7. INTRODUCTION
7.11 PROPHYLAXIS AND TREATMENT OF ACUTE GVHD
Durante o mês de maio de 2016 foram realizadas sete entrevistas a académicos e especialistas no âmbito do problema de erosão costeira. Cinco entrevistas foram realizadas presencialmente, uma foi realizada on-line e outra efetuada por escrito, um dos entrevistados preferiu enviar as respostas por escrito via internet.
Quivy e Campenhoudt (2005) consideram existir três categorias de pessoas com as quais se torna proveitoso realizar uma entrevista exploratória: 1) académicos e especialistas, que podem aperfeiçoar o nosso conhecimento, expondo, por exemplo, os procedimentos e resultados dos seus trabalhos e os problemas que enfrentaram; 2) testemunhas privilegiadas, pessoas que pela sua posição, ação ou responsabilidade têm bom conhecimento do problema, pertencendo, ou não, ao público sobre o qual incide o estudo; 3) público-alvo do estudo. A categoria de pessoas entrevistadas no presente estudo enquadra-se na primeira categoria: académicos e especialistas.
As entrevistas foram planeadas e obedeceram a um guião, que funcionou como orientação e que contempla a seguinte estrutura:
1) Forma como a atividade do entrevistado se relaciona com a problemática e com a zona em estudo.
104 2) Conhecimento e opinião sobre os principais fatores responsáveis pela erosão costeira na zona da Praia da Amorosa e caracterização desses fatores (fatores naturais ou causados pelo Homem).
3) Conhecimento e opinião acerca dos principais recursos da zona da Praia da Amorosa.
4) Conhecimento e opinião sobre as principais consequências da erosão costeira na zona em estudo.
5) Conhecimento e opinião acerca de medidas adotadas e/ou a adotar para lidar com a erosão costeira na zona em estudo.
6) Conhecimento de manifestações de desagrado, por parte da população, na zona em estudo, relativamente a ações implementadas para lidar com a erosão, ou à falta de implementação dessas ações.
7) Conhecimento sobre alguma informação à população sobre eventuais riscos e medidas a implementar inerentes à erosão. Opinião relativamente à existência ou não de perceção do risco por parte da população.
8) Opinião acerca da participação da população na tomada de decisão para lidar com o problema da erosão costeira
Antes de dar início às entrevistas, os entrevistados foram informados do principal objetivo das mesmas, foi pedida autorização para proceder a gravação de áudio e garantido que a informação apenas seria utilizada na investigação e sob anonimato.
Depois de realizadas, as entrevistas foram devidamente transcritas (à exceção da 7ª entrevista, cujas respostas foram enviadas por escrito) para posterior análise da informação. O anexo A apresenta uma síntese das entrevistas.
Todos os entrevistados exercem atividades enquadradas na problemática da erosão costeira, que, direta ou indiretamente, envolvem a zona em estudo. Os entrevistados desenvolvem as suas atividades principalmente em áreas como: Gestão Ambiental e Ordenamento do Território, Gestão do Litoral e Bacias Hidrográficas, Ecologia Humana, Políticas do Ambiente, Geologia, Gestão da Informação e Sistemas de Informação Geográfica, Engenharia Civil, Hidráulica Marítima e Fluvial, Morfodinâmica Costeira, Avaliação de Riscos Ambientais Costeiros.
105 No que diz respeito aos principais fatores responsáveis pela erosão costeira na zona da Praia da Amorosa, em geral os entrevistados revelaram opinião que são fatores naturais e causados pelo Homem como exemplificam as referências:
“Temos duas componentes diferentes, uma componente que será antropogénica, atividade humana… Por outro lado essa é uma zona também, do ponto de vista de fatores naturais, bastante pressionada” (entrevistado 1).
“Há alguma influência natural que terá a ver com ciclos naturais…Provavelmente teremos acelerado muitos destes processos naturais” (entrevistado 2).
“Não podemos arranjar razões única e exclusivamente, antrópicas, embora existam nesta problemática, na verdade há outros fatores que são externos ao nosso controlo” (entrevistado 5).
“Erosão e sedimentação são processos naturais em locais que são essencialmente móveis, dinâmicos. Agora imagine que colocam atrás da praia, por exemplo na zona da duna, edifícios, uma estrada….a praia ao migrar para o interior esbarra com algo que é estático e não pode migrar” (entrevistado 6).
Tendo consciência da diversidade de fatores possíveis de causar erosão costeira na zona em estudo, com base nas opiniões dos académicos e especialistas entrevistados destacamos os seguintes:
Elevação do nível médio das águas do mar; Dinâmicas naturais das zonas costeiras; Agitação do mar sobre a costa;
Vento e tempestades;
Ocupação e uso da zona costeira (construir demasiado perto do mar, não deixando espaço para ocorrer uma mobilidade natural das praias; pressão humana muito elevada principalmente no Verão);
Défice sedimentar relacionado com: impermeabilização das margens dos rios; barragens no Rio Minho e no Rio Lima; dragagens no Porto de Viana do Castelo; atividade extrativa nos rios; construções e intervenções realizadas em zonas próximas, por exemplo no Porto de Viana;
Desflorestação
O entrevistado (4) ressaltou que a zona está localizada a sul de um estuário, o que por norma acarreta problemas:
“A zona da Praia da Amorosa é uma zona a sul de um estuário, praticamente todas as zonas a sul de estuários estão em processos erosivos…temos problemas erosivos muito mais acentuados a sul da foz do que a norte, porque as correntes da agitação marítima são de norte para sul…a sul dos obstáculos, sejam eles naturais ou artificiais é que existem problemas” (entrevistado 4).
106 Podemos sintetizar, de acordo com o entrevistado (1), que o processo erosivo na zona da Praia da Amorosa é de três ordens: a) global, devido à elevação do nível médio das águas do mar; b) regional, causado pelo défice sedimentar devido a atuações no Rio Lima e Minho; c) local, como consequência da pressão humana e das intervenções realizadas em zonas próximas, como é o caso do Porto de Viana do Castelo e do molhe sul na foz do Rio Lima, na zona do Cabedelo.
Quanto aos recursos costeiros da zona da Praia da Amorosa, os entrevistados apontaram principalmente:
Zona balnear;
Paisagem, principalmente composta por áreas dunares; Zonas rochosas com comunidades de algas e crustáceos; Recursos piscatórios;
Desportos náuticos.
Uma característica bastante evidenciada é a existência de áreas dunares, como confirmam as seguintes citações:
“O espaço também é muito importante porque é o suporte físico de uma grande área dunar, área dunar com história muito interessante desde o seculo XIX” (entrevistado 1). “…a duna principal da praia, além de ser bonita, tem um efeito muito importante na contenção do avanço, consegue tamponar a energia que é típica nos períodos de inverno e permite também gerir os sedimentos que se afastavam da linha de zona imersa” (entrevistado 5).
Onde foi construída a urbanização da Praia da Amorosa, “…havia um ecossistema dunar mais bem conservado de toda a zona costeira norte e onde o sistema praia/duna estava perfeitamente em equilíbrio na altura, tinha uma pequena população piscatória que influía minimamente” (entrevistado 6).
Sobre as consequências da erosão costeira na zona da Praia da Amorosa, os entrevistados atribuíram grande relevo a:
Impactos na zona balnear e nas dunas.
“…traz a degradação das próprias praias, perda sedimentar, mas também acaba por pôr em risco aquilo que são ocupações humanas naquele espaço territorial porque existem perdas dunares e faz com que o mar, a rebentação se vá aproximando cada vez mais desses espaços, pondo em risco as habitações, ocupações, edificações…” (entrevistado 1).
“Na Amorosa, um local que é procurado e que vive de uso balnear, a principal consequência é as pessoas não querem ir para um sítio onde não há praia arenosa” (entrevistado 3).
“ …perda de valor balnear, quando as praias começam a perder largura, as dunas começam a ficar fragilizadas” (entrevistado 4).
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“…a questão do arrasto dunar, a partir do momento em que a duna primária é afetada, rapidamente temos um avanço significativo do mar” (entrevistado 5).
Além destes impactos foram mencionados ainda: Destruição de algumas construções;
Inundações;
Impactos na atividade piscatória;
Impactos na dinâmica económica e atratividade local; Impactos na biodiversidade espontânea e selvagem; Impactos (indiretos) nas zonas a sul.
No que concerne às medidas adotadas para lidar com a erosão costeira na zona em estudo, foram referidas essencialmente:
Medidas soft de proteção dunar;
Enrocamentos para defesa do aglomerado mais antigo e das dunas.
O entrevistado (1) referiu que na década de 80 os processos erosivos eram controlados essencialmente com obras de engenharia pesada, “…eram descarregados lá camiões e camiões de pedra” para proteção da linha da costa. Mais recentemente, segundo o mesmo têm vindo a ser desenvolvidas medidas de “engenharia natural…coisas soft” principalmente para proteção dunar, como regeneradores dunares e instalações de apoio de praia amovíveis. Na mesma entrevista, foi defendido que por vezes é preferível não fazer nada, deixar o sistema reequilibrar-se. Por outro lado o entrevistado (5) considerou que é preferível ter uma praia com esporão ou geotubos, do que não ter praia. O entrevistado (3) e (5) salientaram a conservação dos cordões dunares e o impedimento do pisoteio através da construção de passadiços. De acordo com o entrevistado (4), há cerca de um ou dois anos foi construído um enrocamento, tendo apontado a possibilidade de desenvolvimento de intervenções soft a norte e a sul do enrocamento. Em termos de ordenamento e planeamento alguns entrevistados questionam a construção da urbanização da Praia da Amorosa demasiado próxima da linha da costa, negligenciando uma “zona tampão”, que facilita a dinâmica costeira. Quanto às intervenções levadas a cabo pelo Programa Polis Litoral, os entrevistados questionam determinadas ações, não só na zona em causa, mas na zona costeira em geral. No âmbito do Polis, o entrevistado (4) destacou a retirada de infestantes das dunas mas referiu a construção de passadiços muito próximos da linha de água.
108 Os académicos e especialistas, conscientes da dificuldade de encontrar uma solução para a erosão costeira, apontaram algumas sugestões de medidas possíveis de implementar na zona em estudo para gerir a erosão:
Não fazer nada, deixar o processo funcionar naturalmente;
Planear antecipadamente a retirada de algumas edificações junto à costa; Planear zonas de tampão, onde a ocupação humana possa ser diminuída; Controlar o urbanismo e as infraestruturas junto à linha da costa;
No âmbito de instrumentos de ordenamento, tornar mais flexível os planos de ordenamento;
Realizar obras de engenharia para defesa da costa;
Colocar instalações amovíveis (apoios de praia amovíveis); Proteger as dunas (passadiços, paliçadas, vegetação);
Evitar vegetação em determinados perímetros para promover o transporte de areias para o interior;
Alimentar artificialmente as praias;
Melhorar a gestão dos sedimentos na zona portuária (utilizar os sedimentos dragados nos portos para realizar a artificialização de praias);
Educar a população no sentido de perceber como funciona o fenómeno.
Adicionalmente às causas, consequências e medidas no âmbito da erosão, pretende-se obter informação sobre eventuais manifestações de desagrado, por parte da população, no que diz respeito a medidas implementadas (ou por implementar), assim como opiniões sobre a perceção do público do risco em causa e sobre a participação do mesmo na tomada de decisão subjacente à gestão da erosão costeira.
Sobre eventuais manifestações de desagrado da população relativamente a medidas levadas a cabo na zona da Praia da Amorosa para gerir o processo de erosão, os entrevistados não expressaram ter muita informação sobre o assunto. Foram mencionados conflitos de interesses sobre a reabilitação de cordões dunares e a eventualidade de deposição de areias:
“…foram feitas operações de reabilitação, do cordão dunar, na Amorosa, algumas não foram feitas no devido tempo, porque entrou-se em conflito com a propriedade privada” (entrevistado 4).
“…sei que isso também cria conflitos, se estiverem ali areias a mais, depois vão para sul para Castelo de Neiva e depois os pescadores reclamam a dizer que têm areia a mais” (idem).
109 Quando abordados sobre informação à população e perceção da mesma do fenómeno de erosão, os entrevistados destacaram a importância de educar a população para que esta entenda o fenómeno.
No que concerne às ações de informação à população desenvolvidas, foram mencionadas ações de sensibilização junto de escolas pelo Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental e a existência de cartazes informativos. No entanto o entrevistado (2) alerta para o facto de:
“…a própria comunidade técnico-científica não se entende, não tem uma visão unânime… não é fácil perante esta multiplicidade de opiniões …como é que depois se tem uma estratégia real, efetiva e assertiva de comunicação à comunidade…existe uma comunicação deficiente e altamente confusa”.
Relativamente à perceção da população sobre o fenómeno da erosão, os entrevistados são da opinião que a população tem consciência do avanço do mar, da redução da praia, mas questionam a perceção sobre o que realmente possa estar em causa, notável nas referências que se seguem:
“…mas se têm perceção que aquilo é um fenómeno que é irreversível e que vai pôr em causa mais tarde ou mais cedo habitações onde residem, atividades que desenvolvem, isso aí não sei se terão” (entrevistado 1).
“Das conversas que tenho tido, não me parece que a população tenha … uma perceção do risco, uma perceção efetiva e real quantificada daquilo que possa ser a vulnerabilidade, exposição e valor do que está em causa” (entrevistado 2).
“…não têm exatamente a noção da intensidade do fenómeno” (entrevistado 3).
“…as pessoas só têm esta perceção quando elas próprias já estão numa zona de risco eminente e que não têm qualquer esperança de que vão salvaguardar a sua propriedade” (entrevistado 6).
O entrevistado (5) julga não existir noção das causas, dos efeitos e dos custos subjacentes à erosão, considerando que a ideia dominante é a existência de erosão devido às barragens.
A importância da memória para a perceção foi destacada pelo entrevistado (4), colocando em causa a visão sazonal para uma correta perceção e referiu que:
“…há perceções muito opostas, em função da acessibilidade das pessoas, da cultura, idade, dos interesses que estão a defender”.
Por último, todos os entrevistados destacaram a necessidade e a relevância da participação da população na tomada de decisão para lidar com o problema da erosão, não só como um ato de democracia, mas também porque acrescenta conhecimento e responsabilização o que facilita a adoção e cumprimento das medidas deliberadas, como evidenciamos a seguir:
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“…um ato de exercício de democracia” (entrevistado 1).
“A melhor solução, seja ela qual for, implica obrigatoriamente a participação de todas as partes interessadas…a população muitas vezes tem conhecimento que não é fácil de ser apercebido pela parte técnica e política, acrescentam imenso…portanto contribuem e responsabilizam-se” (entrevistado 2).
“A população tem de ser ouvida. Imagine uma retirada, acho que aí tem de ser ouvida a população, mas mais que ser ouvida tem de ser informada…do ponto de vista democrático as populações de facto devem ser ouvidas” (entrevistado 3).
“…não só é relevante no processo de decisão como na apresentação de alternativas” (entrevistado 4).
“…a melhor ideia nem sempre vem da pessoa mais graduada…ouvir as pessoas que andam no mar, as associações de pescadores, todas as comunidades que lidam com o mar” (entrevistado 5).
“…cada cidadão é consumidor/utilizador do espaço ou do programa de melhoramentos a executar na costa, logo tem de ser auscultado e a sua opinião considerada no programa/projeto final” (entrevistado 7).
No entanto, os académicos e especialistas questionam a reduzida participação da população, que pode ser corrigida com motivação, consciencialização, formação sobre o fenómeno, melhor acesso à informação, indicações sobre como participar e adoção de linguagens simples.