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Project portfolio management

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CHAPTER 3 Theory

3.4 Project portfolio management

Em 1979, Caetano Veloso lançou o LP Cinema transcendental, uma série de contemplações do tempo, da história humana, da beleza, e do simples prazer de compor e cantar. Entre as canções do disco, está ‘Beleza pura’, onde o poeta descreve as belezas de mulheres e homens de Salvador. A canção é construída sobre o ritmo do ijexá, típico dos afoxés da Bahia, como os Filhos de Gandhi. Tem uma forma de canto responsorial, alternando sempre entre a voz solista e um coro, que responde com “Beleza pura”. O poeta começa a canção opondo aquilo que não lhe desperta interesse: “Não me amarra dinheiro, não / mas formosura”. 32 anos mais tarde, em 9 de outubro de 2011 (Caderno B6), no jornal A Tarde (VELOSO, 2011 – ANEXO C, p.165), ele declara que essas duas palavras “dinheiro, não”, foram

inspiradas em uma canção de Elomar, cujo refrão diz que só três coisas lhe interessam (ou lhe “amarram”, diria Caetano) nesse mundo: a viola, a liberdade (alforria) e o amor, traçando uma oposição: “Viola, furria, amô, dinhêro não”. Era um personagem, encarnado por Elomar na época, e que hoje persiste: ‘O violeiro’:

Vou cantá no cantori primêro As coisa lá da mĩa mudernage Qui mi fizero errante e violêro Eu falo sero e num é vadiage E pra você qui agora está mi ôvino Juro inté pelo Santo Minino Vige Maria qui ôve o qui eu digo Si fô mintira me manda o castigo Apois pra o cantadô e violêro Só há treis coisa nesse mundo vão Amô, furria, viola, nunca dinhêro Viola, furria, amô, dinhêro não. Cantado di trovas e martelo De gabinete, ligêra e moirão Ai cantadô já curri o mundo intêro Já inté cantei nas portas de um castelo De um rei qui se chamava de João Pode acreditá meu companhêro Dispois de tê cantado o dia intêro O rei me disse fica eu disse não

Si eu tivé di vivê obrigado Um dia iantes desse dia eu morro Deus fez os home e os bicho tudo fôrro Já vi iscrito no Livro Sagrado

Qui a vida nessa terra é u’a passage E cada um leva um fardo pesado

É um insinament’ qui derna a mudernage Eu trago bem dent’ do coração guardado Tive muita dô de não tê nada

Pensano qui êsse mundo é tudo tê Mais só dispois di pená pela istrada Beleza na pobreza é qui vim vê Vim vê na procissão o lôvado seja O malassombro das casa abandonada Coro de ceg’ nas porta das igreja E o ermo da solidão das istrada Pispiano tudo do começo

Eu vô mostrá como faz um pachola Qui inforca o pescoço da viola Rivira toda a moda pelo avesso E sem arrepará se é noite ou dia Vai longe cantá o bem da furria Sem um tustão na cuia o cantadô Canta inté morrê o bem do amô.

Texto fixado por Simone Guerreiro (Caderno Notas & Letras, de ELOMAR:CANCIONEIRO, 2008).

Na matéria do jornal, Caetano testemunha que conheceu Elomar, e sua canção, através do amigo Roberto Santana, que foi produtor do primeiro LP do cantor de Vitória da Conquista, Das barrancas do Rio Gavião (MELLO, 1973), que tem ‘O violeiro’ como faixa

de abertura (FIG. 3). Dentro da discografia de Elomar e de outros artistas, essa canção tem várias gravações. Seja em discos de vinil e CDs, seja em vídeos caseiros compartilhados na internet por músicos amadores ou profissionais, é possível encontrar mais de uma dezena de interpretações. Na verdade, Das barrancas 18 traz o segundo registro da canção. O primeiro surgiu em 1967, quando foi lançada pelo compositor em compacto simples de vinil 19, que continha no lado A ‘O violeiro’ e no B a ‘Canção da Catingueira’ (FIG. 4, APÊNDICE E, disco

3, faixas 1 e 2). A gravação que veio a ter difusão maior foi sem dúvidas a que surgiu em 1973, lançada por uma grande gravadora.

18 Barranca: também chamada ravina, escarpa ou barranco, trata-se de um produto da erosão pela ação de

córregos e enxurradas. Espécie de desfiladeiro, precipício.

19 Disco de vinil com duas faixas, uma em cada lado. Diferente do long play (LP), que possui “longa duração”,

FIGURA 3 – Capa do disco Das barrancas do Rio Gavião (1973). Foto: Silvio Robatto.

FIGURA 4 – Compacto simples lançado por Elomar (Independente, 1967).

Nos dois discos, a interpretação é musicalmente bastante similar: o acompanhamento violonístico e o andamento são praticamente os mesmos. Até hoje Elomar toca em suas apresentações a canção desse jeito, com a diferença de que ele vem usando o capotraste (ver glossário) no braço do violão para subir o tom da música, ora na 2ª casa, ora na 3ª casa do violão Si menor para Dó# menor (ver registros de 1980, 1987 e 1994) e Ré menor (registros

de 1988, 1989) (exemplo sonoro 1). A questão da tonalidade da música merece menção porque impõe dificuldades para a capacidade vocal do cantor. Na mesma matéria de jornal, Caetano confessa que sempre teve muita vontade de cantar ‘O violeiro’, mas nunca se atreveu a fazer isso porque sua voz não alcança o Mi2, extremamente grave para uma voz masculina,

fazendo parte da gama de sons emitidos pelo tipo vocal baixo. Esse Mi2 se encontra

justamente no começo do refrão (sílabas destacadas): “Apois pra o cantadô e violêro...” (exemplo sonoro 2) Caetano não se conforma de não alcançar a nota grave, “que na voz do autor soa simplesmente divina” (VELOSO, 2011).

Mas Caetano poderia ter prestado atenção às subsequentes performances de ‘O violeiro’, em que a tonalidade é subida para Dó# ou Ré menor, com o auxílio do capotraste no braço do violão. É como Elomar vem executando a canção até hoje. Além de tudo, Ré menor impõe um início muito mais explosivo do que na tonalidade original (exemplo sonoro 1). A melodia se inicia com um tom de salmodia 20 em torno da nota principal (exemplo sonoro 3). Na tonalidade de Si, a melodia começa com um Si3, para uma voz masculina, uma nota

bastante cômoda e repousada. Em Ré, inicia-se com um Ré4, que para uma voz de tenor ainda

é de simples execução, mas para uma voz de barítono 21 ou baixo, já é uma transição para uma região bastante aguda. Assim, a canção já se inicia chamando bastante atenção pelo nível de tensão que o intérprete desprende. No entanto, no momento do refrão, a palavra “cantadô” fica um pouco mais cômoda para se cantar, pois é cantada com um Sol2 (exemplo sonoro 4).

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