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As categorias de análise da construção da referência, para o universo de pesquisa por nós investigado, participam da quebra de expectativa sobre determinados personagens. O resultado da rede de relações construídas entre tais categorias configura dois processos básicos de (re)elaboração: apresentação e mudança; este último pode se efetivar por acréscimo, por correção e por confirmação. Vejamos as definições para cada uma dessas possibilidades.

O processo de apresentação diz respeito à maneira como um dos referentes escolhidos se manifesta na primeira vez em que aparece. Obviamente, esse processo só ocorre uma vez. Contudo, ele é absolutamente essencial para que os demais processos efetivem suas funções.

O processo de mudança engloba todos os acréscimos feitos aos referentes, os quais possibilitam a percepção de que tais referentes modificam o estatuto de sua significação ao longo do texto.

A mudança por acréscimo contempla os casos que imprimem modificações aos referentes escolhidos. Para cada um dos textos, temos elementos centrais que orientam a condição dos personagens. Esses elementos centrais, após apresentados, sofrem acréscimos que modificam sua situação inicial, mas que, diferentemente da correção, não promovem uma ruptura em relação à compreensão que até então tenha sido feita.

Adiantamos já aqui um exemplo dessa situação. No conto ―Obscenidades para uma dona de casa‖, o próprio título já fornece a apresentação da protagonista: ela aparece como

uma dona de casa que entra em contato com obscenidades. Posteriormente, vemos que essa dona de casa é, entre outras coisas, ansiosa e preocupada com o julgamento dos outros. Temos, nesses casos, mudanças por acréscimo. A personagem passa por uma modificação do seu estatuto, mas essa mudança ainda não é radical.

A mudança por correção consiste nas transformações diretamente envolvidas no efeito de surpresa e/ou, eventualmente, nas mudanças no estatuto dos personagens as quais se orientam em sentido contrário ao que se vinha construindo até então. Claro que as correções também são mudanças por acréscimo, mas, nesse caso, a modificação tem a função específica de corrigir a construção referencial, a fim, principalmente, de que a nova formulação cause impacto no interlocutor. Exemplos dessa etapa serão vistos nas análises.

A mudança por confirmação consiste na reiteração de algum traço do referente, que já havia sido apresentado anteriormente. Trata-se, portanto, de uma etapa em que é mantido o que já foi assentado por reelaborações anteriores. Embora, inicialmente, pareça paradoxal considerar que uma confirmação implique uma mudança, é importante ter em mente que a confirmação quase nunca é apenas uma mera repetição de características, mas, sim, uma estratégia de destaques necessários.

Parece-nos que a confirmação é um recurso essencial aos textos longos. No caso dos textos narrativos, a construção dos personagens e a verossimilhança que deve balizar suas ações carecem de uma ênfase em determinados traços. A cada vez que uma confirmação acontece, há um reconhecimento com alguma mudança, porque, por exemplo, a ênfase destacou algo que antes não vinha sendo ressaltado ou, ainda, uma mesma característica foi percebida a partir da ação do personagem em outro contexto. Se pensarmos que, mesmo nas narrativas em que não há quebra de expectativa, a evolução dos personagens pode passar por transformações radicais, podemos considerar que a confirmação tem a função de deixar ainda mais clara uma determinada representação para que, quando ocorrerem acréscimos e correções, os efeitos sejam ainda mais notados.

A estratégia de confirmação é normalmente desconsiderada pela literatura vigente, que prioriza a transformação (propriamente dita, que aqui achamos de ―acréscimo‖) do referente. Com o avanço decorrente dos estudos sobre a recategorização referencial, houve o forte interesse para a descrição do papel ―dinâmico‖ da expressão referencial, de modo que a inclusão do novo sempre foi o pilar da progressão referencial. Em tal descrição, não há espaço para se estudar, no que diz respeito à referenciação, o papel da confirmação no percurso textual. Nesta tese, defendemos que a confirmação é uma estratégia referencial tão importante quanto o acréscimo, e fundamental para que este seja plenamente significativo.

Isso confirma nossa ideia de que situações diferentes de investigação, como as possibilitadas pela análise de interação com textos longos, permitem outras formulações sobre o papel de recursos textual-discursivos intervenientes na produção e compreensão de textos. No rol dos textos longos, a confirmação ganha destaque e pode ser mais plenamente descrita como recurso de significação (não esquecendo, contudo, que ela não é exclusiva desse tipo de texto).

O panorama dos processos referenciais é importante na medida em que a participação da materialidade textual na construção da referência só pode ser plenamente compreendida dentro desse esquema, o qual pressupõe um projeto discursivo a ser empreendido pelo interlocutor. Não custa insistir: aqui, não se trata mais apenas do reconhecimento da posição de uma expressão referencial numa cadeia de recategorizações; trata-se, sim, de investigar a recategorização, mas num plano muito mais global e, ao mesmo tempo, mais condizente com o que realmente se leva em conta nas interações via texto.

Descrito o processo referencial característico de nosso universo de pesquisa, vejamos como ele se manifesta, nos textos, a partir do acionamento de certas estratégias textual- discursivas de referenciação.

5.2.1 Análise/discussão do conto

O conto ―obscenidades para uma dona de casa‖ tem como núcleo as ações, sensações e sentimentos de uma dona de casa que passa a receber cartas anônimas com conteúdo obsceno todas as segundas, quartas e sextas, deixadas por um carteiro na portaria do prédio dela. Na história, são personagens importantes, além da protagonista, o seu marido e o escritor das cartas. A seguir, apresentamos a construção desses três personagens, a partir do que se pode depreender da conjunção entre a materialidade textual e o aparato sociocognitivo.

A fim de propor uma descrição mais adequada da construção dos referentes escolhidos, definimos um código, em que destacamos tanto as categorias de análise quanto os referentes selecionados.

Categorias que participam da (re)elaboração do referente <dona de casa>: cor vermelha Categorias que participam da (re)elaboração do referente <marido>: cor azul

Categorias que participam da (re)elaboração do referente <escritor das cartas>: cor verde

Expressão referencial que incide sobre os referentes escolhidos: negritada

Sintagma adjetival (ou oração adjetiva equivalente), em função de predicativo, que contribui para a (re)elaboração dos referentes escolhidos: sublinhado

Construção linguística, mais ampla que a expressão referencial, que contribui para a (re)elaboração dos referentes escolhidos: sombreado de amarelo (cada construção recebe um número, que a identifica dentro da análise)

Expressão referencial que incide sobre objetos de discurso diferentes dos escolhidos: italicizada

Quadro 3 – Código das categorias utilizadas na análise do conto.

Vejamos um exemplo de como esse código é utilizado. A seguir, apresentamos o primeiro parágrafo do conto, com as marcações pertinentes.

(1)Três da tarde ainda, ficava ansiosa. (2)Andava para lá, entrava na cozinha, preparava nescafé. Ligava a televisão, desligava, abria o livro. Regava a planta já regada, girava a agenda telefônica, à procura de amiga a quem chamar. Apanhava o litro de martíni, (3)desistia, é estranho beber sozinha às três e meia da tarde. Podem achar que você é alcoólatra. (4)Abria gavetas, arrumava calcinhas e sutiãs arrumados. Fiscalizava as meias do marido, (5)nenhuma precisando remendo. Jamais havia meias em mau estado, ela se esquecia que ele é neurótico por meias, (6)ao menor sinal de esgarçamento, joga fora. Nem dá aos empregados do prédio, atira no lixo.

No trecho, todas as marcações em vermelho referem-se a elementos que contribuem para a configuração do referente <dona de casa>; tais elementos dizem respeito às expressões referenciais (os pronomes ―você‖ e ―ela‖, em negrito), aos adjetivos em função predicativa (―ansiosa‖ e ―alcoólatra‖, sublinhados) e às construções 1, 2 3 e 4 (sombreadas). As marcações em azul (mais uma vez, expressões referenciais, adjetivos e construções) dizem respeito aos elementos que contribuem para a construção do referente <marido>.

Em nossa codificação, o limite de cada construção inicia com a numeração e termina ou com o final do sombreado daquele trecho (como acontece com a construção 1) ou com o início de uma nova proposição (como se vê entre as construções 2 e 3).

Há casos em que uma construção ou uma expressão referencial que incide sobre objetos de discurso diferentes dos personagens escolhidos estão relacionadas a mais de um personagem. É o que ocorre com a expressão ―empregados do prédio‖. A proposição em que a expressão se encontra fornece um dado sobre o marido: sua preocupação com a qualidade das meias. Contudo, a expressão em si permite a elaboração sobre a classe social do casal (marido

e dona de casa). Nesses casos, para indicar que uma determinada categoria refere-se a mais de um personagem, optamos por usar uma mistura de cores (no exemplo, vermelho e azul).

O processo de construção referencial considerado por nós como pertinente implica perceber a apresentação e, principalmente, as mudanças por que passam os três personagens. A fim de percebermos como essa construção acontece durante a interação, optamos por, na análise do conto, apresentá-lo na íntegra. Com esse procedimento, cremos ser possível mostrar de forma mais fidedigna como se desenrola a construção referencial em um texto mais longo que os comumente analisados. Levando-se em conta, ainda, que a compreensão mais completa dos processos referenciais que sugerimos descrever (apresentação, acréscimo, correção e confirmação) demanda uma explicitação que extrapola em muito a menção a certa quantidade de excertos textuais, é imperativo, pelo menos nessa análise inaugural, uma descrição exaustiva.

Vejamos, então, como as (re)elaborações se manifestam, desde o título, onde se dá a apresentação da personagem principal, até o último parágrafo, em que a identidade do escritor das cartas é revelada. Para cada parágrafo, tecemos comentários sobre as mudanças mais pertinentes.

O título do conto apresenta a personagem principal – uma dona casa que entra em contato (―recebe‖) com obscenidades. Percebe-se, já aqui, que a construção do referente não depende apenas da expressão referencial que o designa; também o referente estabelecido pela expressão ―obscenidades‖ informa algo sobre a dona de casa. Considerando-se apenas o título, as obscenidades com que a dona de casa entra em contato não são especificadas: não se sabe se são palavras ditas, fotos ou filmes pornográficos, cartas... Isso confirma o que já afirmamos em outra parte deste trabalho177: para manifestar um referente, uma expressão não precisa explicitar uma entidade precisamente bem delimitada.

Reproduzimos o primeiro parágrafo, para analisar o processo referencial dos personagens escolhidos.

1º parágrafo178

(1)Três da tarde ainda, ficava ansiosa. (2)Andava para lá, entrava na cozinha, preparava nescafé. Ligava a televisão, desligava, abria o livro. Regava a planta já regada, girava a agenda telefônica, à procura de amiga a quem chamar. Apanhava o litro de martíni, (3)desistia, é estranho beber sozinha às três e meia da tarde. Podem achar que você é alcoólatra. (4)Abria gavetas, arrumava

177 Subseção 3.2.1 – ―A primeira tendência‖. 178

Na descrição aqui apresentada, nem todos os elementos linguísticos marcados recebem um comentário explicativo. Todos, contudo, equivalem à (re)elaboração de algum traço, conforme se pode observar nos apêndices desta tese.

calcinhas e sutiãs arrumados. Fiscalizava as meias do marido, (5)nenhuma precisando remendo. Jamais havia meias em mau estado, ela se esquecia que ele é neurótico por meias, (6)ao menor sinal de esgarçamento, joga fora. Nem dá aos empregados do prédio, atira no lixo.

A partir daqui, são feitos acréscimos ao referente <dona de casa>: ela é/está ansiosa (conforme explicita o adjetivo), espera por algo (construção 1) e procura ocupar o tempo com atividades rotineiras enquanto espera (construções 2 e 4); além disso, preocupa-se com o julgamento das outras pessoas (construção 3). Todos esses traços podem retornar como confirmação no desenrolar do texto.

Nesse mesmo parágrafo, é apresentado, por meio de expressão referencial, o referente <marido>, sobre o qual são feitos dois acréscimos: é bastante preocupado com o estado de suas meias (construções 5 e 6) e tem (e também a esposa) uma condição socioeconômica satisfatória/elevada. Observe-se que, até o momento, saber exatamente qual é a classe socioeconômica do casal não é relevante, de modo que, mais uma vez, atestamos que a precisão do referente ou de alguns dos seus traços pode não ser necessária; na verdade, em muitos casos, é exatamente a imprecisão que é buscada.

Já no primeiro parágrafo, observamos a produtividade das construções linguísticas para a construção do referente. A elaboração de que a dona de casa procura passar o tempo com atividades rotineiras é estabelecida pelo conjunto de orações que denotam prováveis ações da personagem. Não se trata, no caso, apenas de reconhecer os sintagmas nominais presentes nas construções; para estabelecer o traço referencial indicado, é preciso reconhecer o teor completo da informação.

2º parágrafo

Quatro horas, (1)vontade de descer, perguntar se o carteiro chegou, às vezes vem mais cedo. Por que há de vir? (2)Melhor esperar, pode despertar desconfiança. Porteiros sempre se metem na vida dos outros, qualquer situação que não pareça normal, ficam de orelha em pé. Então, (3)ele passará a prestar atenção no que o carteiro está trazendo de especial para a mulher do 91 perguntar tanto, com uma cara lambida. Ah, aquela não me engana! Desistiu. (4)Quanto tempo falta para ele chegar? (5)Ela não gostava de coisas fora do normal, instituiu sua vida dentro de um esquema nunca desobedecido, pautara o cotidiano dentro da rotina sem sobressaltos. Senão, (6)seria muito difícil viver. Cada vez que o trem saía da linha, era um sofrimento, ela mergulhava na depressão. Inconsolável, (7)nem pulseiras e brincos, presentes que o marido trazia, atenuavam.

A partir desse parágrafo, iniciam-se as confirmações. O traço referencial ―ansiosa‖ retorna aqui (construções 1 e 4), bem como o traço ―preocupada com o julgamento alheio‖ (construções 2 e 3). É possível perceber que as confirmações não são, de fato, meras repetições. Embora haja a manutenção dos traços, o contexto em que aparecem é diverso do anterior. Além disso, percebe-se que, no que toca à ansiedade, há um acréscimo propriamente