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Wave Propulsion Modelling

Em face do objetivo geral de nossa pesquisa, analisar as práticas de leitura de estudantes de Letras e suas variações, tornou-se necessário que investigássemos a conjuntura social em que os pesquisados estavam inseridos. Para tal, partimos da seguinte indagação: qual é o perfil social, cultural e econômico dos estudantes de Letras da UFMG?

No intuito de investigar e melhor compreender sociologicamente essa questão, valemo- nos de alguns estudos que, embora não tratem diretamente do tema de nossa pesquisa, fornecem elementos que auxiliam no delineamento do perfil desses estudantes. Schwartzman (1989:100), por exemplo, ao estudar a seletividade sócio-econômica do vestibular e suas implicações para a política universitária pública brasileira, destaca como ponto consensual entre os estudiosos que abordam essa temática que “os cursos da universidade que formam professores para o ensino de segundo grau são exatamente aqueles que recebem os alunos em piores condições de se aproveitarem dos ensinamentos proporcionados pela universidade”.

Esse autor (1989:103) considera, além da relação candidato/vaga como um indicador do prestígio social do curso, variáveis como a renda familiar e proporção de alunos que trabalham. Ele agrupa os cursos da UFMG (isso em 1988) em três grandes categorias, a saber: (i) cursos que possuem grandes concentrações de mulheres, baixas rendas familiares, elevada proporção de alunos que trabalham e de alunos em turnos noturnos, baixa relação candidato/vaga e desempenho abaixo da média; (ii) cursos nos quais há predominância de homens, de família com elevada renda e que não trabalham, altas notas na primeira etapa do vestibular, cursos majoritariamente diurnos e onde se concentram as mais disputadas vagas do vestibular; (iii) cursos que se situam entre os dois extremos nos quais não se pode encontrar o mesmo grau de homogeneidade em relação às variáveis analisadas. O curso de Letras aparece listado no primeiro grupo, o dos cursos de “baixo prestígio social”, à época da pesquisa, composto por 74% de pessoas do sexo feminino e 55,1% de alunos trabalhadores.

Nessa mesma direção, podemos citar o estudo de Braga et al. (2001) acerca das tendências da demanda pelo ensino superior na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) na década de 90. Nesse estudo, os autores (2001:129), baseando-se em dados do perfil socioeconômico dos candidatos, nos fatores que influenciaram a demanda e as

preferências por áreas e cursos, no papel da oferta dos cursos noturnos sobre a demanda e nas diferenças existentes entre os cursos que oferecem, ou não, a habilitação licenciatura, constataram que o aumento exponencial da demanda pelos cursos da UFMG se deu de forma mais acentuada a partir de 1995.

De acordo com esses autores, esse crescimento, centrado em candidatos da escola pública e pertencentes a famílias de baixo poder aquisitivo, ocorreu de forma mais destacada nos “cursos de mais baixo prestígio social da área biológica e em todos os de licenciatura”, sendo a maioria dos concorrentes a uma vaga nos cursos de licenciaturas composta por jovens pertencentes a camadas sociais mais baixas. Considerando a relevância do aumento do número de concluintes do Ensino Médio na rede pública, muitas vezes em cursos noturnos, os autores apontam uma diferença acentuada no crescimento da procura entre cursos diurnos e noturnos. Enquanto a taxa de procura pelos primeiros cresceu 95%, a procura pelos cursos noturnos aumentou 177%. A comparação entre a concorrência nos cursos oferecidos em ambos os turnos apresenta diferenças expressivas do perfil socioeconômico dos candidatos, sendo que a concorrência para os cursos oferecidos no turno da noite apresenta perfil socioeconômico de estratos menos favorecidos das classes sociais (2001: 147). Em estudo mais recente sobre o sistema de ensino superior de diversas regiões do país, Brito (2007) reforça a ideia de que os cursos de licenciaturas são demandados por estudantes menos favorecidos econômica e socialmente.

Apesar de não abordarem especificamente o curso de Letras, de possuírem objetivos diferentes de pesquisa e de focalizarem aspectos diferentes do perfil dos estudantes universitários, em períodos distintos do sistema de ensino universitário brasileiro, esses estudos constituem exemplos de pesquisas que constatam uma forte correlação entre cursos de baixo prestígio social e estudantes oriundos de estratos sociais inferiores, podendo, portanto, nos auxiliar na reflexão acerca da relevância de algumas categorias na definição do perfil atual dos estudantes da licenciatura em Letras. Zago (2006:229) atribui essa predominância de estudantes de classes menos favorecidas nos cursos de baixo prestígio social à “forte desigualdade de acesso ao ensino superior e à seletividade fundada na hierarquia dos cursos universitários”.

Os dados de nossa pesquisa confirmam parcialmente os estudos supracitados. Apesar de também indicarem uma predominância do grupo feminino (77,0%) e de alunos trabalhadores (75,7%), nossa amostra apresenta certo equilíbrio em relação aos percentuais de alunos segundo o capital cultural de suas famílias, conforme demonstrado mais adiante, na tabela 2.

Diferentemente dos estudos mencionados, que abordam de maneira geral os perfis dos estudantes dos cursos de licenciatura, relacionando-os aos perfis de universitários de cursos mais prestigiados, nossa abordagem se restringe ao estudo dos graduandos em Letras. Essa restrição nos coloca diante de um leitor situado no contexto específico de uma formação especializada. No intuito de aprofundarmos o conhecimento das relações entre as práticas de leitura literária desses “leitores especiais” e sua relação com a leitura visada no curso de Letras, analisamos essas práticas tendo em vista as características sociais dos graduandos de nossa amostra.

Assim, neste capítulo, apresentamos os resultados, seguindo a lógica da articulação entre os dados e da relevância dos reagrupamentos passíveis de auxiliar na descrição do grupo pesquisado, no conhecimento de suas práticas de leitura e de suas relações com a leitura literária. Por esse motivo, o ordenamento das questões pode coincidir ou não com a ordem em que aparecem no questionário (ANEXO 1).

3.2 APRESENTAÇÃO GERAL E ANÁLISE DE ALGUNS RESULTADOS DO