Nesta subseção buscamos compreender como o contato com a LH, especialmente se limitado, influencia no processo de aprendizagem e se as ações dos pais podem implicar as ações dos filhos. Mendes (2012) afirma que para o processo ensino- aprendizagem de uma LH ocorrer satisfatoriamente é importante que o aprendiz possa deslizar entre as duas culturas, ou seja, envolver-se com a cultura majoritária, do país que o acolhe, quanto com a cultura original de seus pais imigrantes. Os pais, por sua vez, transmitem a língua e os valores culturais para seus filhos brasileiros nascidos no exterior (cf. LICO, 2011). Moroni e Gomes (2015) são enfáticas ao sugerirem os fatores que influenciam na aquisição da LH, tais como o uso da língua na família, a presença de uma comunidade de fala brasileira ou de um curso formal, como é o caso da participação dos filhos no projeto CONSTRUIR/ Artel e de como tais fatores podem favorecer ou não o desenvolvimento da LH.
Além da interação dos filhos entre pais e comunidade de fala brasileira, as autoras nos esclarecem que é necessário oferecer um alto grau de insumo. Flores e Pfeifer (2014) encontram o fator da televisão local (do país de origem) como fator de ligação e manutenção da LH como insumo. Os dados do PF1 revelam que ele mantém contato com a língua-cultura brasileira, indiretamente, assistindo aos canais brasileiros de televisão
(no Japão as transmissões de redes brasileiras são disponibilizadas via satélite), canais brasileiros no Youtube e, diretamente, em casa, com seus pais. Kigamwa (2014) indica que o uso de recursos midiáticos disponíveis na internet pode auxiliar o falante de língua de herança (doravante FLH) a desenvolver e revigorar a LH por meio de músicas, estórias, danças e outras ferramentas disponíveis na internet, conforme trecho a seguir:
Há certamente outras estratégias que poderiam ser adicionadas para criar um novo estímulo no aprendizado da LH em casa. A decisão de fortalecer o uso da LH em casa deveria ser fundamentada por meio da percepção de que, se os falantes de línguas minoritárias falham em fortalecer tal uso em casa, então não haverá fundamento basilar para tentar preservar a língua em outros domínios. Isso tudo deve começar em casa!. (2014, p.179, tradução nossa33).
Em consonância com tal perspectiva, os dados do PF2 nos indicam que a família parece desfrutar de condições favoráveis ao desenvolvimento da LH: pais e filhos motivados, insumo diversificado (familiares, canais de televisão, internet) da LH e, principalmente, objetivos definidos quanto ao aprendizado da língua: os pais retornarão ao Brasil e, portanto, os filhos necessitam da língua portuguesa para tal. O PF1 apresenta a seguinte fala quanto à sua motivação de estudar português:
[21] Sim, porque tenho vontade de morar no Brasil. (Q, pergunta X, PF1)
Já a PM2, conforme subseção que trata das crenças e ações dessas participantes, nos revela que motiva suas filhas a falarem português somente por meio de diálogos com a mãe, expondo-as a insumos restritos da LH. É possível constatar que esse vínculo restrito de comunicação influencie diretamente na exposição dos PF com o PLH, especialmente no caso da PM2, pois é a única falante de português de sua família e os outros momentos de contato com a LH ocorrem no projeto CONSTRUIR/Artel.
A PM2, ao ser perguntada sobre como ela mantém o contato com a língua-cultura brasileira, nos relata o seguinte:
33 Trecho original: There are certainly other strategies that could be added to create new excitement about
HL learning in the home. The resolve to strengthen the use of HLs in homes should be founded upon the realization that, if speakers of minority languages fail to fortify such use at home, then there will be no basis for trying to preserve the languages in other domains. It must all start at home! (KIGAMWA, 2014, p. 179)
[22] Conversando com minhas filhas e na escolinha que elas frequentam. (Q, pergunta X, 24/07/2015, PM2).
De acordo com a resposta da participante, inferimos que o diálogo com as filhas e a participação junto ao projeto de LH não representa um insumo significativo da língua em questão. Além da baixa quantidade de insumo, especificamente na quantidade de horas dedicada à LH, a participante corrobora a inferência de que o contexto não é propício ao desenvolvimento da LH ao esclarecer o contexto familiar:
Pesquisadora:Você matriculou seus filhos em escola brasileira ou japonesa? e por quê?
[23] PM2: é que o meu marido, ele é japonês. Então se eu fosse por numa de português, brasileira, ele não iria aceitar. Entendeu? e assim (+), todos os colega dela, os parentes do meu marido são todos japoneses (+) então eu tive que por na japonesa (ES, 24/07/2015, PM2).
A compreensão do contexto vivenciado pelos participantes, verbal e não verbal, pode nos ajudar a (re)interpretar o lugar de ação do ensino-aprendizagem da língua em questão, ainda que seja uma microrrepresentação da experiência da PM2 e suas filhas, Woods (1996) nos diz que “precisamos saber mais sobre a natureza dos objetivos, submetas e os meios, e sua relação com os processos dinâmicos, interativos e negociados de tomadas de decisão no ensino” (1996, p. 22, tradução nossa34) que, neste caso, é o
desenvolvimento da LH em meio familiar e por meio do projeto de LH e o objetivo informado pelos participantes é alcançar a proficiência necessária para comunicação com familiares e também dar continuidade aos estudos no Brasil. Contudo, o objetivo da PM2 não parece estar bem definido, pois a LH representa apenas uma ferramenta de diálogo com familiares no Brasil, embora não tenha declarado a ocorrência da frequência disto.
Apesar das limitações supracitadas, é possível inferir a partir dos dados, que a PM2 não disponibiliza de ambiente em potencial para o desenvolvimento do PLH, pois a língua majoritária ainda é preponderante em casa e na escola e, não havendo relevância de conteúdos e exercícios diversos para a prática da língua, tornar-se-á uma tarefa desafiadora alcançar a proficiência desejada na LH.
34 Trecho original: We need to know more about the nature of goals, subgoals and means, and their
relationship to the dynamic, interactive, negotiated processes of decision-making in teaching (WOODS, 1996, p. 22).
4.2.3 A manutenção do PLH: os meios de promoção e ambientação do PLH