O Humanismo, enquanto idéia filosófica, ressurgiu no período do Renascimento quatrocentista em contraposição à visão de mundo (Weltanschauung) teocêntrica então vigente, uma vez que recolocava o homem como o centro da história da humanidade. Segundo Abbagnano (1970), as bases fundamentais do Humanismo podem ser assim expostas: 1) O reconhecimento da totalidade do homem como ser formado de alma e corpo e destinado a viver no mundo e a dominá-lo; 2) O reconhecimento da
historicidade do homem, isto é, dos vínculos do homem com o seu passado,
aproximando-o e, ao mesmo tempo, afastando-o dele; 3) O reconhecimento do valor
humano das letras clássicas; 4) O reconhecimento da naturalidade do homem.
Em sentido lato, e ainda no campo da filosofia, o termo “humanismo” comumente refere-se a qualquer grupo de doutrinas que se preocupa com a origem, a natureza ou o destino do homem, ou seja, que o reconhece como um ser especialmente valioso (Erthal, 1990).
Por sua vez, e já no campo da psicologia, o Humanismo surgiu como uma reação contra o determinismo do behaviorismo e da psicanálise ortodoxa e, conforme pontua Greening (1975), não resulta de alguma corrente filosófica ou teórica de uma única orientação em particular, mas sim, de um conjunto de linhas de pensamento cujo eixo interseccional é o respeito pelo ser humano enquanto tal. Em especial, respondem por estas linhas os postulados de A. Maslow, C. Büller, E. Fromm, G. Allport, dentre outros.
Os humanistas sustentam que a busca de valores, tais como, dignidade, razão, respeito, é uma necessidade do homem, pois promove o desenvolvimento de suas potencialidades, isto é, a sua auto-realização. Como podemos entender, o Humanismo
expressa uma visão otimista do ser humano, apoiando-se na idéia de que o homem é dotado de uma tendência inata para a realização de suas capacidades.
A esse respeito, o Existencialismo, por sua vez, considera o homem como responsável por suas escolhas, por si mesmo, e também pelos outros homens. De acordo com as idéias dos pensadores existencialistas, cabe ao homem criar as suas possibilidades, não havendo uma atualização do que já existe; mas sim, uma possibilidade para vir-a-ser. Desse modo, a noção de possibilidade nos modos do homem se relacionar com o mundo e de agir ou reagir em relação a ele é uma das características fundamentais do existencialismo (Abbagnano, 1984).
Etimologicamente, o termo existência origina-se do latim ex(s)istentia que significa mostrar-se, exibir-se, movimento para fora (Houaiss e Villar, 2001). Daí, denominar-se existencialista toda filosofia que trata diretamente da existência humana. “O existencialismo, conseqüentemente, é a doutrina filosófica que centra sua reflexão sobre a existência humana considerada em seu aspecto particular, individual e concreto” (Penha, 1995, p. 11).
Pode-se entender o Existencialismo ainda como um movimento moderno que surgiu na França e na Alemanha há mais de quarenta anos e que procede, principalmente, das idéias de pensadores como Kierkegaard, Nietzsche, Buber e Sartre. Não se trata de uma única doutrina, visto que cada um de seus representantes possui uma idéia própria. No entanto, seus pensadores compartilham a convicção de que a realidade só pode ser encontrada na existência concreta. A clássica afirmação sartreana “a existência precede à essência” é uma expressão pertinente a essas idéias, isto é, indica que a existência tem o caráter de dinamicidade, revelando o homem como uma contínua criação.
As informações acima elencadas demonstram a presença de pontos divergentes entre o Humanismo e o Existencialismo. No entanto, a filosofia existencialista foi incorporada à psicologia humanista, tendo em vista o que é identificado como estando presente nos postulados das duas doutrinas: 1) O homem é visto como um centro de valores e está num movimento contínuo de superação de si mesmo; 2) Há uma confiança na capacidade de escolha do indivíduo e na sua responsabilidade pelas ações realizadas; 3) Crença numa direção voltada para o crescimento e para relacionar-se com o outro. Erthal (1990) afirma que “a própria separação entre as correntes, como se o existencialismo não fosse humanista, e o humanismo não se preocupasse com questões existenciais, é um contra-senso” (p.44). Nesse momento, é válido esclarecer que esta é uma questão polêmica entre diversos autores; no entanto, como o foco deste estudo não está voltado para tal discussão, optamos caminhar tendo por referência a idéia da referida autora, isto é, que as duas correntes se complementam.
Já a fenomenologia, enquanto inspiradora da ACP, constitui-se como um precedente histórico do existencialismo, pelo menos daquele mais contemporâneo. Os filósofos existencialistas questionavam o modo de ser do homem e, dado que consideravam esse modo de ser como um modo de ser no mundo, questionavam também o próprio mundo sem, por isso, pressupor o ser como já constituído. Assim, constataram a necessidade de um método de reflexão e análise sobre a existência que lhe fosse apropriado, buscando-o em Edmund Husserl (1907-1958), filósofo que desenvolveu uma fenomenologia enquanto método e como atitude perante o ato de conhecer. Ou seja, a forma como os existencialistas pensam e concebem o ser humano trouxe a necessidade de um novo método de investigação para descrever o homem no mundo. É nesse contexto que o Existencialismo buscou na fenomenologia um respaldo para suas reflexões. Nessa perspectiva, surge a psicologia fenomenológico-existencial,
combinando aspectos do humanismo com o existencialismo - reconhecendo a importância de ambos – influenciando vertentes teóricas no campo da psicoterapia como, por exemplo, a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP).
A Abordagem Centrada na Pessoa foi criada pelo psicólogo americano Carl R. Rogers. Tem como preocupação central a pessoa e caracteriza-se pela crença no ser humano como possuidor de potenciais positivos e com condições para desenvolvê-los em sentido pleno. Rogers considera a natureza humana fundamentalmente digna de confiança, assim como valoriza o papel dos sentimentos e da experiência como fator de crescimento (Dutra, 2000; Moreira, 2001).
A ACP foi evoluindo na ampla corrente do interesse pelas técnicas psicoterapêuticas e pelo seu desenvolvimento. Conforme declara Rogers (1951), talvez seria um erro considerá-la apenas como o resultado do seu tempo e do seu contexto cultural. Em um nível mais profundo, ela constituiu-se a partir de observações minuciosas e de um contato íntimo com o comportamento humano numa relação (terapeuta-paciente). Tais observações julgam-se transcenderem em certa medida as influências de uma dada cultura, considerando-se a ACP mais do que um método de consulta psicológica, ou seja, uma perspectiva das relações humanas.
A ACP tem seus aportes teóricos baseados na Terapia Centrada no Paciente, principalmente na teoria de personalidade de Rogers, a qual se destaca pela íntima conexão com a sua experiência clínica. Dessa forma, a mesma está fundamentada na empiria, sendo Rogers considerado por diversos autores como um observador paciente da realidade. Muitas de suas hipóteses surgiram da escuta de gravações das entrevistas que realizava com seus clientes e nisto é fiel à sua tradição científica baseada na observação naturalista. Organizou uma teoria da personalidade como fruto dessa atitude científica, sendo eminentemente prática e dinâmica por sua preocupação com o processo
de transformação da personalidade, e não, com seus aspectos estruturais e fixos (Rogers, 1961/1997). Ao nosso modo de ver, um aspecto de fundamental importância na teoria de Rogers é a ênfase dada à dimensão processual do ser humano, o que expressa, conforme Dutra (2000), uma forma de ver a subjetividade ancorada na compreensão da “(...) existência humana como um processo que se pauta nas possibilidades de um poder-ser que se constrói a cada momento da experiência” (p. 32).
É válido elucidar também que a teoria da personalidade rogeriana está longe de ser tomada como algo indiscutível por ser inacabada e incompleta, estando aberta a novas contribuições, como iremos constatar nas próximas linhas.