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Canção do álbum Gita, de 1974. Autoria de Raul Seixas e Paulo Coelho. Retirada do livro Raul Seixas: uma antologia (1992, pp. 166-167).

Viva! Viva!

Viva a Sociedade Alternativa! Viva! Viva!

Viva a Sociedade Alternativa! Viva o Novo Aeon!

Vivia! Viva!

Viva a Sociedade Alternativa! Viva! Viva! Viva!

Viva! Viva!

Viva a Sociedade Alternativa! Se eu quero e você quer Tomar banho de chapéu Ou esperar Papai Noel Ou discutir Carlos Gardel Então Vá

Faça o que tu queres Pois é tudo da lei Da lei

Viva! Viva!

Viva a Sociedade Alternativa!

Viva! Viva!

Viva a Sociedade Alternativa!

Todo homem e toda mulher é uma estrela Viva! Viva!

Viva a Sociedade Alternativa! Viva! Viva!

Viva! Viva!

Viva a Sociedade Alternativa! Mas se eu quero e você quer Tomar banho de chapéu ou discutir Carlos Gardel Ou esperar Papai Noel Então vá

Faze o que tu queres pois é tudo da lei, da lei Viva! Viva!

Viva a Sociedade Alternativa!

O número 666 chama-se Aleister Crowley Viva! Viva!

Viva a Sociedade Alternativa!

Faze o que tu queres há de ser tudo da lei Viva! Viva!

Viva a Sociedade Alternativa! Viva! Viva!

Viva a Sociedade Alternativa! A lei do Thelema

Viva! Viva!

Viva a Sociedade Alternativa! A lei do forte

Esta é a nossa lei e alegria do mundo Viva! Viva! Viva!

Viva a Novo Aeon!

Em 1974, o Brasil vivia uma ditadura militar. Na primeira metade dos anos 70, todas as manifestações culturais eram submetidas à censura prévia. Imagine, em meio ao regime militar, uma canção propondo uma Sociedade Alternativa, fundamentada nos escritos de Aleister Crowley, que tinha como principal regra “Faz o que tu queres”. Maffesoli (2001, p. 66), ao tratar das formas que compõem a socialidade, admite que

falar da sabedoria dos limites como resultado do jogo da diferença, mostrar aqui e ali que a complementaridade ou a troca são elementos estruturais da socialidade, ou ainda estimar que a aceitação do dado corresponde à expressão da atitude afirmativa, tudo isso não vem a ser a canonização de uma moral filistéia, composta antes de tudo de ressentimento contra aqueles que vivem sem preocupação com o dever-ser.

Com base nesse aspecto, podemos afirmar que a canção Sociedade Alternativa pregava uma maneira de viver mais libertária e menos comprometida com esse “deve ser”, ou seja, com questões, que de certo modo, correspondem à ordem estabelecida. Os seguintes versos exemplificam essa afirmativa: Se eu quero e você quer/Tomar banho de chapéu/Ou esperar Papai Noel/Ou discutir Carlos Gardel/Então Vá/Faça o que tu queres/ Pois é tudo da

lei/Da lei. Assim sendo, Maffesoli (1998, p. 9) coloca que

Quando já não se tem quaisquer garantias ideológicas, religiosas, institucionais, políticas, talvez seja preciso saber apostar na sabedoria relativista. Esta “sabe”, por um saber incorporado, que nada é absoluto, que não há verdade geral, mas que todas as verdades parciais podem entrar em relação umas com as outras. [...]

Thoreau (2008, p. 11) ao se referir à questão da desobediência civil, admite que “não é desejável cultivar pela lei o mesmo respeito que cultivamos pelo direito. A única obrigação que tenho o direito de assumir é de fazer qualquer tempo aquilo que considero direito”. Era basicamente essa filosofia que a canção Sociedade Alternativa pregava.

Segundo Raul Seixas, em entrevista44 ao jornalista Pedro Bial (Jornal Hoje, 1983), nessa suposta Sociedade Alternativa, a qual a canção se refere, haveria uma inversão de valores: “o advogado era o não-advogado, o policial era o não-policial e todos os valores eram trocados”. Essa frase de Raul Seixas nos faz pensar que a canção propõe uma ruptura com os padrões estabelecidos socialmente, o que pode ser percebido através dos versos: Viva! Viva!//Viva a Sociedade Alternativa!/Viva! Viva!/Viva a Sociedade Alternativa!

Maffesoli acredita que

é bem o “estar-junto” que caracteriza essas sociedades secretas, semi- secretas, iniciáticas das sociedades de companheiros. [...]. Tais práticas paroxísticas ou cotidianas escapam do “panoptismo” daquilo que podemos chamar o controle social, e é por isso que elas são sempre suspeitas aos olhos dos diferentes poderes (estatal, partidário, sindical, eclesiástico...). Uma sociedade autônoma é sempre perigosa, todos os poderes concorrem para limitá-la.

É contra esse “controle social” que a canção propõe uma recusa. Viver em uma Sociedade Alternativa na década de 70 era tentar fugir de um cotidiano marcado por censura e coerção política, pois nesse período ainda se vivia sob um Regime Ditatorial que se pautava na repressão e perseguição. Assim sendo, a canção Sociedade Alternativa questionava a ideologia dominante da época e expressava os anseios de uma população submissa a um regime autoritário. Desse modo, Maffesoli aponta que

ao lado da explosão de diversas ordens, que esburacam o tecido social, quando este se torna demasiado apertado, existem outras maneiras de desestabilizar o político, de mostrar a sua relatividade e o seu aspecto limitado. Pode ser a abstenção, a astúcia, a ironia, a inversão carnavalesca e

ainda muitas outras modulações (MAFFESOLI 2005, p.78).

Trazendo as ideias dessa canção para o contexto atual, podemos dizer que tentar romper com valores estabelecidos e procurar formas de viver paralelas a esses valores, mesmo não sendo tão comum nos dias de hoje, como foi nas décadas de 60 e 70, ainda é possível.

Esse aspecto nos faz pensar que na década de 60 e 70, buscar uma fuga era se relacionar com outras formas de viver que não escapava ao coletivo. Isso pode ser percebido na própria ideia da Sociedade Alternativa que propõe uma maneira de viver coletivamente a qual rompia com a ordem da época. O próprio nome Sociedade Alternativa tinha como base os princípios da coletividade.

Hoje, romper com o que é proposto pela ordem social, nem sempre sugere mudanças e, muitas vezes, trata-se de um rompimento caracterizado apenas por um distanciamento individual ou somente por uma fuga dos que criticam o que é dominante interrogando-se sobre as “modalidades que caracterizam a vida passante”. Porém, esse aspecto também representa uma ruptura. Nesse sentido, Maffesoli (1998, p. 20) afirma que

Quando o questionamento oriundo (por vezes sem palavras) do próprio corpo social se torna assunto permanente, quando a indiferença ou a desafeição pelas instituições se torna maciça, quando a revolta é tão pontual quanto impensada, em suma, quando o contrato social, a cidadania, a nação e até mesmo o ideal democrático não produzem mais nenhum eco entre aqueles que são seus supostos beneficiários, então é inútil pretender tapar as brechas com curativos.

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Outro ponto que se pode perceber é que o sujeito da canção ao propor uma Sociedade Alternativa não foge da ideia de anarquismo, na medida em que esta filosofia prega o direito do homem usufruir de toda forma de liberdade sem se submeter a nenhum sistema ou instituição.

Na canção, é possível identificar também uma relação com a contracultura, à medida que a mesma propõe uma forma de viver mais livre, uma maneira alternativa de romper com o sistema, um maior respeito às escolhas cotidianas, enfim, como disse o próprio Raul Seixas: uma nova maneira de pensar a realidade.

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