que a apropriação de uma teoria ou de uma ferramenta se dá, de fato, na prática reflexiva. Há indícios de que o nível de consciência do professor em relação ao potencial da tecnologia aumentou, permitindo a ele perceber com
mais clareza as possibilidades da tecnologia para o seu trabalho pedagógico. Levando em consideração a teoria de Krumsvik (2008), é possível afirmar que a reflexão propiciada pela dinâmica adotada na oficina possibilitou ao professor elevar o seu nível de “consciência digital”. E, se considerada a teoria sobre os níveis de apropriação tecnológica construídos por Borges (2009), é possível inferir que o diálogo e a troca de experiências entre os professores e os formadores, de algum modo representam o que ela denominou de “Imitação”. Segundo Borges (2009, p. 138), “a partir da imitação, observação, compreensão das ações do outro, ele tenta reconstruir, construir a sua maneira, a ação pelo outro realizada, assegurando inclusive a possibilidade de superação, aprimoramento, melhoramento, modificação e recriação do objeto imitado.” Assim, dentro dessa dinâmica, é maior a possibilidade de os professores desenvolverem competências diversas, avançando no processo de apropriação tecnológica e pedagógica.
Com o objetivo de dar continuidade ao processo de formação dos professores e gestores, de modo integrado, reflexivo e dinâmico, em outubro do mesmo ano, a equipe da PUCSP, juntamente com a equipe da DE, elaboraram um documento inicial para subsidiar o Plano de Sustentação da escola. Este Plano foi ajustado e consolidado no ano de 2012, prevendo oficinas práticas para que os professores aprendam a trabalhar as tecnologias de modo pedagógico.
Nesse sentido, e considerando a dinâmica adotada para a formação dos professores e gestores da escola, é valido refletir sobre o conceito de currículo, inclusive do currículo de um curso de formação, o qual, sem dúvida, também deve levar em consideração as ponderações postas por Almeida e Valente (2011, p. 14), quando afirmam que:
O currículo não se restringe à transferência e aplicação do conteúdo prescrito em documentos de referência para repassar ao aluno no contexto da sala de aula. O currículo se desenvolve na reconstrução desse conteúdo prescrito nos processos de representação, atribuição de significado e negociação de sentidos, que ocorrem no primeiro momento em que os professores elaboram o planejamento.
Esse discernimento é desejável tanto para os professores que atuam em sala de aula a partir do que é pré-determinado para o desenvolvimento do currículo, como para os formadores desses professores, tal qual tem ocorrido durante o desenvolvimento do Projeto UCA na EE Antonio Carlos Ferreira Nobre, o que favorece a compreensão e a busca por
soluções para as dificuldades que emergem no contexto do curso, dando ao currículo um caráter mais flexível, tal qual proposto pelo MEC (2009, p. 19 E 20), no documento denominado Formação Brasil: Planejamento das Ações, conforme segue:
Em todos os níveis, as ações de formação terão flexibilidade de modo a respeitar as diversidades organizacionais das agências formadoras e dos grupos de formação; as diferentes comunidades escolares; a variedade de situações de trabalho; as organizações curriculares próprias das escolas; as diferenças entre os professores no domínio dos conteúdos das áreas de conhecimento; as diferentes apropriações e familiarizações com as tecnologias digitais; a diversidade dos estilos pedagógicos dos professores; as especificidades de cada área de conhecimento.
Durante a formação, ainda no ano de 2010, os professores e os gestores apresentaram inúmeras dificuldades para manipular o laptop educacional e usar os softwares Linux. Também deixaram evidente que não viam significado no uso dos laptops e de que modo poderiam integrá-lo às atividades do dia a dia. Esse cenário vai ao encontro dos resultados já apresentados por estudos anteriores sobre o uso de tecnologias na educação, os quais revelam situações de conflitos, ansiedade e inseguranças, aspectos que se inserem no nível emocional, definido por Borges (2009), como sendo o primeiro de todo o processo de apropriação tecnológica. Cabe lembrar que a autora faz um alerta sobre a presença do nível emocional durante todo o processo de apropriação, ainda que manifestado de outras maneiras.
Tal situação está retratada, também, em instrumentos utilizados pela equipe de formação para avaliação das ações iniciais do curso, no final do ano de 2010, os quais contêm os seguintes depoimentos:
“Infelizmente, não conseguimos atribuir um ganho adquirido pelo projeto até agora. Estamos enfrentando muitas dificuldades que acabaram acarretando um trabalho maior no nosso dia- a-dia, sobrecarregando o nosso planejamento”.
“As dificuldades enfrentadas foram enormes. Faltou um curso voltado para iniciantes. Percebemos essas dificuldades nas falas dos colegas sobre o curso”.
Quando indagados sobre o que diriam para um colega novo que estava iniciando o curso, disseram:
“estar preparado para enfrentar muitas dificuldades e trabalho extra a ser feito nas suas horas livres, como estudo, pesquisa, prática, sem que, com isso, tenha um aumento ou bônus em seu salário”.
Também aconselharam “paciência e coragem”.
Em relação aos desafios enfrentados pelos professores, estudos sobre o tema, realizados por Almeida e Valente (2011), Almeida e Prado (2009), Borges (2009), Mendes (2008), Carvalho e Pocrifka (2010), mostram que as dificuldades não são somente de ordem tecnológica, cultural ou psicológica, mas também de ordem estrutural e sistêmica, além de estarem atreladas à aquisição de novas práticas pedagógicas, que hoje requerem novos modelos para o processo de ensino e o de aprendizagem. Ao se pensar na aprendizagem com mobilidade, tal qual a aprendizagem via laptop, essas dificuldades de uso de tecnologias são expandidas.
Pesquisa realizada por Schlemmer et al (2007, p. 8) sobre m-learning31 evidenciou que os desafios para a aprendizagem com mobilidade são de ordem contextual/social, didático- pedagógica, de ordem tecnológica e econômica, entre outras.
De fato, os professores da EE Antonio Carlos Ferreira Nobre vivenciaram momentos de conflitos nos quais foi possível perceber suas dificuldades, tanto de natureza tecnológica - navegação, uso dos softwares, buscas de informações e imagens, acesso à internet, como de natureza pedagógica e psicológica, demonstrando, à primeira vista, resistência, medo, insegurança, desinteresse e falta de compromisso.
Registros sobre essas situações serão apresentados no item que trata da apropriação tecnológica e pedagógica, especificamente na análise que foi realizada a partir dos conteúdos obtidos via observação.
31
M-learning significa aprendizagem com mobilidade. De modo geral, o conceito é adotado para o aprendizado que faz uso das tecnologias de redes sem fio, dos novos recursos fornecidos pela telefonia celular e outros dispositivos móveis como o laptop.