Fotograma 16 – Paisagem constante do filme
A equipe já está em sua comitiva buscando imagens do interior amazônico. A paisagem é usada como fundo para uma ambientação, (fotograma 16) mas também como indicação de que a embarcação já está em meio à mata. Não há mais caminhos trilhados, nem civilização mais próxima que a cidade chamada Benjamin Constant, próxima a Tabatinga. A estrada do local é o rio – por isso, dentre outros motivos da grande presença da água no território, a teoria de Evandro sobre a ―civilização aquática‖. Na viagem a embarcação encontra Manoel, um peruano, com sua esposa índia. Conversam ele e Evandro, sobre mitos da região, tal como El Cavalo Cocho, vilarejo e praia do Amazonas.
Mais adiante, após o banho matinal de cuia no rio, encontram a ―célebre fábrica de compensados dos irmãos Mansur‖, empresa peruana poluente e ilegal. Um representante da firma explica em uma entrevista que há uma enorme preocupação com a vida dos caboclos que trabalham no local. Os menores, por exemplo, trabalham por uma questão ―humana‖, pois muitos deles ajudam a sustentar a família com o ordenado que ganham. Muitos deles que perderam, inclusive, seus pais, por mordidas de cobras e demais acidentes. Ali se vê uma reminiscência do, se não o próprio trabalho escravo sendo admitido pelo Estado do Amazônas (sic), como se vê na placa de alvará concedido à empresa.
No exemplo do confronto que ainda não é explicitado em teorias, já que não se caracteriza nem como conflito de classes, nem como de etnias, uma história é contada à câmera de maneira distante de qualquer sensacionalismo incitado pela construção da ironia aqui codificada. Uma família de caboclos mostra restos de um crânio encontrado de um de
seus parentes que trabalhava na madeireira. Há pouco tempo ele sofrera um ataque de índios selvagens, descrito, da seguinte maneira, com o som de um rádio ligado ao fundo em uma emissora cristã:
Aconteceu que ele subiu pra cima pra trabalhar a madeira, aí chegou lá em cima o patrão deixou na beira pra pescar. Essa parte foi que pegaram ele, cacetaram com um cacete, os índios, quebraram a cabeça dele, rolaram o pescoço e levaram o corpo arrastando. Aí, enterraram os pedaços. Aí o patrão dele quando chegou foi lá cavar os pedaços, cavou e trouxe. E o corpo deixaram lá enterrado na mata. Ele trouxe esses pedaços da cabeça do rapaz, para mostrar pro pai pra não dizer que era mentira. Foi entre o Javari e o Lamerão, e a Atalaia do Norte.(sic)
Segundo o que se acreditava no local, mexeram com os índios e eles ficaram ―bravos‖. A situação é mais complexa, e não se acha prolongada pelo filme. Mas entende-se que há uma selvageria implícita de extrema violência que não pode ser gravada pela câmera, a não ser em suas bordas. Principalmente levando-se em conta que essa violência vem de uma ―virgindade‖, qualidade atribuída à mata, desde a ficção ao documentário aqui analisados – de uma provável ingenuidade dos chamados ―selvagens‖ e ―primitivos‖. Povos que vivem no interior dessa mata ―virgem‖ não existem para o imaginário dominado pelos anunciados cristãos. Deste modo, pouco se sabe da revolta indígena contra a cultura européia ocidental, fato que chega a ter relevância constatada, mesmo na paródia levantada pelo modernismo da
antropofagia. Em uma seqüência que é próxima à descrição da tortura e do terror revidado
por parte de índios selvagens, a discussão fica mais clara, pois se observa a educação como um dos agentes principais da modernidade, mais propriamente remetendo-se ao iluminismo enciclopédico, ou mais próximo da incivilidade romântica como a de Rousseau, imbricação de uma nova colonização. Ainda que, nos termos atuais, a educação por intermédio de uma cultura global possua a carga política de séculos, a vitalidade desta, hoje, está no âmbito da difusão midiática de fenômenos tidos como exóticos, diferentes, culturas regionais, ou esquecidas. Tal é o tema dos filmes aqui observados, mas principalmente do documentário.
Momentos de confronto, ou encontro, entre a equipe e a realidade local são a constante. Evandro discute com uma professora, cabocla como ele, Mara, sobre a urbanização da cidade que despreza as árvores em sua apresentação, no espaço em frente ao afluente. O vereador de Benjamin Constant teria derrubado 50 castanheiras, algo proibido por lei. Neste momento David Pennington e seu Nagra aparecem no enquadre de corpo inteiro, finalmente, na mudança radical a um cinema verdade, que é influência forte em Bodanzky. Uma cruz é vista, nesta sacada, deixando claro que, com a civilização, vem também a religião que a
incentiva. A crueldade, portanto, devém da realidade filmada de uma maneira sutil, tal como uma piada de mal gosto que certas vezes constrangem um grupo de amigos – neste caso, os amigos são aqueles que crêem no dispositivo arranjado pelo filme em demonstrar tal realidade. O quesito paródico toma proporções, tal como em Iracema..., absurdas, levando aquela crença ao deslocamento e descrédito do personagem que milita por melhores condições do território filmado. Neste ponto está, de um lado, a representação de uma modernização que confirma dando outros traços à civilização, inclusão social, abarcamento de localidades marginalizadas, de culturas esquecidas. De outro, a crítica feita pela ironia proposta pela equipe, que alonga a discussão sobre essa modernização com aparência política clara. Tião Brasil Grande, herói de Iracema..., então, tem sua ligação, ainda que distante, com o Senador Evandro, assim como nós, espectadores distantes das comunidades ribeirinhas, também a temos, na nossa proposta concordada de promover, ceder, imaginar uma ética do progresso ao arcaísmo violento.
Já na pequena cidade, Benjamin Constant, Evandro chega a um senhor em frente a um pequeno estabelecimento comercial e pede para que aquele leia um panfleto de campanha que está distribuindo. O senhor é um semi-analfabeto, e lê com extrema dificuldade. No panfleto, a citação direta à Bertolt Brecht, ainda que involuntária, em certa medida: ―O pior analfabeto é o analfabeto político‖. Na cidade, acompanhado por uma comitiva (inclusive a câmera e a equipe), algo do populista Vieira, desempenhado por José Lewgoy, político de Terra em Transe, é trazido pelo filme. A diferença da paródia do populismo está na procura de votos de Evandro em lugares em que não existem eleitores, ou prováveis eleitores. O território filmado é esquecido até mesmo em uma ansiedade por democracia, entendendo esse sistema como um modelo que o ocidente achou para a tal inclusão de direito, que todos possuem pela Declaração dos Direitos Humanos, esta que é veementemente citada na ideologia da Nova Ordem global do real terceiro milênio.
Já em uma localidade que foi um dia uma aldeia tikuna, percebe-se, no filme, uma miscigenação inigualável. Um caboclo mostra à câmera uma máquina de farinha, tecnologia tradicional de sua comunidade, e propõe a discussão a seus modos: ―o que os índios ganharam com essa invenção? Agora é necessário pedir máquina de luz elétrica para o povo, para ficar melhor a ‗vida tikuna‘‖. Vê-se que o grupo dos tikunas, ou ex-tikunas, são pacíficos, e dialogam diretamente com a entrevista proposta pela equipe. Entendem que, economicamente, a farinha que produzem é muito barata, e discutem com sotaque de ―outro país‖ – a nação
Tikuna. De repente, mais uma vez, o personagem do filme aparece em um discurso altissonante direcionado aos caboclos, (fotogramas 17 e 18) mostrando a força pedagógica que possui a pretensão política do Senador. Evandro diz: ―Eu não estou prometendo nada. Estou aqui para ouvir as reivindicações de vocês: o que vocês precisam?‖ Um dos índios responde: ―Nós precisamos, principalmente, de uma escola‖.
Fotogramas 17 e 18 – A pedagogia de convencimento dos índios
―É preciso que nós saibamos ler tudo, assim como vocês‖ – é a frase do tikuna, que compreende o processo civilizatório não só através da intuição, mas com o entendimento necessário de uma política do diálogo ainda nascente. O mesmo índio consciente da falta de desenvolvimento, ou falta de estrutura do local, explica da seguinte forma o que ele tem notado em sua comunidade:
Diz ele que vai dar escola, vai dar escola – ih... vai passando, e já tá com mais de 20 anos aqui agora e não tem nada. Não se vê nada, só conversa. Conversa dos homens, assim como agora que vocês chegaram aqui, contam muitas coisas, que isso vai divulgar, vai ajudar, vai ajudar os povos, vai dar tudo o que precisa. Mas agora, sem nada, como é que se pode? Porque são muitos homens, comerciantes, que trabalharam em terrenos do índio tikuna, invadia com tudo o que tem aqui, a riqueza do mato, do Brasil, né? Seringa, tudo isso. E vai se acabando, tão dizendo que a terra não é de ninguém, né. Diz que nós não temos nada, não temos direito – e quem tem direitos são eles. Pagando o pessoal pra trabalhar, juntando o pessoal pra trabalhar, então nós não temos o direito. Porque nós não temos documentos pra isso. E nós precisamos, ter documentado toda nossa terra.(elipse) Ali, primeiro, igreja (palavra incompreendida). Ali é católica. Ali é da cruz, Santa Cruz, ali. (sic) 183
Evandro volta com sua dádiva a ser trocada pela conformação da tribo aos preceitos da cultura hegemônica do Brasil, que é a ocidental, portuguesa, expressa por sua língua e escrita.
183 As declarações dadas pelos índios são todas adaptadas, de certa maneira, ao texto do trabalho. Em vista do
sotaque muito carregado, algumas palavras são trocadas, dando a entender que a língua falada por eles, no caso aqui os tikunas, não é o português. Portanto, cabe apenas à gravação das imagens e sons do filme para uma melhor percepção do recado.
Ele dá, então, um livro a quem souber ler (português). Lembremos que é uma escola o que os tikunas reivindicam. O índio lê, dificilmente, o seguinte: ―Senhor presidente, senhores senadores da república. A história se repete. Ela tinha que se repetir, pois o homem, inegavelmente, do ponto de vista psíquico pouco evoluiu nestes últimos 300 anos. A história tinha que se repetir.‖184
―Quem souber ler ganha livro. E os senhores têm que estudar, pra quando eu voltar aqui par‘o ano (próximo ano) saber ler o livro‖. Num falso corte vê-se o índio tentando conversar com o Senador, que não compreende nada da língua tikuna. Evandro então reclama ao povo tikuna que pague Paulo, o índio que sabe ler, para ensinar para todos de uma maneira que não necessitem da FUNAI, nem de qualquer apoio do Estado nesse quesito. Os índios discordam, pois não possuem dinheiro para pagar, e logo perdem qualquer credibilidade no personagem político que chega pregando a melhoria em seus livros – que não são lidos pelo seu público alvo. Caçoando de Evandro, os tikunas dizem ―já vai pra Brasília, né? Vai pra Manaus, ganhar muito dinheiro – e nós? O que vamos ganhar? Hein? Tá bom, vida do pobre é assim. É isso que eu falei para o ‗Senador‘‖. A imagem que se vê, ao ouvir as frases, é do barco saindo em retirada.
Lutzenberger, então membro da expedição como um visitante e ecólogo, pergunta a alguns antropólogos locais como os tikunas, tão críticos da comitiva, encaram a sociedade branca. A discussão é a mesma que tentamos focar aqui, no quesito da chamada hibridização, mistura, que nunca é feita sem que haja uma disputa entre culturas. Segundo os antropólogos, alguns índios encaravam como xingamento o nome ―tikuna‖, já que a sociedade que todos tinham como ideal era a branca. A razão para essa espécie de colonização não significa uma submissão da parte dos tikunas. Não todos, mas boa parte dessa nação aparenta, no filme, querer deixar as tradições milenares de sua cultura. Eles, aliás, não são índios, tal como vê a FUNAI – são Tikuna, uma comunidade, tribo antiga, com muita complexidade de costumes, além da língua distinta. A ilustração intensa do processo de colonização, da troca desigual (mas não combinada) ainda persistente nos tempos da Nova Ordem, Nova Era, ou do terceiro milênio que se prenunciava, anuncia-se, no filme vérité, como uma ―boa nova‖, sem argumentos ao se confrontar com as imagens de miséria do interior da selva.