O período histórico relativo ao debate, final da década de 1920 até inícios da década de 1960 é demasiado longo e complexo para que possamos ousar uma síntese nas páginas que se seguem. No entanto, algumas chaves de leitura podem ser propostas visando não esgotar o assunto, mas compreender e tomar consciência de alguns de seus principais momentos. Nosso olhar será voltado para a compreensão do progresso da ciência psicológica no decorrer desse período.
Quatro grandes movimentos atravessam a psicologia do início do século XX, modelando, através de seus pressupostos, as principais correntes psicológicas daquela época: o evolucionismo de Charles Darwin (1809-1882), o funcionalismo de William James (1842-1910), o estruturalismo dos Gestaltistas e a Psicanálise freudiana. O primeiro deles dando origem mais especificamente à psicologia comportamental, o segundo fundamentando as teorias psicogenéticas americanas e européias e o último, as sínteses estruturalistas do início e metade do século em questão.
Charles R. Darwin é considerado, por muitos, como o pai da psicologia da criança (Maury, 1998; Carroy, Ohayon, Plas, 2006). Isto porque, juntamente com Taine (1823 – 1898) foi um dos primeiros a efetuar observação de crianças e de propor algumas hipóteses de interpretação sobre seus comportamentos13. A influência de Darwin irá se
estender à filosofia e à História Natural, na medida em que deslocará o entendimento do homem dos pressupostos filosóficos (o Homem é um ser racional) e teológicos (o Homem é criação divina), pressupostos estes que fundavam a compreensão do Homem até final do século XIX. A virada darwiniana se dará, portanto, pela proclamação de que o homem faz parte do reino animal, sendo dele não mais do que um caso específico (postulado da ascendência comum) bem como pela
definição da contingência como único motor da evolução que deveria conduzir a psicologia sob a via da radicalização da tese empirista e orientá-la em direção ao behaviorismo. Certamente, se vê em Darwin o fundador da psicologia comparada ou mesmo ainda da psicologia da criança, mas é sobretudo a psicologia do comportamento, o behaviorismo, que se alimentou do darwinismo transpondo o mecanismo darwiniano da
13 Trata-se de dois artigos publicados no mesmo ano e onde os autores trazem suas observações sobre o
desenvolvimento infantil. Taine, H. (1876)s Note s sur s l'acquisition s du s langage s chez s les s enfants s et s dans s l'espèce s
humaine. Revue Philosophique de la France et de l’Étranger, 1, 5-23. Darwin, Ch. (1876) Asbiographicalssketchsof s ansinfant. Mind, 2, 285-294.
evolução das espécies ao nível da evolução dos comportamentos no individuo: o ambiente seleciona os comportamentos como ele seleciona os fenótipos.” (Mengal, 1988: 488 – tradução nossa)
Desse modo, podemos observar uma filiação direta entre os ideais científicos do evolucionismo darwiniano com a chamada Psicologia Comportamental ou Behaviorismo. Embora essa última não possa ser considerada propriamente uma psicologia evolucionista – preocupada com a evolução filogenética ou ontogenética da psicologia humana -,ao ter como um de seus focos de atenção o relacionamento do sujeito psicológico com as contingências externas que, por sua vez, serão entendidas como única fonte de explicação do comportamento, acabam se aproximando dos pressupostos darwinianos, especialmente da compreensão de que é o ambiente quem seleciona o organismo.
Já quanto ao movimento funcionalista, este não pode, por certo, ser entendido em separado do evolucionismo darwiniano. Alguns dos pressupostos desta última – preocupação na adaptação do sujeito ao contexto, cientificidade e objetividade nas descrições comportamentais - foram incorporados por essa perspectiva teórica que se caracterizou, principalmente, por ser uma crítica à psicologia do final do século XIX, de foco mais mecanicista e atomista. Na teoria funcionalista a idéia é que as funções mentais sejam tratadas como totalidades em ação, buscando-se explicá-las em termos de suas finalidades no processo de adaptação (Schultz e Schultz, 1992). Além disso, outra característica desta perspectiva é o interesse por descrever e entender os fenômenos psicológicos dentro de seus respectivos contextos - uma crítica aos estudos experimentais efetuados com animais ou humanos em situação de laboratório.
Segundo Claparède (1940), a teoria funcionalista aplicada à psicologia nada mais é que “(...) por um lado, a aplicação do ponto de vista biológico e, por outro, do ponto de vista pragmatista, segundo o qual, antes de mais nada, é a ação que importa: não vivemos para pensar, pensamos para viver" (Claparède, 1940, p. 23).
A terceira das correntes que destacamos como influente no início e meados do século XX é o estruturalismo alemão. A teoria da Gestalt (Wertheimer, 1880 - 1943; Koffka, 1886 - 1941, e Köhler, 1887 - 1967), eminente representante desta corrente, surge com o propósito de substituir-se ao associacionismo em psicologia. A tese central é de que os fenômenos da percepção não podiam ser entendidos como o resultado da associação de seus elementos constitutivos mas como pertencentes a um conjunto que lhes dá significado. Dessa forma a proposição de que “o todo é maior do que as partes”
acaba por tornar-se o lema desta escola psicológica que irá estender-se por toda a Europa e que possuirá, igualmente, uma importante história de divulgação e produção nos Estados Unidos da América, especialmente por ter este país acolhido grande parte dos pesquisadores gestaltistas fugitivos da Alemanha na Segunda Grande Guerra (Ash, 1998).
Os gestaltistas foram responsáveis por uma série de estudos que acabaram por incidir sobre a psicologia da aprendizagem: os estudos com primatas. Tais estudos além de evocar uma “mentalidade do animal”, tiveram igualmente contribuição em contrapor a aprendizagem por associação - onde um estímulo era associado a uma resposta - à aprendizagem por “insight”, em que toda a estrutura perceptiva do sujeito sobre um problema sofre uma alteração para que se possa “ver dentro” e, então, intuir uma resposta adequada (Köhler, 1978)14. A psicologia da Gestalt obteve grande acolhida por
parte de alguns ilustres psicólogos franceses, como Paul Guillaume (1878-1962) e Ignace Mayerson (1888-1983), que também efetivaram trabalhos sobre o aprendizado por “insight” com animais (Wayne, 2005).
Um quarto movimento psicológico que poderíamos citar como também influente no início do século XX foi a psicanálise de Freud (1856–1939). Embora possamos encontrar nela traços tanto do evolucionismo quanto do funcionalismo, a psicanálise se destacou pelo desfocar o centro de atenção da psicologia – desde os seus princípios no fenômeno da consciência – para o inconsciente. Além disso, buscando aproximar-se do modelo explicativo da física, a psicanálise faz um esforço rumo a uma maior cientificização do saber psicológico (Dantas, 1983). Enquanto teoria que buscava compreender as doenças mentais e postular uma técnica de cura psicológica, a psicanálise encontrou influência crescente no meio cultural e psiquiátrico, podendo-se observar o nascimento de inúmeras instituições e sociedades psicanalíticas por todo o mundo, especialmente na primeira metade do século XX (Cahoy, Ohayon e Plas, 2006; Carrara e Russo, 2002).
Além destes movimentos teóricos específicos à Psicologia, devemos notar que o período aqui em foco é caracterizado por um grande intercâmbio entre as várias áreas das Ciências Humanas. Basta lembrar que alguns dos primeiros presidentes da Sociedade Francesa de Psicologia foram o sociólogo Marcel Mauss (1872-1950) sobrinho e herdeiro de Émile Durkheim, que é nomeado presidente em 1924. Antes, o biólogo Étienne Rabaud e, após ele, o lingüista Antoine Meillet (1866-1936). É preciso ver aí uma
14 Estudos historiográficos mais recentes, no entanto, questionam alguns dos resultados obtidos por Köehler, afirmando,
por exemplo, que alguns de seus estudos foram feitos sobre bases empíricas pouco sólidas, apelando para as observações do tratador dos animais e não sobre seus próprios experimentos (Goodwin, 2005).
abertura entre as ciências humanas (Cahoy, Ohayon e Plas, 2006).
Tais trocas e tais colaborações entre disciplinas terão sua tradução editorial própria, para além das revistas disciplinares, em particular na Revue de Synthèse e na coleção “L'Évolutin de l'humanité” - uma e outra criadas por Henri Berr15 -, e sobretudo na
gigantesca aventura coletiva que constituirá a publicação, a partir de 1935, da Enciclopédia Francesa. (Bautier e Rochex, 1999: 15 – tradução nossa)
Piaget e Wallon, ao adentrarem no cenário das ciências humanas e, de modo mais específico, da Psicologia científica do início do século XX, se depararam com as correntes psicológicas acima descritas. Este cenário será entendido por alguns (Vygotski, 1927/1997) como expressando uma crise na Psicologia da época, dividida com relação a seu objeto (consciência, inconsciente, comportamentos, sensações etc.), e a seu método (análises fisiológicas, introspecção, experimentos, observação etc.). Mas será entendido por outros (Heidbreder, 1969; Shultz e Shultz, 1992), como o período do estabelecimento das grandes teorias, onde as forças de aglutinação eram, portanto, maiores do que as de dispersão, o que explicaria, de certa forma, a expansão e proliferação dos vários centros de estudo da Psicologia, laboratórios, congressos (por exemplo o Congresso Internacional da Infância, ocorrido em Paris, 1931; o Congresso Internacional de Psicologia, Paris, 1938) e a crescente autonomização da disciplina e da profissão psicológicas no decorrer do século XX (Cf. Anexo 2, para uma pequena cronologia da Psicologia européia e dos principais fatos históricos nas primeiras décadas do século XX).
Não deixa de ser curioso, de qualquer forma, perceber que no que concerne aos temas e objetos de estudo da Psicologia da época, se tomarmos por índice a publicação do Nouveau Traité de Psychologie, editado por Dumas (1866 – 1946) em 8 volumes, publicados de 1930 a 1949, perceberemos uma grande variedade de temas e, não menos variável número de metodologias investigativas. Um olhar para a totalidade destes volumes e os assuntos ali tratados faz notar que “(...) eles não apresentam qualquer unidade, seja teórica ou metodologicamente, e o desacordo entre os autores é mais numeroso do que seus pontos de convergência” (Carroy, Ohayon e Plas, 2006: 137 – tradução nossa). Não obstante, a Psicologia só fez crescer e se organizar no decorrer do século XX, chegando, em certos momentos (pós Primeira Grande Guerra), a ser tomada como aquela capaz de congregar os esforços das demais ciências humanas na busca de uma ciência que desse conta do Homem Total, entendido como o ser humano em todas
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Henri Berr (1863-1954) foi um filósofo e historiador francês, considerado um dos fundadores na Nova História, foi editor de diversas revistas de renome para a historiografia francesa como Revue de Synthèse.
as suas dimensões: culturais, econômicas, sociais, históricas, biológicas e psicológicas (Parot, 2000).