4. Results
4.4 PROP phenotype, taste responsiveness and liking
Ao se observar a arte e, conseqüentemente, a estética e a definição de suas principais manifestações, mesmo sem levar em consideração os dias atuais nos quais a tecnologia fomenta novas possibilidades de se fazer arte, encontra-se um número razoavelmente grande de possibilidades de expressões artísticas.
Souriau (1983, p. 103) divide as belas-artes em sete campos utilizando o conceito de qualia8 artisticamente utilizáveis, a saber:
8
O conceito filosófico de qualia (plural da palavra latina quale) define as qualidades subjetivas das experiências mentais. O uso dos qualia foi recuperado por Clarence Irving Lewis em 1929 em seu escrito Mind and the World Order (http://www2.fcsh.unl.pt/docentes/hbarbas/Textos/Qualia_Proust_
• Linhas: arabescos e desenho; • Volumes: arquitetura e escultura; • Cores: pintura e pintura representativa;
• Luminosidades: iluminação, projeções luminosas, cinema, aquarela e fotografia;
• Movimentos: dança e pantomima;
• Sons articulados: prosódia pura, literatura e poesia e • Sons musicais: música, música dramática ou descritiva.
Some-se a esta divisão outras manifestações próprias da contemporaneidade e que não se encaixam diretamente em apenas um dos campos apresentados acima como: teatro, histórias em quadrinhos e cartoons, a arte digital, multimídia, net.art9
etc. O próprio Souriau deixa claro que a divisão proposta por ele é histórica e empírica, podendo ser enriquecida com novas divisões, evidentemente sem quebrar o que já está posto.
Este tipo de classificação, longe de querer definir uma hierarquia, serve mais para a compreensão da materialidade da arte, daí se depreende que não existe arte fora do espaço-tempo. Mesmo uma escultura não “nasce” no instante, mas depende do tempo para existir, da mesma maneira acontecendo com uma obra musical que possui volume e preenche espaços. O que não dizer do cinema e do vídeo, com estas dimensões entrelaçadas, criando a ilusão do movimento a partir da captura de momentos estáticos?
H_Barbas.pdf) e não “não se referem às propriedades dos objetos em si, tais quais cores, sons e cheiros, mas às experiências individuais que essas qualidades suscitam no indivíduo, chamada de ‘propriedades sensitivas subjetivas’ que acompanham toda percepção” (JORGE, 2007, p. 56). No capítulo seguinte utilizo o conceito de qualia na definição do que é obra de arte multimídia, partindo dos qualia artisticamente utilizáveis proposto por Souriau, em que a presença de mais de um quale, desde que de campos diferentes, define o que é multimídia independentemente do veículo (mídia) utilizado ou do conceito de interatividade. A relação direta entre qualia e arte está no fato da inefabilidade de ambos, implicando na experiência direta para absorção do objeto.
9 A net.art é definida pela arte que utiliza a internet para ser apreciada. Já a arte multimídia utiliza-se de
diversos meios para sua produção e apreciação; a arte digital, diferente da net.art, utiliza-se de meios digitais para sua produção sem a necessidade de uso da internet para apreciação.
Ainda segundo Souriau,
[...] é fácil ver que a cor na pintura, o claro-escuro na aquarela, o relevo na escultura, o movimento na dança, os elementos fonéticos essenciais da voz articulada na literatura, o som puro na música etc., são igualmente dados qualitativamente específicos, que diversificam a arte no plano da existência fenomenal (1983, p. 88).
Então não é tão trivial encontrar essas principais manifestações já que as mesmas obedecem a um sentido mais complexo dos qualia sensíveis. Estes qualia são, em complexidade e em número, na mesma proporção das possibilidades de artes que existem ou possam vir a existir, tendo seus limites fincados no sensorial.
Não existindo manifestações principais e sim manifestações essenciais – todas –, pode-se dizer que as técnicas definirão quais preponderam. Na pintura, por exemplo, as manifestações estão nos matizes, tons e texturas; na arquitetura a edificação do espaço é a manifestação primordial; na música a altura, intensidade, timbre e duração são atributos da matéria prima e sua manifestação o ritmo, harmonia e melodia etc.
Mas, e no universo multimídia? Quais manifestações são mais importantes? Algumas ou todas? É possível “observar” uma manifestação dissociada de outra? Independentemente da possibilidade de extração de elementos de uma obra de arte multimídia, sua razão de ser só se faz na totalidade e na imbricação dos qualia; na imersão completa de todos os sentidos envolvidos e com a possibilidade de abstração de qualquer função ou utilidade que não seja aquela própria da criação artística.
Assim a questão posta é a da possibilidade de absorção e percepção, por parte do observador – e mais especificamente no universo deste trabalho, do diretor de arte e mídia –, dos diversos qualia e, ao mesmo tempo, a compreensão que a obra criada deve ser compreendida num todo. Esta possibilidade de integração de qualia é entendida por Souriau como possível, a partir de correspondências entre as manifestações artísticas, mesmo que isto não tenha sido imaginado pelo artista:
Com efeito, não esqueçamos isto, que é essencial: quaisquer que sejam as similitudes que possamos encontrar, por exemplo, entre uma melodia e um arabesco decorativo, entre uma combinação de cores e um acorde musical (salvo exceções muito raras e
facilmente detectáveis), nem o músico, nem o desenhista ou o pintor, entretanto, as desejaram ou procuraram. O músico pensou musicalmente, o pintor plasticamente. E é nos próprios princípios da arte específica de cada um e na experiência ativa e concreta que adquiriram, em seus respectivos trabalhos, dos imperativos e optativos destes, que estavam secretamente implicadas as razões dessa similitude (SOURIAU, 1983, p. 31).
Como arremate, pode-se dizer que para a arte é necessário a existência de fatores físico-temporais como manifestações artísticas, concomitante com os aspectos subjetivos ou espirituais, como bem resume Pareyson,
Grande parte da magia e do mistério da arte consiste exatamente nesta convergência de espiritualidade e fisicidade, que faz da obra um corpo e um espírito, uma coisa e, juntamente, um valor. [...] A magia da obra de arte não é a convergência, ou a copresença, ou a mediação da sua espiritualidade e da sua fisicidade, mas a coincidência destes dois termos: o fato de na obra não existir nada de físico que não seja significado espiritual, nem nada de espiritual que não seja presença física (PAREYSON, 2001, p. 156- 57).
Portanto, há aqui uma idéia de totalidade e de não separação das partes, sob pena de distorções no trato da arte quando esta definitivamente encontra a tecnologia com toda a sua possibilidade de amálgama. De fato, cabe à estética a função de totalidade, sem negligenciar as especificidades das manifestações artísticas – que podem ser estudadas e analisadas em suas técnicas específicas –, mas dando espaço à compreensão filosófica, à concretude da arte, à crítica e à poética, em prol de uma reflexividade verdadeiramente filosófica sobre o objeto artístico.
É esta idéia de totalidade própria da arte que permite a ação de uma estética com trâmite pelas mais diversas expressões artísticas, sendo ela filosófica, no primeiro instante, para depois ousar ser comparativa e enredada nas manifestações as quais se propõe refletir.
Ressalto aqui que essa característica de totalização própria da reflexão estética é um caminho natural de engajamento por parte do diretor de arte, seja ele advindo de áreas especializadas do conhecimento, ou com formação em direção de arte e mídia. Dessa maneira, ao lidar com a variedade de expressões e de matérias- primas, ao mesmo tempo em que incapaz de dominar todas as técnicas, resta-lhe o
caminho da estética para coadunar os vários elementos e permitir que sua função de direção tenha êxito. No caso específico do especialista que se defronta com a tarefa da direção de arte, o caminho passa pela abertura do conhecimento, pela imersão na história da arte e pela descoberta de técnicas e materiais de outras especialidades, ações estas contempladas pela proposta de educação do diretor de arte e mídia.