Toda a atividade econômica na região norte do Brasil estabelecida a partir do sec. XVII dependia fundamentalmente da efetiva ocupação das terras e da utilização da mão-de-obra indígena, ambas alcançadas tanto pelo estabelecimento das primeiras colônias permanentes ao redor das missões religiosas e dos fortes, quanto pelas excursões de apresamento de índios. A intensa utilização da mão-de-obra indígena, apesar de mais econômica pelos seus baixos custos em relação à importação de negros, resultou em rápida depopulação, devido às altas taxas de mortalidade e um constante desequilíbrio entre as necessidades de novos braços e a capacidade em manter um ritmo de apresamento continuado.
Oliveira Filho (1977) chama a atenção para o fato de que a análise da ocupação da Amazônia no sec. XVII até meados do sec. XVIII deve ser realizada levando em conta a sua inclusão em uma unidade político-administrativa mais abrangente que era composta pela capitania do Maranhão e Grão-Pará. A necessidade do controle da mão-de-obra indígena envolvia em um intenso debate os colonos, religiosos e agentes do Estado em torno das leis reguladoras do tipo de escravidão permitida, composição e regularidade das tropas de resgate, administração dos
índios escravizados, etc. A coroa portuguesa oscilava entre acusações mútuas de colonos e jesuítas, acerca das intenções explícitas ou não de cada um, em relação aos índios. Os religiosos imputavam aos colonos a rápida depopulação indígena, causada pela escravização e maus tratos, e estes, por outro lado, acusavam os jesuítas de usarem os indígenas em seus próprios negócios.
Apesar dos conflitos, a ação de "pacificação" (que na verdade significava a liberação de terras e obtenção de braços para o projeto colonial) tornou-se cada vez mais necessária. Várias Ordens e Congregações religiosas deslocando-se a partir da foz do Amazonas estabeleceram aldeamentos até o rio Solimões, onde contiveram o avanço dos Espanhóis e alargaram os limites colocados pelo Tratado de Tordesilhas.
Os aldeamentos se constituíram a partir de "descimentos" realizados pela persuasão, quando os índios eram retirados "voluntariamente" de suas terras, ou através da imposição da força e medo. Alguns aldeamentos eram organizados nas próprias aldeias indígenas, onde eram reunidas populações de tradições culturais diversas. Grande número de indígenas morriam ao chegar nos aldeamentos, vítimas do contato com doenças contra as quais não tinham imunidade.
Acompanhando a ambiguidade da legislação em relação ao apresamento de índios do sec. XVI, que ora reconhecia o direito de liberdade aos índios, ora admitia a sua escravização por “guerras justas”, a partir de 1626 foram regulamentadas as Tropas de Resgate que deveriam ser subvencionadas pela coroa, protegidas pelas forças públicas e acompanhadas por membros de ordens religiosas, com o sentido de “resgatar” prisioneiros dos rituais de antropofagia mas que, na prática, apresavam indiscriminadamente todos os índios encontrados.
As denúncias sobre o não cumprimento dos critérios de apresamento, resultaram em uma nova legislação que mandou libertar os índios ilegalmente presos, e transferiu para a Companhia de Jesus a administração geral dos índios. Em seguida, através da interferência de seus representantes, os colonos conseguiram paulatinamente voltar a
intervir nas questões indígenas. Os jesuítas perderam poder e, ao final do sec. XVII, a administração temporal dos índios apresados estava apenas a cargo dos colonos. Neste quadro, os jesuítas passaram a trabalhar em função da fixação dos índios no interior, ao redor de missões religiosas (Varnhagen, 1962).
A expansão das missões religiosas, e os relatos das expedições ao Alto Solimões, difundiram notícias sobre as possibilidades de exploração econômica das “drogas do sertão”, que passaram a ser, junto ainda com o apresamento de índios, preocupação das Tropas de Resgate.
Todo o movimento de entrada dos portugueses desde o Atlântico, rio acima, teve como resposta o empreendimento dos jesuítas espanhóis na catequese dos índios da região, que já haviam iniciado através dos índios Omágua, em 1645, logo em seguida (1650) atingidos pela primeira epidemia de varíola que lhes causou grandes perdas (Nimuendaju, 1952). Em oito anos de contato a maior parte desse índios já estava reunida em povoações que iam desde a foz do rio Napo, até as próximidades da foz do Rio Negro, abrangendo terras brasileiras e terras hoje pertencentes a Colômbia, mas que naquela época haviam sido incorporadas como território português.
Segundo Nimuendajú (op.cit), o Alto Solimões se transformou em um campo de batalhas entre portugueses e espanhóis, sendo que os primeiros estabeleceram suas missões a partir do baixo Solimões até Tefé, e os espanhóis estenderam a caça aos escravos índios pela parte alta do rio. A partir da primeira década do sec. XVIII, várias batalhas ocorreram neste cenário, em torno do controle da mão-de-obra indígena e dos marcos de limites das posses de Portugal e Espanha.
Apesar de já terem sido catequisados desde 1683, os Ticuna foram protegidos, num primeiro momento, pela sua localização no alto dos igarapés, no interior das florestas. Como resultado mais imediato das disputas territoriais, os Omágua praticamente desaparecem das ilhas do Solimões, permitindo o acesso dos Ticuna a sua margem esquerda. Os Omágua ocupavam as ilhas e a margem esquerda do Solimões e eram originalmente superiores em número, território ocupado, habilidades militares e tecnologia, desconhecendo os Ticuna, inclusive, o fabrico e
manejo de canoas. O enfraquecimento crescente dos Mayoruna, também seus inimigos, que controlavam a margem direita do rio, facilitou a expansão dos Ticuna ao longo da beira e das ilhas do Solimões.
Paralelo a esse movimento, os índios Cocama da região do baixo rio Ucayali, se estabeleceram entre os Ticuna, em aldeias independentes, no rio Solimões.
Oliveira Filho (1977) ressalta o aspecto econômico das missões religiosas e o controle que exerciam sobre os agentes sociais presentes na região, na medida em que atuavam como importantes empresas comerciais, reunindo os índios em aldeias, introduzindo técnicas de trabalho, disciplinando e controlando a distribuição da mão- de-obra entre os colonos e o contato dos índios com os regatões e, mais ainda, viabilizando, através da atividade econômica regular, a exploração das drogas do sertão com fins de exportação.
Alguns textos reforçam a idéia da missão tanto como “centro por excelência de destribalização e de homogeneização deculturativa” dos índios reunidos em aldeamentos de catequese, quanto das missões jesuíticas do sec. XVIII como exemplo da linha pragmática implementada pelos economistas da Companhia de Jesus, que após a morte do Padre Antônio Vieira (com uma vocação “utópico- missionária”), reforçaram o caráter “empresarial” das missões jesuíticas. Na primeira metade do sec. XVIII a ação dos jesuítas se irradiou pela Amazônia, em áreas puramente indígenas e sem a interferência de agentes oficiais e de colonos, ampliando as fronteiras de Portugal na Amazônia, na direção das cabeceiras do Rio Madeira, Negro e Solimões (Moreira Neto, 1988).
A violência que perpassou os primeiros contatos, os descimentos e a organização das missões pôde ser detectada nos diversos modos como atingiu às populações indígenas. O desaparecimento de um número considerável de povos indígenas, em uma região aparentemente pouco transformada pelo contato interétnico, assume mesmo a feição de um processo de extermínio:
“Das aldeias, que as margens do Amazonas ofereciam à vista do seu primeiro descobridor, talvez nem uma só povoação moderna lhes marque o lugar. As cento e cincoenta tribus, que então existiam nessas paragens, desapareceram todas. (...) A raça experimentou, é certo, a transformação devida aos cruzamentos, mas o extermínio foi a razão principal que a sumiu” (Azevedo, 1930:380).
Por um lado, o próprio sucesso da “empresa” missionária estava calcado em cima do modo de exploração da mão-de-obra indígena, sua principal fonte de força de trabalho. A violência do trabalho, e a tirania do domínio era praticada tanto pelo religioso na missão, quanto pelo lavrador, na fazenda (Azevedo, op.cit.). De outro lado, o encontro com uma outra forma de violência: as populações indígenas enfraquecidas pelas suas relações com a sociedade colonial se defrontaram, a partir da terceira década do sec. XVIII, com uma devastadora epidemia de sarampo que, partindo da cidade de Belém, alastrou-se para toda a área amazônica. Um documento de 1749, citado por Moreira Neto, informava a devastação causada pelas novas enfermidades introduzidas na Amazônia por missionários e colonos:
“Não havia nos conventos sepulturas para os mortos; serviam os campos de campa aos cadáveres. Dous meses durou êsse funesto perigoso achaque, mas passados êstes, degenerou em febres malígnas, estupores e papeiras ...Enfim, não houve Tapuya, ou quem dêle tivesse sangue, que não padecesse a fôrça dêste contágio. Serviu de privilégio aos filhos do Reyno... Ainda muita gente se ausentou para as suas rossas, às quaes também chegou parte do contágio. (...) Achava-se mais diminuída a malignidade, porque já não há Tapuyas, em que o mal empregue os seus golpes ... Desejosos todos de saberem o número de mortos, principiaram a extrair memórias dos Reverendos Parôcos ... Tudo isto, com maior certeza, excede o número de quinze mil mortos (na região de Belém e áreas próximas como Vigia, Cametá, Guamá, Moju, Capim, etc.); sem fazer lembrança dos Sertões, que como vivem
incognitos pela impenetrabilidade dos matos parece impossível fazer-se específica memória” (Leonardo, M.F., 1749 - Noticia verdadeyra do terrivel contagio. Lisboa, P. Ferreira. Apud Moreira Neto, 1988:23, 24).