Tendo em vista que civilização e modernidade são termos intimamente ligados na ideia de formulação do espaço, torna-se importante esclarecer as representações do espaço urbano das metrópoles no século XIX. A ideia de cidade que aqui será explorada, envolvendo fluxos e movimentos, começa a construir-se na Europa a partir do século XVIII contrapondo o modelo de acumulação do Antigo Regime. Neste último modelo, a cidade, sendo sede do poder econômico, político e científico deveria ser populosa na medida em que a acumulação dos homens é decisiva para a construção de uma potência econômica urbana288. A nova construção deste urbano é contrária à acumulação, ela prioriza o fluxo, e a facilidade de locomoção é promovida principalmente pela abertura de estradas que ligam o centro aos bairros e estes entre si, fazendo com que as vantagens da localização que fundamentavam a definição de capitais não sejam mais relevantes.
A cidade, detentora dos meios de produção modernos, centro da economia e do comércio, atrai os trabalhadores operários que passam a ocupar massivamente o centro urbano. A presença dos pobres no coração das capitais era assustadora. Sua aglomeração trazia riscos não somente no sentido de possíveis revoltas sociais, mas também, e principalmente, trazia riscos à saúde.289 A moradia insalubre e os atos vistos pela elite burguesa como imorais e anti-higiênicos fazia destes pobres uma “classe perigosa”, pois espalhavam nas ruas miasmas e vícios. A degradação do ambiente, da saúde e do modo de vida arquitetado pela elite paulista em plena busca e afirmação de “civilidade” ficou então associada à expansão demográfica da cidade. As lavouras cafeeiras atraíam imigrantes aos montes, que contribuíam para este fenômeno em São Paulo – na virada do século, a população aproximada da cidade, por exemplo, era de
288 LEPETTIT, Bernard. Das capitais às praças centrais. Mobilidade e centralidade no pensamento
econômico francês. In: “Cidades capitais do século XIX – Racionalidade, cosmopolitismo e transferência de modelos”. Org: Heliana Angotti Salgueiro. São Paulo: Edusp, 2001, p. 42.
289 BRESCIANE, Maria Stella. Metrópoles: As Faces do Monstro Urbano (as cidades no século XIX).
250.000 habitantes, sendo 150.000 estrangeiros.290 Estes imigrantes somados aos trabalhadores nacionais pobres e ex-escravos, compunham a chamada “classe perigosa” que, dada a dificuldade habitacional, amontoavam-se em cortiços insalubres, sem rede de água, esgoto ou qualquer outro princípio de higiene que garantisse a salubridade desta moradia e seus acolhidos.
As ações de construção da imagem civilizada paulistana eram largamente aplicados pelas ruas da capital – tanto pelas ruas novas, que nasciam largas e arborizadas quanto pelas antigas ruas estreitas e sinuosas, onde residia o perigo do contágio. Especialmente com relação às habitações, o empenho em remodelar sua forma e o costume de seus habitantes fazia vistas ao desejo de converter a barbárie que impedia São Paulo de ser considerada uma capital por excelência civilizada. Neste sentido, as visitas sanitárias domiciliares, que tinham por intenção captar maus elementos e costumes para a solidificação da saúde e bem estar públicos, deveriam ser absorvidas como algo positivo pela sociedade, principalmente por quem era de fato seu alvo. Para convencer a população da necessidade de bem receber as visitas sanitárias em suas casas, um autor desconhecido publico no Correio Paulistano um artigo que fala da importância deste serviço para extirpar os males que afligiam a cidade – em especial sua camada elitizada – em fins do século XIX:
“(...) existe ainda um certo numero de pessoas que consideram importunas taes visitas, dificultando-as, muitas vezes, sob pretextos fúteis, como sejam os de não se encomodarem quando se acham á mesa de suas refeições exigindo que a auctoridade sanitária esperem que hajam concluído.
Francamente, lamentamos que taes casos ocorram, não só porque crêam obstáculos ás auctoridades sanitárias, como ainda porque denotam certo atrazo por parte de quem os commette.
Os delegados de hygiene são médicos, que conhecem o valor do segredo profissional, e que, nas visitas a que procedem, só procuram vêr o que diz respeito á hygiene, e não o que cada um come em sua casa.
O facto, pois, de se acharem os habitantes de uma casa à mesa de suas refeições não deve constituir obstáculo para que lhes seja franqueada a visita que requisitam no cumprimento da lei.
De outro modo, seriam forçados a perder um tempo precioso á espera que cada um terminasse sua refeições, e com isso soffreria o serviço de que se acham incumbidos.
Não trataríamos do assumpto, se não tivéssemos certeza da repetição de taes factos, e do prejuízo que elles acarretam para o nosso credito de povo civilizado.” 291
Colocando a privacidade em segundo plano, o autor ressalta a inferioridade inerente a este povo que dificulta o trabalho dos inspetores higiênicos e tem dificuldade em reconhecer a importância do especialista médico para as ações públicas de saúde, ousando fazê-los esperar pelo término de suas refeições. O autor deixa claro sua opinião sobre os indivíduos que não permitem a intromissão não avisada em sua privacidade pela ilustre figura do médico: são seres que “denotam um certo atrazo”, ou seja, são estorvadores da ânsia progressista dos cafeicultores, industriais, construtores e governantes de uma São Paulo que deseja eliminar este “prejuízo que elles acarretam para o nosso crédito de povo civilizado”. A ideia das visitas domiciliares, portanto, era justamente modificar os costumes insalubres da classe pobre. A insalubridade com que viviam os moradores dos cortiços resultaria em custos econômicos e sociais. Béguin associa os custos econômicos às jornadas de trabalho perdidas por causa das doenças que atingiam os operários. Já o custo social se refere ao desconforto causado pela miséria e sujeira do lar. Ainda de acordo com Beguin, o estado miserável da casa é o que faz o homem, após sua jornada diária de trabalho, procurar prazer e descanso nas ruas, nos bares, no jogo, ou seja, a sujeira desagrega a família e faz o homem gastar seu salário com opções de lazer egoístas e imorais. 292 Nesse sentido, as visitas domiciliares, assim como as pesquisas inglesas em torno do habitat tratadas por Beguin, são estratégias ligadas à doença e à delinquência que voltam seus olhares para as condições do ar, da água, da luz e da limpeza das habitações para então, a partir dos componentes materiais da casa, definirem condições ideais de habitabilidade. O conforto que se deseja instalar na vida do pobre, melhorando suas condições de moradia, visa reverter este duplo prejuízo causado pela insalubridade.293 O conforto, segundo Beguin, sujeitaria a classe pobre a um duplo controle: o econômico, que se refere ao trabalho necessário para produzi-lo, e o político, pois tendo agora o que perder, os pobres tornar- se-iam adeptos da políticas que visam a propriedade ou a “qualidade de vida”. 294
291 Artigo sem autor definido. “Visitas Sanitárias”, O Correio Paulistano, 08/10/1893.
292 BEGUIN, François. As maquinarias inglesas do conforto. Revista “Espaço & Debate”, nº 34, 1991.
p. 40.
293 Ibidem, p. 47. 294 Ibidem, p. 48 e 49.
Além dos obstáculos referentes à saúde, os cortiços também eram foco do vício, da promiscuidade, pois as autoridades englobavam no termo “perigosas”, as pessoas que escondidas nos becos e nos cortiços praticavam a prostituição, o alcoolismo, o jogo e a vagabundagem, daí a necessidade de que os engenheiros atentassem para abastecimento de luz no centro urbano para inibir estes atos imorais e daí também, a preocupação que a oficialidade passa a ter no final do XIX em acabar com essas moradias.
O “perigo” das habitações coletivas e o modo de viver de seus moradores tangia também a disciplina do trabalho, como exposto por Maria Auxiliadora Guzzo Decca:
A habitação coletiva e precária do proletariado em São Paulo era vista fora dos meios operários como fonte de tuberculose, alcoolismo, vícios, como geradora de inveja e ódio da sociedade, como ambiente desastroso para a infância e mulheres, como formadora de péssimos hábitos, que prejudicavam a disciplina nas escolas e o trabalho nas fábricas e oficinas. 295
A solidariedade do operariado e sua organização de vida coletiva era, então, considerada perigosa para a disciplina do trabalho e para o ideal de ordem social. Era preciso regenerar física e moralmente o funcionários das fábricas para otimizar seu trabalho, era preciso fazê-lo aceitar sem conflitos as condições cotidianas que a ordem urbano-industrial lhe reservara em São Paulo. Além disso, a metrópole das oportunidades estava correndo o risco de espantar a mão de obra estrangeira por conta da insalubridade com que estavam sujeitos a viver aqueles que se aventurassem a pagar – caro – para morar num quarto com cozinha e fossa comunais no coração da cidade. Os surtos epidêmicos faziam vítimas em São Paulo e desencorajavam a mão de obra europeia a vir pra cá, ao mesmo tempo em que sujavam a imagem progressista e civilizada da capital paulista. Tentando reverter este quadro desfavorável à economia e ao reconhecimento paulista, Bernardino de Campos apresenta um quadro higiênico estável para a Província em 1896, destacando a
“immunidade da Capital em meio de perigosas epidemias, attendendo- se a que esta cidade não repelle, antes recebe e dá o conveniente tratameto, aos
295 DECCA, Maria Auxiliadora Guzzo. A vida fora das fábricas. Cotidiano operário em São Paulo 1920-
contagiados que a procuram. Também contribue poderosamente em seu funccionamento para auxiliar outros pontos do Estado, quando affectados, já pelo abrigo e serviço organizados, já pela promptidão e competência do pessoal amestrado na capacidade do trabalho, diligente em accudir ás necessidades ocorrentes.” 296
O discurso não só enaltece a importância da capital enquanto centro investidor e de organização com relação à saúde pública, como passa a ideia de acolhimento e tranquilidade num possível intuito de atrair, para o café e a indústria paulista, trabalhadores imigrantes que, amedrontados pela situação higiênica e endêmica de São Paulo e Rio de Janeiro – principais polos de procura dos trabalhadores estrangeiros -, tivessem desistido de trazer sua mão de obra para este lado do Atlântico. Ainda com relação à higiene, Bernardino declara:
“Esta longa e minuciosa preoccupação quanto á saúde pública, póde parecer um estado sanitário calamitoso, quando exprime o contrário, pois é a calma e systemathica disposição dos meios adequados que affectam todas as aggremiações humanas, ainda as mais sadias e cultas, e cujo abandono denota incontestável inferioridade social.” 297
Além do já notado teor tranquilizador, esta fala ainda reforça a afirmação da civilidade da capital paulista, pois o grande cuidado com as medidas higiênicas, segundo o Presidente da Província, não é sinal de um mal estar público com relação à saúde, mas sim a prova de que o governo paulista é culto, preparado e civilizado o suficiente para cuidar de sua população, características que conferem à cidade o privilégio de não encaixar-se num quadro de inferioridade social.