2. Film Financing
2.1 Project Financing
A partir de Jovchelovitch e Bauer (2002), a Entrevista Narrativa é analisada pela perspectiva temática. A análise temática que se constitui como um processo de redução gradual da narrativa em unidades de sentido. Essas unidades de sentido foram pensadas nessa dissertação como representando os possíveis personagens, papéis sociais, cenários e formas de reconhecimento, constituindo as categorias de análise da pesquisa. Apesar de esses primeiros autores estruturarem essa análise somente para as transcrições das entrevistas, utilizo as considerações de Riessman (2008) sobre a análise temática da narrativa na produção de sentidos dos diários de campo, pois, como já citado anteriormente, eles tiveram sua elaboração preponderantemente baseada em modelo narrativo.
Essa redução gradual das narrativas dos entrevistados e dos diários de campo constitui o processo de codificação15. Segundo Gibbs (2009), essa codificação se refere ao trabalho de identificação de trechos do material empírico em determinadas categorias, construindo uma estrutura de sentidos da pesquisa que podem ser tanto dedutivos, como indutivos. Assim, primeiramente, antes do início da análise do material empírico de pesquisa, foram construídos dedutivamente códigos, também, conhecidos como categorias a partir da fundamentação teórica acerca da identidade, da pobreza e da situação de rua. A dedução significa a criação de
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Gibbs (2009) afirma que em pesquisa qualitativa podem ser utilizados com o mesmo sentido os termos código, categoria, índice e tema. Neste trabalho, será preponderantemente utilizado o termo categoria.
hipóteses anteriores à análise do material empírico, servindo para orientar essa mesma análise a partir da fundamentação teórica utilizada que embasa o processo de realização da pesquisa.
Apesar desse enfoque, houve atenção para não restringir e cercear o aparecimento de novas categorias de análise a partir dos sentidos produzidos em pesquisa, concebendo o viésindutivo. Essa perspectiva representa a criação de novas categorias a partir do material empírico. Esse processo de alinhamento da perspectiva dedutiva e indutiva é muito comum em pesquisa segundo Gibbs (2009). Para auxiliar nesse processo dedutivo e indutivo, foram escritos diversos memorandos com as características gerais de cada categoria criada, estabelecendo, assim, suas definições gerais.
Nesse sentido, há a família16 dascategorias. Assim, explicito sucintamente as características básicas de cada categoria central que orientaram a identificação do material empírico. A família da categoria cenário expressa as condições materiais e não materiais (sociais, simbólicas e políticas) e atividades cotidianas. Os cenários investigados foram aqueles vinculados a realidade de pobreza e de situação de rua. Outra família de categoria utilizada foi de papel social. Esse se refere, segundo Ciampa (1987), a funções sociais estáveis presentes na sociedade que trazem determinadas atribuições e características para as pessoas.
Os papéis sociaissão as bases para existência da identidade e dos personagens. Os personagens – uma família teórica, mas que é constituída de categorias indutivas pelos personagens que podem aparecer na análise – são as concretizações dos papéis sociais na história de vida dos atores sociais, portando caráter singular por serem construções únicas da pessoa em virtude da trajetória histórica, social e pessoal de cada ser humano. Outra família de categoria é de reconhecimento, segundo Lima (2010), que se refere a forma como os outros e a sociedade percebe a pessoa como situada em determinado personagem. O reconhecimento pode ser perverso ou emancipatório17. Este identifica a pessoa como digna de ser respeitada e constituída de potencialidades. Aquele significa a forma opressora que o indivíduo é identificado pelos outros e pela sociedade.
Dessa maneira, as famílias de categorias utilizadas para compreensão dos sentidos produzidos na pesquisa são: personagem, papel social, cenário e reconhecimento. Riessman (2008) fala que a análise temática da narrativa, geralmente, se estrutura a partir de uma complexa fundamentação teórica para compreensão de um determinado fenômeno social,
objetivando lançar um novo olhar sobre aquele processo social, pois a utilização de “teorias
16 A família representa uma categoria central que porta várias diferenciações que são referentes a ela. Por
exemplo, há a família do papel social que porta as categorias do papel social de sujo, do papel social de vagabundo entre outros.
17
anteriores servem como uma fonte de interpretação das narrativas faladas e escritas” (RIESSMAN, 2008, p. 73)18. Apesar de algumas categorias de análise serem dedutivas devido ao aprofundamento das bases teóricas relacionadas à pobreza, à identidade e à situação de rua, como também com o contato com o campo, isso não poda a perspectiva aberta da análise da pesquisa. Segundo Gibbs (2009) e Riessman (2008), análises preliminares são possíveis no decorrer de realização da pesquisa. No entanto, a abertura para novas categorias é imprescindível para uma análise adequada dos sentidos do processo de investigação.
Dessa maneira, o foco da análise é o conteúdo encontrado tanto nos diários de campo,
como nas Entrevistas Narrativas, pois a “atenção primária é sobre ‘o que’ é dito, ao invés de ‘como’, ‘com quem’, ou ‘para quais propósitos” (RIESSMAN, 2008, p. 53-54)19
. Assim, utilizo a análise temática da narrativa em que, segundo Riessman (2008), os sentidos produzidos em pesquisa são teorizados a partir da criação de categorias em que as histórias de vida e os diários de campo ultrapassam o nível individual, possibilitando a criação de características referentes a grupamentos coletivos.
Para criação dessas categorias e realização da análise temática, foi utilizado o software Atlas.ti 5.2 de análise qualitativa de dados. Segundo Gibbs (2009), o uso dessa ferramenta facilita a realização da análise, pois permite os registros do processo de construção da análise e o acesso fácil e prático dos sentidos elaborados na pesquisa a partir da criação de categorias. No entanto, apesar da facilidade proporcionada pelo software, as análises foram realizadas por mim com colaboração das estudantes de graduação em Psicologia que estavam cooperando na realização da pesquisa. O Atlas.ti, então, para Gibbs (2009), administra as códigos criados na pesquisa e seu acesso junto com os textos referentes ao material empírico, nesse caso os diários de campo e as entrevistas narrativas. Além disso, oferece formas de buscas sofisticadas e construções de relações entre códigos, desenvolvendo análises mais sistemáticas e aprofundadas.
Assim, de forma prática para realização da análise temática, as Entrevistas Narrativas foram transcritas. Essas transcrições junto com o arquivo dos diários de campo são utilizadas para realização de análises no Altas.ti. Os trechos das transcrições das entrevistas e dos diários de campo são codificados a partir das categorias dedutivas, como igualmente possibilitam a criação de novas categorias indutivas.Gibbs (2009) baseado na teoria fundamentada afirma essa primeira etapa representa a codificação aberta em que o material é
18“prior theory serves as a resource for interpretation of spoken and written narratives” (REISSMAN, 2008, p.
73)
19“primary attention is on ‘what’ is said, rather than ‘how’, ‘to whom’, or ‘for what purposes” (REISSMAN,
lido de forma reflexiva e é iniciada a análise. Na segunda etapa de categoriazação axial, as
categorias criadas são “refinadas, desenvolvidas e relacionadas ou interconectadas” (GIBBS,
2009, p. 72). Por fim, há a análise das relações entre as categorias existentes a partir de uma categoria fundamental representando a codificação seletiva. Neste trabalho, a categoria central de prisma de análise para as outras categorias foi a pobreza.
Reissman (2008) fala que as informações compreendidas a partir das categorias criadas são influenciadas pela postura do pesquisador, pela fundamentação teórica utilizada, pelos princípios éticos da pesquisa, pelo processo de construção e de realização investigação e pelos sentidos produzidos pelos sujeitos da pesquisa que criaram uma específica compreensão do fenômeno estudado.