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3.1.1.3 Florentino Avidos (1924/1928)145: o Crescimento de Vitória

Jerônimo Monteiro mudou a cara da cidade retirando-a de um estado muito precário. Mas, suas ações foram insuficientes para abranger as áreas que estavam fora do centro e do extremo sudoeste. Eram necessárias novas obras que alargassem ruas, restaurassem os velhos prédios, cuidassem das calçadas, melhorassem o sistema de drenagem de águas e de esgotos, dentre outras. A 1ª Guerra Mundial diminuiu o ritmo das obras e os governadores subseqüentes apenas terminaram as obras iniciadas por ele.

Algumas ações pontuais vinham sendo tomadas pela PMV. De viés sanitarista-positivista, o Plano Geral da Cidade (1917) apresentava preocupações com questões higiênicas, como salubridade, ventilação, iluminação e fluidez. Nele, o engenheiro e prefeito Henrique Novaes (1916/1920) projetou mudanças no desenho das ruas que ligavam o interior da cidade à região do Porto: as ruas seriam alargadas, retificadas e se posicionariam simétrica e paralelamente para facilitar a circulação de pessoas e mercadorias. As questões referentes à circulação viária, ao desenvolvimento do porto e sua ligação ao continente, estavam na pauta central das propostas de Henrique Novaes para Vitória, o que revelava o papel do porto como espaço da reprodução mercantil146.

145 Jerônimo Monteiro foi sucedido por Marcondes Alves de Sousa (1912/1916), que governou

novamente sob clima de instabilidade política. Seu principal legado foi ter dotado a cidade de viação urbana. Bernardino Monteiro (1916/1920), irmão de Jerônimo Monteiro, fez verdadeiro milagre administrativo. Sob profunda depressão financeira nacional, inaugurou a política rodoviária do Estado. Ele construiu as estradas de traçado mais difícil - Santa Leopoldina a Santa Teresa e Castelo a Moniz Freire. Estas estradas modificaram a estrutura econômica das regiões atingidas e muito antes da capital elas viram sua produção circular em caminhões. Sua sucessão foi conturbada e contou com a interferência do governo federal. O governo seguinte, de Nestor Gomes (1920/1924), é marcado pela recuperação do preço do café no mercado internacional e pela ascensão da elite mercantil exportadora ao poder no partido e no Estado. O café projetou nacionalmente o Espírito Santo, que ficou em terceiro lugar no ranking dos maiores produtores do país. O governo de Henrique de Novaes (1920/1924) é lembrado como um período de intelectualização da capital: o governador costumava abrir sua casa para acolher à família capixaba; os clubes Vitória e dos Boêmios tinham freqüência diária; as regatas se revigoraram e deram lugar a competições; a juventude se interessou pelo futebol amador dos clubes Vitória ou Rio Branco; o teatro Melpômene tinha noitadas e no Cine Central orquestra de câmera com repertórios vienenses e muitos jovens da elite local foram para o Rio de Janeiro fazer cursos superiores.

146 Uma outra proposta do Plano Geral da Cidade em relação ao porto foi a construção de uma

avenida de circulação ao longo do litoral, da Vila Rubim ao Forte São João. Para isso, seria desmontado o morro da Santa Casa de Misericórdia e a terra seria destinada para a construção da avenida.

Havia, por essa época, uma proposta de se transferir a capital para um local plano, composto por elementos mais modernos. Henrique Novaes refutou essa hipótese. O prefeito ressaltava o potencial paisagístico da região e a beleza da cidade, o caráter simbólico de sua construção por seus elementos primitivos e o papel do porto, que com as obras tinha potencial para se tornar porto de primeira ordem a ser aproveitado por uma cidade moderna (KLUG, 2009, p. 32).

Em 1922, o prefeito Cirilo Tovar renomeou o largo da Alfândega para praça Oito de Setembro, uma homenagem à fundação da antiga vila colonial de Vitória. A rua da Alfândega foi sucessivamente pavimentada e ampliada e se transformou na atual avenida Jerônimo Monteiro. Nesta mesma época, parte do prédio da Alfândega, construído há apenas 30 anos, foi demolido por ter sido considerado insuficiente para atender às necessidades. Em seu lugar foi construído novo prédio de dois pavimentos.

Inaugurado provavelmente em 1923 o novo prédio pôde oferecer a infra-estrutura necessária ao crescimento das atividades comerciais e portuárias das décadas seguintes, marcadas pela importação de máquinas, equipamentos e materiais para a construção do Porto de Vitória, das obras da Estrada de ferro Vitória-Minas, do cais de Paul da CVRD, além de toda a movimentação de mercadorias importadas pelas casas comerciais da praça de Vitória que ocorreu nos anos seguintes, principalmente após a passagem da crise de 1929 (RIBEIRO e BARROS, 2008, p. 42).

Os altos preços do café favoreceram o governo de Florentino Avidos, “[o] Espírito Santo era de fato a terra da promissão” (DERENZI, 1968, p. 220). Com dinheiro em caixa, Florentino Avidos recupera o ritmo acelerado das obras e cria, em 1924, a Comissão de Melhoramentos de Vitória147. A ênfase do governo se voltou para a urbanização e embelezamento da capital.

A equipe do Serviço de Melhoramentos de Vitória deu à cidade boa parte do que ela tem de melhor: retificação da avenida Jerônimo Monteiro, abertura da avenida Capixaba, criação de novos bairros residenciais, construção de centenas de moradias para funcionários e classe média (OLIVEIRA, 2008, p. 450).

147 Florentino Avidos soube escolher sua equipe de governo e teve seu filho, o engenheiro Moacir

As obras na capital foram tão significativas que mudaram a morfologia da cidade radicalmente. Foram obras urbanas de retificação, pavimentação, alargamento, drenagem e abertura de novas ruas; reforço do abastecimento de água; melhoria das redes de esgotos; construção de núcleos residenciais e de edifícios públicos; finalização das obras no cais do porto; construção de ponte sobre a baía; abertura de estradas suburbanas148; iluminação em combustores custosos; e ainda intervenções de embelezamento como passeios de ladrilhos, jardins e monumentos, escadarias monumentais e viadutos. A cidade em obras tinha “cheiro limpo de tinta fresca e cimento fundido” (DERENZI, 1968, p 216).

Todas as obras eram marcadas pelo ecletismo. Pontualmente podemos destacar a edificação dos mercados da Capixaba e da Vila Rubim; a restauração da sede da Delegacia de Polícia, da Penitenciária e da Santa Casa; construção da sede do Serviço de Melhoramentos, da prefeitura municipal, do grupo escolar Gomes Cardim, do Arquivo Público; e o governo também ajudou em obras particulares, como o Teatro Carlos Gomes e o hotel Majestic e aprovou a construção do Teatro Glória, primeiro edifício vertical da cidade, com cinco pavimentos149.

A ampliação da cidade pela realização de aterros, abertura de vias de comunicação e criação de bairros fez parte do plano geral. A mancha urbana cresceu e a cidade se expandiu para além dos limites outrora impostos pelo mar e pelos morros. O aterro da Esplanada Capixaba, nas proximidades do Forte São João, marcou o crescimento da cidade em direção ao leste. Na região nordeste da ilha, o Novo Arrabalde foi sendo implantado. No caminho entre o núcleo central e o Novo Arrabalde apareceram novas ocupações, como o bairro de Jucutuquara, destinado a operários. A ocupação de novos espaços esteve associada a melhorias nas estadas de acesso a Maruípe (Av. Paulino Müller), a Santo Antonio, à ilha de Santa Maria, à praia Comprida e à praia de Camburi. Vitória experimentou a valorização imobiliária150.

148 35 estradas e 29 pontos, mais caminhos de penetração pelo interior.

149 As construções eram horizontalizadas, com no máximo dois pavimentos. Essa intervenção no

centro da cidade antecipa a verticalização que se desenvolveria nos anos seguintes e mudaria a paisagem da cidade.

150 Surge nos anos 1930 os primeiros construtores da cidade, já interessados no comércio de imóveis.

Contudo, até a década de 1950 o Estado continuou sendo o principal empreendedor da expansão da cidade (OLIVEIRA, 1008).