Para a eletrificação do país foi elaborado um plano de construção de barragens. A concretização realizar-se-ia graças ao concurso
de gente heterogénea: engenheiros inspirados na ideia de modernização do país e trabalhadores e suas famílias em busca de
sustento.
A obra, lugar de reciprocidades e ponto de chegada, constitui-se como território de agencialidade. No estaleiro, o trabalho reconfigura símbolos.
Elabora-se outra paisagem. As máquinas, o betão, a luz artificial, apresentam-se como ruturas nas rotinas do planalto mirandês. Uma cidade iluminada é o aspeto que tem o estaleiro de uma barragem. Ferros, andaimes, gente
Figura 26 Pormenor da construção da barragem. Fotografia cedida pelo engenheiro Pereira dos Santos.
Figura 27 Construção da barragem do Carrapatelo, fotografia cedida pelo engenheiro Pereira dos Santos.
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empoleirada, jeeps, camiões, gruas. A barragem modifica a paisagem, as relações intersubjetivas, a linguagem.
À pólvora que destruiu o cachão da Valeira no tempo do Marquês de Pombal, seguem-se agora os trabalhos de construção de ensecadeiras, e de túneis diante do espanto das populações locais, habituadas a um rio indomável e ruidoso, contornando as arribas. A este espanto das pessoas seguir-se-á um sentimento de admiração pela obra e pelos seus protagonistas.
A construção das barragens Picote, Miranda e Bemposta permite o uso controlado da força contida no rio. Agora é o conhecimento técnico que se constitui como alavanca de progresso e dominação.
Ferreira Dias, no discurso que proferiu por ocasião da inauguração da primeira barragem do Douro internacional24 estabeleceu uma analogia com a gesta da expansão quinhentista para evidenciar a importância da indústria e da eletrificação para o país.
Desde o século XIX que as máquinas eram antropomorfizadas: as “gruas com mãos, as fornalhas que gritam, o aço fundido que ruge, a “mãe industrial” que faz nascer o aço, a fábrica que se compara a um corpo de mulher” (NYE, 1994:133). Nas narrativas recolhidas e nos livros de memória barragista encontramos alusões semelhantes, atribuindo-se nomes aos camiões e introduzindo elementos da linguagem de todos os dias nas alcunhas dos trabalhadores. A descrição das máquinas decorre da sua função e duma analogia feita com o corpo humano.
Nas suas narrativas, a eletricidade e a luz conferem novas significações às rotinas diárias. Não havia Natal, nem fins-de-semana, havia a obra, os seus ritmos e necessidades. Os hábitos dos locais de origem dos trabalhadores misturavam-se em novas rotinas marcadas pelo calendário da construção.
Esta comparação evidencia o sentido global e globalizante das construções sociais e simbólicas que emergem em torno da era tecnológica moderna, e da emergência de novas representações nas sociabilidades que em torno das grandes obras se constroem.
24http://www.fmsoares.pt/aeb_online/visualizador.php
nome_da_pasta=06535.073.16237&bd=IMPRENSA Notícia da inauguração da Barragem de Picote, em 19 de Abril de 1959, Diário de Lisboa. Acedido em 17 jan 2015.
http://www.fmsoares.pt/aeb_online/visualizador.php
bd=IMPRENSA&nome_da_pasta=06535.073.16237&numero_da_pagina=17
Discurso do Ministro das Obras Publicas, engenheiro Arantes de Oliveira, e o Presidente da Hidroelétrica do Douro, engenheiro Paulo Marques. Acedido em 17 jan 2015.
http://www.fmsoares.pt/aeb_online/visualizador.php
bd=IMPRENSA&nome_da_pasta=06535.073.16237&numero_da_pagina=28 Discurso do Ministro da Economia, Engenheiro Ferreira Dias. Acedido em 17 jan 2015.
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De um modo geral, o sentimento de pertença e o sentimento do sublime pareciam ser comuns às diferentes narrativas dos barragistas, quer se reportassem a operários e trabalhadores indiferenciados, quer dissessem respeito aos engenheiros e técnicos envolvidos nas obras do Douro internacional, em especial a de Picote, por ter sido a primeira.
Elementos como a ponte pênsil que primeiro ligou as duas margens do Douro para servir as obras, são recorrentes nas histórias contadas em Picote ou em Lisboa. O aço, material do futuro, liga os homens ao mundo e só apresenta segurança para quem sabe da sua resistência: havia quem não conseguisse passá-la, tal era o abismo que atravessava. A produção memoralística destinada a resgatar um passado em que os narradores foram atores, critica o presente, visto como negação de progresso, destituído de visão de futuro. O tempo é assim construído tendo por referente esse lugar de utopia, e de força técnica. Tive vários encontros com Henrique Pinto. No seu testemunho escrito (que seria publicado em 2012), procura destacar os elementos essenciais à identidade dos barragistas. É um livro de memórias, escrito na primeira pessoa, onde a obra dos homens adquire particular importância, bem como a sua ligação às barragens, que começa quando o seu pai se desloca para a obra de Picote. Desta forma, a narrativa de Henrique Pinto faz remontar essa ligação à infância, à saudade do pai que partiu:
Eu ainda não conhecia a Barragem de Picote e já me demorava, repetidas vezes, a olhar para um pequeno troço de cabo de aço em exposição na montra dum estabelecimento comercial da cidade do Porto. (…) Naquele tempo eu, imberbe adolescente, sentia uma especial atração por aquele objeto, frio, imóvel, sem vida, mas que se deixava penetrar para lá da sua fria materialidade, levando-me até junto do meu pai, que desde há tanto tempo andava sozinho naquelas tão longes terras, albergado em casa da senhora Mariquinhas, a ganhar o pão para a sua prole. (...) Não passou muito tempo e lá estava eu na Ponte Pênsil, a ver e a apalpar os cabos que a constituíam, a atravessá-la, a sentir o seu baloiçar com o movimento que lhe transmitíamos. (…) Os desfiladeiros que ela unia eram tenebrosos. As águas do Douro, num resmungar zangado naquela funda e apertada garganta, impunham um respeito religioso que ninguém violava. (…). Hoje, no Porto, naquela montra, já não está aquele bocado de cabo de aço. Agora, estão cabos e cordas de nylon (PINTO, 2012:30).
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O cabo de aço, exposto numa loja do Porto representava em primeiro lugar um elemento de ligação do jovem adolescente ao seu pai, que trabalhava já no descasque da barragem de Picote. Simbolicamente, a ponte Pênsil que unia Portugal a Espanha correspondia a uma ligação (entre Portugal e Espanha, entre o pai e o filho), a uma evasão e a uma vitória, uma conquista de duplo significado: a dominação do “Douro zangado” (Henrique Pinto), “esse senhor” (Fagulha Vaz), prova de coragem a que todo aquele que enfrenta a natureza se deve submeter.
O respeito, (quase de índole religiosa) pelo rio era referido para sublinhar o domínio humano. Os “desfiladeiros tenebrosos” unidos pela ponte reconfiguravam uma nova identidade de união entre a obra e a origem, matriz emocional que a memória evocava (a ponte que une pais e filhos e as gentes ao seu mundo).
O espaço ampliava-se para as regiões inóspitas onde o desconhecido é ao mesmo tempo destino e conquista. O território na memória identitária é assim o do trânsito. É no Porto que está o cabo que simbolicamente une o passado ao futuro. A obra é o espaço de interação social daqueles trabalhadores migrantes. O tempo idealizado pela memória do narrador, coloca no centro um ideal de progresso jamais superado. Ideal que exigiu sacrifício e trabalho, mas que representou um ponto alto ao qual se seguem as cordas de
nylon dos tempos modernos e a evocação, nessa montra do Porto, de um passado, de uma
saudade. Passado e saudade cujo sentido é construído pela obra, não a de Picote em particular, mas a obra, elevada a categoria central das reciprocidades subjetivas e da construção identitária do barragista. No seu testemunho, a designação barragista não pertence só aos marteleiros, nem aos engenheiros. Aqui, as mulheres, os feirantes, as prostitutas, todos os que de algum modo estão, direta ou indiretamente associados à obra, passam a fazer parte dessa comunidade.
A descrição da inauguração da barragem de Picote expressa admiração e sentimento de pertença, utilizando imagens poéticas, onde a ironia se mistura com o respeito pela obra feita:
Foi aquele momento único em que o orgulho de agente ativo da coisa nos remete para o interior de nós mesmos, para o gozo do dever cumprido e para a saudade daqueles que mais mereciam estar presentes e que a vida, no seu contínuo caminhar, afastara de nós! (...) Libertado o perímetro de segurança às entidades oficiais e aos cerca de 600 convidados oficiais, tínhamos tudo à disposição para ver e contar uns aos outros, como se fora a primeira vez que nos víamos e a primeira visita a um local que nos era tão familiar! Depois de
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petiscar e conviver no Refeitório, muitos de nós íamos em grupos, estrada abaixo, ao jeito de quem sabe que não vai a nada, mas a dizerem-se uns aos outros e de si para consigo mesmos: - Vamos ver a obra! E não é que a Barragem se nos apresentava num esplendor de simplicidade radiosa? Que nela parecia ter-se inspirado a elegância da toilette azul celeste, daquele dia, da esposa do Sr. Arquiteto Paula, assim ao jeito de anunciar a vinda dum mundo novo para a gente desta Terra sofrida? A Barragem era agora, para nós, a materialização da esperança numa vida melhor. Olhávamo-la como se olha o inocente encanto do olhar duma criança. (...) E, no fim da jornada, todos regressaram a casa. Todos mas não tudo. O Packard do Senhor Ministro das Obras Públicas ficou connosco, com avaria da sua caixa de velocidades automática, para ser removido dias depois, em cima dum camião, como se fora o símbolo dum mundo velho em inexorável mutação (PINTO, 2012:76).
A inauguração é um momento ritual. A narrativa é construção de memória: a evocação dos mortos, o início do funcionamento da barragem protagonizado pelo chefe de estado que sanciona o caráter nacional do projeto, a bênção da igreja, a festa popular que se segue ao momento solene, onde todos celebram a grandiosidade da obra.
Figura 28 Fotografia cedida pelo engenheiro Pereira dos Santos.
A inauguração confere assim sentido ao sacrifício e à existência. Inaugurada, a obra torna- se nova – em muitos momentos o narrador evoca essa estranheza perante a obra feita e a necessidade de a ela voltar, “só para ver, como se nunca a tivesse visto”. A toilette azul celeste da esposa do engenheiro, une a obra e o homem, num sincretismo de natureza estética e existencial. A supressão do tempo ante a inauguração explicita-se na visita à
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obra. E as máquinas, essas, acompanham as diferenças de classe: o Packard de mudanças automáticas do ministro avaria-se, sintoma de uma tecnologia externa a essa identidade da obra – é o camião que devolve o Packard ao seu lugar, fora dos elementos materiais de construção de sentido.
O trabalhador faz parte do coletivo anónimo que aprecia a objetivação celebrada naquela inauguração. Porém, diferentemente do imaginário americano abordado por Nye, o
“sublime natural”, (onde o rio Douro e as fragas constituem as representações mais
recorrentes), mistura-se de forma contraditória com o impacto da técnica. Os relatos sobre a força e a beleza do rio misturam-se com a beleza da água expelida pelas turbinas. Aqui não há diferença entre a obra, a natureza e a vida.
Figura 29 Fotografia cedida pelo engenheiro Pereira dos Santos.
A comunidade constitui assim um território simbólico, onde o lugar na estrutura é definido pelos sentimentos de pertença e pelas mediações externas: do estado, da natureza e dos seus lugares de origem. O trabalho é o locus de onde irradia o sentido de pertença. A circulação dos livros e textos que se escrevem perpetua a memória identitária. Os artigos, livros e crónicas têm a nota comum de contar, ou recontar o que se passou naquele
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tempo em que à construção da obra se juntava a juventude, a constituição da família. Quer os textos apresentem relatos do quotidiano da construção da obra, ou memórias de infância, eles têm em comum esse espaço de trânsito, efémero, onde as sociabilidades decorrem da obra e nela se estruturam.