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Projections show that labour supply is paramount for fiscal sustainability

Os grandes números da obesidade ajudaram a dramatizar a situação e a levá-la para a política, e é a ênfase dada à alimentação que faz da obesidade um tema tão importante para a agenda política. A generalização da obesidade com base no preconceito da crise alimentar levou o meio médico para a esfera política (Poulain, 2009). Que consequências terão estas questões nos indivíduos obesos e na sua relação com a comida e com o seu corpo? Na realidade, os argumentos científicos explicam apenas uma ínfima parte do aumento da obesidade, sendo que a maior parte das questões sociais e culturais e dos modos de vida ficam de fora dessa análise.

Hoje, mais do que um poder disciplinar que tem como função a “sanção normalizadora” (Pogrebinschi, 2004:193) que tem que ver com o poder da norma, existe também o que Foucault (in Pogrebinschi, 2004) chamou de biopoder, considerando que o mesmo veio complementar o poder disciplinar, pois apenas se alteram alguns dos instrumentos de poder. “Ao passo que o poder disciplinar se faz sentir nos corpos dos indivíduos, o biopoder aplica-se em suas vidas. Enquanto a disciplina promove a individualização dos homens, o biopoder acarreta uma massificação, tendo em vista que ele se dirige não aos indivíduos isolados, mas

à população” (Pogrebinschi, 2004: 195-196), tendo assim efeitos globais. Ou seja, existe hoje simultaneamente uma individualização e uma massificação, porque os indivíduos devem fazer por si para estarem adequados à sociedade. Um aspeto essencial no biopoder é o auge e predominância das ciências exatas e biológicas, em que a medicina passa a exercer um certo “poder de polícia” e político (Pogrebinschi, 2004:196) no que diz respeito à saúde pública. Ou seja, as mudanças com o biopoder são essencialmente o nascimento de novas formas de poder e instituições que exercem esse poder como é o caso da medicina.

Como o biopoder atua essencialmente sobre a população e não sobre o individuo a sua função é essencialmente a nível da agenda política com o levar a cabo de campanhas de saúde pública por exemplo para combater a obesidade. Ou seja, com o biopoder entra em campo a prevenção, e a disciplina é convertida em regulamentação, em que não é apenas a política e a medicina que exercem essa regulamentação, mas também outras instituições e a própria população. No entanto, a medicina como intervém tanto sobre os indivíduos como sobre a população exerce tanto disciplina como regulamentação. A norma é o aspeto essencial que predomina tanto na disciplina quanto na regulamentação, porque atua no individuo e na população e por isso Foucault chamou a nossa sociedade de “sociedade da normalização, uma sociedade regida por essa norma ambivalente, na qual coexistem indivíduo e população, corpo e vida, individualização e massificação, disciplina e regulamentação” (Foucault, in Pogrebinschi, 2004:197).

O biopoder, de Michel Foucault (in Ferreira et al., 2015), é assim um tipo de poder renovado que invadiu as sociedades ocidentais atuais, que remete para o saber médico como uma espécie de poder, recaindo tanto sobre os corpos dos indivíduos como sobre a população no geral, com discursos, por exemplo, ao nível da saúde pública, que, remetem para a regulamentação e para a disciplina. Ou seja, a emergência deste novo tipo de poder revela-se nos discursos ao nível das políticas de saúde pública, e, afetam as massas, os indivíduos e os seus corpos, promovendo a auto-vigilância, através da aceitação dos discursos e da adoção de regimes disciplinares, mas também a vigilância dos outros sobre os nossos corpos e comportamentos. Assim sendo, as campanhas de promoção de saúde destinam-se às coletividades, remetendo para o empowerment, isto é, para que os indivíduos tenham conhecimentos acerca da saúde e que os coloquem em prática (Lupton, 1995; Furtado e Szapiro, 2012).

No entanto o foco continua acentuadamente na individualização, visto que os programas de prevenção da obesidade e as campanhas de saúde pública continuam a centrar-se apenas no individuo e não têm em conta o peso e constrangimentos das estruturas sociais, isto é, os indivíduos devem ser responsáveis por proteger a sua saúde (Gracia-Arnaiz, 2010; Lupton, 1995). Os imperativos de saúde sobrepõem-se, assim, à classe, às diferentes situações socioeconómicas, ao género e à idade. Contudo, a verdade é que nem todos os indivíduos têm possibilidades de responder a estes imperativos (Murray, in Augusto, 2015).

As questões médicas, traduzidas em discursos políticos, demonstram os vários interesses económicos existentes de que várias situações médicas passem para a esfera

política, como a obesidade. Com o biopoder o foco passa para a prevenção e, por isso, o que se pretende é que os indivíduos interiorizem esses discursos, e façam pela sua saúde. No entanto, o discurso médico leva a alarme social e, consequentemente, a pânico moral, e gera-se medo e frustração, porque nem todos os indivíduos conseguem alcançar os ideais propagados nessas campanhas de saúde pública (Ferreira et al., 2015; Pogrebinschi, 2004; Boero, 2006; Augusto, 2015).

O controlo moral e médico e de exploração económica em relação ao corpo é hoje muito maior, e a erotização do corpo é a forma de controlo social, sendo uma espécie de “controlo- estimulação” (Foucault, in Ferreira, 2008:479) para que os indivíduos sejam magros e bonitos, e é nesse sentido que Lipovetsky (in Ferreira, 2008:479) declara que a beleza, a magreza e a juventude são as novas formas de controlo e regulação social. Aliás, as campanhas de saúde pública incitam os indivíduos a vigiarem os outros e a si mesmos nas prática diárias, com o fim de verificar se os indivíduos estão a cumprir os objetivos do Estado, em suma, as políticas de saúde (Lupton, 1995), na sua busca de adequação aos ideais de saúde socialmente desejados (Augusto, 2015). Com efeito, os discursos em saúde pública e promoção da saúde têm como objetivo a construção de um certo tipo de indivíduos, privilegiando sujeitos auto-regulados, conscientes da saúde, racionais e civilizados, ou seja, privilegiam os corpos contidos e o controlo das vontades, o que não é mais do que uma apropriação económica, cultural, política e simbólica do corpo (Lupton, 1995).

Segundo Foucault (in Poulain, 2009) o desenvolvimento da medicalização do sobrepeso e da sua categorização enquanto patologia constitui uma nova forma de controlo social, que vem substituir o poder das instituições tradicionais que haviam perdido prestigio e poder de controlo, e quem tem muita influência na vida dos indivíduos e na construção da sua identidade, principalmente se esta for uma identidade estigmatizada. Ou seja, a estigmatização e discriminação da obesidade é um jogo subtil entre ciência e moral que vai influenciar fortemente as aparências corporais e a “tirania do corpo magro” que determina a autoestima e o olhar do outro e sobre o outro. Existe assim uma crescente moralização das escolhas e práticas de saúde, sendo que as campanhas de saúde pública, uma das formas de biopoder, sobre a luta contra a obesidade focam-se essencialmente na responsabilidade individual pela saúde como um dever moral e social, sendo que este discurso põe a ênfase no autocontrolo, na autodisciplina, no sacrifício, na vigilância e nas escolhas acertadas com vista a uma vida saudável (Augusto, 2015).

As representações sociais existentes acerca da obesidade e do saudável, resultado da hegemonia médica em definir situações e comportamentos, remetem também para a questão da disciplina, em que os indivíduos têm de utilizar o corpo como modo de vida contemporâneo, em que o objetivo é estar adequado aos valores da cultura dominante, em que os obesos são vistos como tendo um corpo inadequado. Ou seja, o corpo magro é a nova forma de manipulação e controlo social, em que a magreza é vista como um requisito e uma garantia para a ascensão social, que acaba por ser falsa (Stenzel e Guareschi, 2002).

Assim sendo, Lovisolo (in Gomes, 2006) refere que existem diversos novos atores (OMS, Media, Estado, empresas seguradoras, indústria alimentar, indústria farmacêutica e especialistas em saúde) muito preocupados com a questão da obesidade, os seus fatores de risco, sendo os seus discursos muito semelhantes e tendo contribuído muito para a construção social da obesidade e para o desenvolvimento de novas formas de controlar, perceber e intervir sobre os corpos (Augusto, 2015). No caso da classe médica criam várias estruturas que visam lutar por uma boa causa, através de clínicas, programas de luta contra a gordura que só os leva a ter mais prestígio e poder na sociedade e a fazer mais negócio. E as várias indústrias usam a retórica/discurso da medicina para levar os indivíduos a perder gordura tendo em vista o lucro (Greenhalgh, 2012).

Os media são assim um veículo que ajuda na legitimação dos profissionais de saúde (Conrad, 2005) e que divulga outras indústrias, recebendo os seus benefícios através da publicidade que difunde. São por isso um importante instrumento político, visto que muitas das campanhas de promoção de saúde são organizadas por agências estatais, mas difundidas com o importante auxílio dos media. Os media providenciam significados de custo efetivo em relação a diversos problemas, como a obesidade, e o que pode ser feito para prevenir ou lutar contra tal situação. Alertam, ainda, para o facto de que só seguindo as advertências médico- político-mediáticas se poderá ter uma boa saúde (Lupton, 1995).

Tendo em conta que o discurso médico se tornou hegemónico, as políticas e campanhas de saúde pública, apesar de se destinarem às massas, focam-se no individuo como promotor da sua saúde. Assim, o corpo magro e saudável torna-se a nova forma de controlo social e vigilância dos indivíduos e dos seus corpos. Com a generalização destes discursos para o público leigo, passa a existir um controlo generalizado, em que os indivíduos acham que têm o direito de se controlam uns aos outros, e o dever de se controlarem a si mesmos, por um bem supremo, a saúde. (Lupton, 1995; Gracia-Arnaiz, 2010).

Concluindo, os vários atores sociais e motores de medicalização contribuíram para a construção da obesidade e para formas específicas de controlar, perceber e intervir sobre os corpos. Com o biopoder, em que vários problemas vistos como médicos entraram também na esfera politica, a intervenção, controlo e regulação da vida dos indivíduos, e, principalmente, dos seus corpos, é cada crescentemente maior. Todos estes discursos políticos, baseados em pressupostos médicos, remetem para a normalização dos indivíduos e dos seus corpos e, assim sendo, o discurso médico atua politicamente como verdade única. Por exemplo, a cirurgia bariátrica constitui uma biopolítica no combate à obesidade (Pogrebinschi, 2004; Teixeira, Freitas e Caminha, 2012; Gonçalves e Miranda, 2012).

Podemos assim rematar, que, “o discurso da Promoção da Saúde é parte de um

projeto biopolítico de controlo social dos corpos” (Furtado e Szapiro, 2012:819), porque o biopoder diz aos indivíduos como eles devem viver a vida, como se devem controlar, tendo sempre como referencial a norma, socialmente construída, que deve ser seguida. Assim sendo, a normalização é a reprodução do biopoder, que transforma políticas de saúde pública em formas de controlo pessoal. É ainda importante referenciar que os pressupostos médicos

implementados nas políticas de saúde pública se dirigem a todas as pessoas por igual, sem fazer diferenciação demográfica, de género ou de estatuto socioeconómico, tendo como objetivo implementar uma racionalidade política com vista a controlar os comportamentos da vida (Furtado e Szapiro, 2012; Bossy e Briatte, 2011).

Algumas destas questões serão ainda retomadas no próximo capítulo, em relação à construção da identidade, porque consideramos que esta nova forma de poder tem muita influência na construção da identidade dos indivíduos, visto que esta é construída cada vez mais em relação ao corpo, o qual, segundo o biopoder, deve obedecer às normas.

Capítulo III – Obesidade, corpo e