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NECESSIDADE DA VERDADE

O barco

Meu coração, não aguenta Tanta tormenta, alegria Meu coração não contenta O dia, o marco, meu coração O porto, não!

Navegar é preciso,

Viver não é preciso (Caetano Veloso)

Várias questões foram suscitadas pelo desenvolvimento da pesquisa. As ideias de Meltzer trazem uma visão do mundo interno, e por isto, começamos por elas.

Meltzer enfoca o mundo mental construindo a imagem de uma geografia, e segue com figurações deste que vão desde o interior de objetos que remetem a partes do corpo materno até espaços sem forma ou sem nome.

A figurabilidade pode ser algo que limita e que pode saturar ou dar aspecto excessivamente concreto a várias questões. Observamos, no entanto, que figurar e representar coisas num espaço é parte importante do aparato mental, tão importante que, apenas para citar um exemplo, sustenta manifestações artísticas desde os primórdios da humanidade. A capacidade simbólica é de extrema importância para a saúde mental e para o desenvolvimento do pensamento e, portanto, se as representações forem usadas de forma realmente simbólica e não concreta, a figurabilidade não será algo restritivo. Segundo Segal (1993, p. 68- 69), a verdadeira simbolização faz uso de elementos alfa, abertos a várias realizações, que se prestam à generalização, à abstração e à diferenciação. Ela diz, seguindo Bion, que quando há uma identificação projetiva normal, há um intercâmbio benigno entre coisa e representação, mas que se o continente tornar- se completamente identificado com a parte projetada ele desaparecerá e obstruirá a capacidade simbólica.

Ela acredita que “uma identificação completa entre continente e contido seja devida à inveja e à incapacidade de tolerar e depender do continente, de modo que a identificação completa torna impossível a experiência de sentir-se contido” (1993). Dessa forma, as ideias de Segal mostram porque a experiência de ser contido (e de verdadeira continência) não é possível num claustro, nem num refúgio e nem em qualquer organização patológica. Como neles existe uma tentativa de identificação absoluta com objetos onipotentes, a experiência de continência não ocorre, pois ela só é possível quando há, apesar da identificação, alguma diferenciação e tolerância a ela, o que envolve algum contato com a experiência depressiva.

Segal (1993, p. 62-69) também postula que as equações simbólicas tenham um rudimento de significado simbólico, muito primitivo. Ela acredita que a equação concreta seria um estágio transicional entre os elementos beta e alfa (Id. Ibid.). Estes se tornam impeditivos de crescimento se houver uma retenção nesse estágio. A essa altura talvez seja útil aventar a possibilidade de que formas autistas possam se aproximar lentamente de equações simbólicas. E a posteriori poderão se aproximar mais da simbolização mais evoluída, se a experiência de continência verdadeira estiver disponível. Seria uma passagem de uma pseudorrelação adesiva para uma relação através de uma equação simbólica, e daí, ainda dependendo de encontrar boa continência no objeto, caminhar para relações verdadeiras, as quais também se desenvolvem muitíssimo com a simbolização. Isso não implica que as pseudorrelações deixem de existir no universo mental, nem que a equação simbólica seja destino obrigatório para as pseudorrelações.

Mas isso também irá requisitar a possibilidade de se transitar entre as posições esquizoparanoide e depressiva. Vimos, porém, que se as angústias forem muito intensas, aliadas ou não à falta de continência por parte do objeto, isso ficará muito difícil. É nesse momento que Steiner aponta para a possível ocorrência de algum grau de fragmentação patológica, abrindo a possibilidade para a criação de um refúgio que será sustentado pela organização.

Se voltarmos ao exemplo da arte, veremos que mesmo que por séculos alguns padrões tenham sido impostos como forma de beleza, estes mesmos padrões (e outros talvez obscuros), ainda que fossem modelos a serem seguidos,

não puderam impedir outros processos e outras concepções sobre arte, muitos radicalmente diferentes do modelo e das regras. Isso nos lembra de que símbolos mantêm a abertura à mudança e à transformação, e que relembrando o caso de Mariano, a possibilidade latente de crescimento poderá ser mantida, e talvez ser retomada noutro momento de sua vida.

Penso que Meltzer, Rosenfeld e Steiner não têm seu valor diminuído por arriscarem-se a dar nome a situações mentais e mesmo representá-las com alguma figurabilidade, coisa que quem os estuda poderá perceber não ter a pretensão de serem verdades absolutas ou obstruírem o que possa vir a ser desenvolvido com, além, ou à revelia de seus conceitos. A utilidade de nomes e símbolos decorre, a meu ver, do enriquecimento e de oferecerem alguma seletividade à apreensão de coisas do mundo. Ainda que localize e circunscreva, permite a individualização e a possibilidade de reconhecer cada experiência, processo pelo qual a lógica aristotélica pode ter lugar, mesmo que ao lado da lógica simétrica. Como disse Aristóteles, o indivíduo, ainda que contido no todo, é que é o objeto que faz o cuidado e a cura (quando possível) terem sentido.

O esforço de Bion para demonstrar a importância de não saturar precocemente conceitos ou campos de conhecimento levou-o a propor conceitos abertos, como função alfa, reverie, transformações, etc., que mantinham espaço para mudanças, algo que faz lembrar a origem da palavra símbolo. Ela remonta ao nome das duas metades de um objeto de cerâmica que era partilhado entre duas pessoas e que, uma vez reunidas, lembravam um acordo de respeito mútuo que haviam feito e era uma forma de se reconhecerem e se aceitarem, mesmo que diferentes entre si.

Meltzer fala de uma região no espaço geográfico interno que ele chama de nowhere, onde ele pensa predominar o funcionamento psicótico. Talvez esta área possa ser pensada em conjunto com as aberrações assimbólicas do desenvolvimento, propostas por Mitrani. Pois para aquele autor, o nascimento de um bebê pode implicar em perder capacidades e aspectos (talvez funções) mentais, ou pré-mentais, que ele tinha no útero. Mitrani também aceita esta possibilidade, de modo que as deficiências da continência materna poderiam, junto à perda do ambiente uterino, envolver experiências insuportáveis, ou quase. No útero, alimentação, oxigenação e temperatura são automaticamente mantidas

pela placenta, e não dependem da ação complexa de um objeto externo. Ao nascer, essa dependência do objeto externo passa a ocorrer e o bebê é capaz de sentir fome, de respirar, de sentir peso e perde a capacidade para o bem-estar que havia no útero. O nowhere lembra o objeto obstrutivo (GROTSTEIN, 2010), com sua dificuldade de dar lugar a seus próprios conteúdos.

Por isso, além das fragilidades descritas por Tustin e Mitrani, que implicam na impossibilidade de tolerar separação física da mãe, ainda teríamos, segundo Meltzer, outras descontinuidades e perdas. Diante destas perdas e da dificuldade de estabelecer novas maneiras de viver, o desenvolvimento de formas autistas poderia ser propiciado e, também, o de organizações patológicas. Na ausência de um bom continente para nutrir psiquicamente o bebê e assim fazer a vida seguir seu caminho e seu sentido, as capacidades simbólicas e de pensamento podem ser prejudicadas.

Mitrani (2007) frisa em concordância com Grotstein, que o desenvolvimento psíquico e mental pode ser visto e concebido como ocorrendo em múltiplas vias simultâneas, paralelas e diferentes, como pistas ou raias numa quadra ou numa estrada. Bion também pensava que áreas neuróticas e psicóticas coexistem numa personalidade. Assim sendo, o fato de existirem fenômenos primitivos tipo autísticos não invalidaria a possibilidade de, em outras áreas da mente e da personalidade, existirem outros funcionamentos paralelos, como fenômenos psicóticos e/ou neuróticos. O próprio conceito de barreiras autistas e pseudorrelações objetais adesivas em pacientes neuróticos baseia-se nisso.

Na área psicótica nowhere, o funcionamento é dominado por elementos beta com traços de ego e superego (MELTZER, 2008, p. 61-62). Para Grotstein (2010) a própria estrutura do refúgio seria composta por uma tela beta. Essa área poderia atrair para si e aliciar outros fenômenos mentais primitivos, como, por exemplo, as aberrações assimbólicas e os núcleos autistas. Fenômenos ligados ao fracasso em tolerar a realidade e usar pensamento poderiam se aproveitar do uso alterado das relações objetais que ocorrem nas pseudorrelações objetais adesivas, as quais também provocam uma alteração do modo de se relacionar com os objetos e consigo mesmo.

Seguindo o raciocínio, uma criança que tenha ao nascer, deixado capacidades ou funções mentais no útero, e vier a sofrer por dificuldades no ambiente e falhas na capacidade de reverie da mãe, se for ainda sobrecarregada por mais privações poderia desenvolver formas autistas. Poderia, também, ao atravessar os conflitos entre ceder ao pensamento mágico da área psicótica e enfrentar as posições esquizoparanoide e depressiva, não suportar e desistir, cedendo ao pensamento psicótico. Nessa situação, uma organização patológica poderia crescer e, dependendo do momento, assumir o controle da personalidade.

Defesas mais primitivas podem seguir com pouca mudança e permanecerem camufladas, coexistindo com áreas evoluídas e, juntamente com estas, serem aliciadas como propõe Steiner, pela parte perversa de uma organização patológica. As áreas mais primitivas não teriam recursos para se opor a isso.

Rosenfeld (1988), como Tustin (1990), acreditava que algo semelhante a um processo osmótico poderia ocorrer e emoções maternas poderiam transbordar para o feto, que não teria como escapar disso. Tal situação poderia se ligar ao desenvolvimento de organizações patológicas, pois a falta de continência e reverie maternas podem ter consequências desastrosas para um bebê. O transbordamento sugere que experiências ruins também poderiam ser transmitidas ao bebê, causando para ele maior dificuldade de manejo com a posição esquizoparanoide, e levando a uma catástrofe precoce (BION, 1988; GROTSTEIN, 2009, 2010). Nessa catástrofe também entram as dificuldades maternas de acolher as projeções de seu bebê.

Algumas situações que podemos perceber como uma distorção da realidade, e que parecem perversas, talvez possam ter sustentação não somente no mecanismo perverso (STEINER, 1997) em si, mas também em mecanismos autistas (MITRANI, 2007) os quais, por sua discrepância para com relações de objeto normais e/ou mais complexas, podem dar a impressão de serem perversos, mas residem na tentativa de estabelecer pseudorrelações adesivas com algo inanimado que provê uma segurança sem meandros humanos e, portanto, sem risco de perda.

A reiteração de privações pode também levar a isso, uma vez que repetir obsessivamente atitudes ou formas autistas, idiossincrásicas (TUSTIN, 1990), que dão suporte ignorando a realidade, pode provocar um afastamento da relação real com objetos, que, num âmbito mais amplo, pode ter efeitos perversos e, no âmbito do desenvolvimento do sujeito, possivelmente o tem. As pseudorrelações podem, justamente por sua precariedade, dar lugar a distorções e efeitos perversos nas relações afetivas, mesmo que não tenham essa intenção, nem sejam originadas disso. Tal me parece o caso de Mariano, mas creio que ele também se alinhe ao relatado nas considerações sobre organizações patológicas.

Outra questão seria o fato de que, após algum progresso do self como um todo, defesas autistas possam vir a ser usadas de forma perversa por uma parte do ego mais evoluída, capaz de perceber e de ter insight, mas ligada e dependente de refúgios psíquicos (MITRANI, 2007, p. 141-146). E Bion (1988) também expôs o quanto áreas neuróticas da personalidade podem fazer mal uso de áreas psicóticas, e vice-versa.

Meltzer refere que algumas crianças desenvolvem núcleos de identidade no interior de objetos com os quais fizeram intensa identificação projetiva. Assim sendo, ele veio a descrever vários núcleos de identidade no eu, diferentes entre si, em interação complexa na geografia mental interna. Embora nas situações autistas não haja uma noção de objeto ou de identidade, até porque uma depende da outra, talvez um senso de pseudoidentidade possa se fazer presente. Freud dizia que o ego é, antes de tudo, ego corporal, e as pseudorrelações adesivas (MITRANI, 2007) parecem criar em seus portadores uma espécie de identidade. Também podem fazer isto por proporcionarem uma experiência de concretude, tangível e persistente, e que parece ter nível primitivo, atávico e biológico, sendo por isso difícil de mudar.

Isso lembra também a equação simbólica pois esta iguala coisas e suprime diferenciações. Portanto até alguns processos simbólicos primitivos ou psicóticos podem servir de apoio à pseudorrelações objetais, pois se houver uma equação simbólica que faça uma relação afetiva ser igual ao estar aderido, ela fomentará o mecanismo autista, mesmo que seja diferente dele. Essas cogitações requerem mais estudos, mas foram desencadeadas no processo de pesquisa e são consequentes a ele. Por isso, são mencionadas, além de se

referirem ao princípio de simetria do inconsciente, e a proposta do Geômetra Infinito (GROTSTEIN, 2003).

Outro aspecto importante relaciona-se com a experiência de ser jogado fora, descrita por Tustin (1990), Mitrani (2007) e também Kristeva44 (1982). Sentir- se jogado fora, inexistente ou impróprio para existir é muito diferente de sentir-se perseguido. Parece envolver uma experiência de não ter lugar, não ter importância e não poder existir para alguém. Penso que essa experiência pode ocorrer quando a continência materna falha por diversos motivos. Para sentir-se perseguido, é necessário que tenha havido uma relação de objeto boa e que ela tenha sido perdida (ainda que temporariamente) e que, em seu lugar, tenha sido instalada uma relação com um objeto ruim.

Essa outra experiência é a de não poder estabelecer o que deveria ser a relação com um objeto, pois o objeto que deveria propiciar isso não está disponível. Creio que, ao ter dificuldade para falar, o receio de meu paciente talvez não fosse apenas ligado ao de ser perseguido e humilhado. Mas também e talvez principalmente o de não encontrar alguém que o quisesse ouvir, de modo que o que tinha para transmitir ficava e era perdido num nada, numa ausência de importância, ou ausência de existência. Uma situação para onde ele podia ser sempre expulso. Faz pensar na experiência de uma criança não se sentir existindo de forma consistente para a mãe. E de uma mãe que não reclamasse a existência da criança (ALVAREZ, 1992).

A vicissitude de ser tratado por alguém como um ser nulo, ou de ter as próprias necessidades vistas por alguém como descartáveis, pressupõe a frustração na busca de um objeto. Mas, além disto pode trazer uma experiência de que não há algo a ser encontrado, ou de que nessa busca, que deveria terminar num encontro, algo se perdeu, incluindo aquilo que o sujeito queria transmitir, até ele próprio. Assim, o sujeito pode estabelecer um modo de comunicação que também descarte o objeto, uma vez que este nem sempre esteve disponível. O ritmo de segurança não se fez. No entanto, o sujeito também “descarta” a si mesmo, pois desiste de criar condições para ser encontrado, fica

44Mitrani cita a descrição de Kristeva da experiência de ser rejeitado, que faria com que uma única

qualidade de um objeto fosse retida pelo sujeito; a deste sujeito estar atado ou separado do objeto, isto é ou se está colado ou expulso, nada além.

com a experiência de ser nulo, e de que aquilo que tinha a transmitir não tinha importância. Tudo isso pode ter efeitos perversos.

Tal experiência de ser deixado e não encontrar eco para o qual ou para quem tentávamos nos endereçar, e sentir-se anulado, não é difícil de ser reconhecida e, a meu ver, depois de todo este percurso, não está exatamente ligada à perseguição. Pode estar ligada a algo primitivo, uma dúvida e, às vezes, uma estranha sensação de não ter existência ou importância para o objeto e, portanto, para nós e para o mundo. As consequências disso podem ser coisas estranhas e bizarras, num nowhere, mas provindos de outra vivência fora das situações esquizoparanoides e depressivas.

Uma organização patológica é sustentada amplamente por crenças falsas, às quais a pessoa pode ter imensa dificuldade de renunciar. Britton diz que crenças são sustentadas por fantasias que, mesmo quando expostas ao teste de realidade, podem permanecer intactas. Ele coloca:

A partir do momento em que ideias se tornam crenças, elas têm consequências. As crenças podem ser conscientes ou inconscientes, mas não podem ser testadas ou abandonadas sem antes se tornarem conscientes. As crenças requerem o teste da realidade para se tornarem conhecimento. O teste de realidade ocorre através da percepção do mundo externo ou da correlação interna com fatos já conhecidos e outras crenças. Se a experiência e o conhecimento subsequentes desacreditam uma crença, é preciso renunciar a ela; isto requer um processo de luto se for uma crença importante ou preciosa. (BRITTON, 2003).

Se uma experiência dolorosa oriunda de não ter importância ou existência para um objeto for muito reiterada e tornar-se duradoura, ela poderá contribuir para formar uma crença difícil de ser abandonada. Ainda tem-se que considerar que a organização patológica por buscar suportes onipotentes, só crê neles e cria dificuldades para a aceitação e valorização de cuidados menos onipotentes. Outras crenças inconscientes, como um intenso ressentimento pelas privações edípicas, também poderiam manter Mariano ligado e dependente de um sistema defensivo poderoso, para paradoxalmente não se sentir expulso.

A posição do analista diante desse processo requer uma tolerância para as oscilações entre as posições esquizoparanoide e depressiva constantes. As questões a serem trabalhadas eram e continuam difíceis e melindrosas, mesmo noutros processos analíticos. Além delas, as peculiaridades daquela análise como

as dificuldades concretas para ouvir, entender, os sobressaltos com as alterações de voz, implicavam numa enorme tolerância à situação esquizoparanoide, e exigindo o constante exercício da capacidade negativa. E a tentativa de compreender, a possibilidade de alcançar uma posição depressiva, por inúmeras vezes parecia inatingível e quando encontrada, aquém da necessária.

O analista também tem que lidar com o sentimento de ser carente de habilidades mínimas: literalmente precário para ouvir e, ainda assim, precisa tentar. Não saber com que tipo de vivências primitivas irá se deparar e precisar tentar ter continência e trabalhar com elas, mesmo sem saber onde irão levá-lo e se será capaz disso. Ele precisa como o paciente, não sucumbir diante da sensação de que sua existência não importa ou de que foi lançado ao nada, quando tenta trabalhar.

Anne Alvarez fala da função da mãe de chamar a criança para si, dar importância a ela, requisitá-la. Ela atribui à mãe a reclamação, a convocação de seu bebê para a vida e para o encontro com alguém vivo. Esta possibilidade e os sentimentos de que isto era fundamental com Mariano, e que permanecia importante apesar da presença do refúgio, existindo em paralelo com este, permaneceram comigo durante todo o trabalho.

Revendo o caso de Schreber, Steiner (2011) observa que o quadro psicótico daquele magistrado desencadeou-se após um período depressivo, decorrente da frustração de seu desejo de ter filhos. Essa perda narcísica foi-lhe insuportável. Podemos pensar em algo semelhante em Mariano porque, depois do acidente, sua vida mudou. A voz poderia ser uma metáfora de outras perdas. Podemos compará-la a uma atuação das perdas no corpo, por dificuldade de elaboração interna. Talvez haja também um transbordamento em associação a algo psicótico: a dor psíquica e a sensação de fracasso da autoestima eram projetadas na voz, mas de forma tão intensa e persistente, que não eram uma projeção comum. Havia algo que produzia o efeito sonoro de uma lesão severa nas cordas vocais, e que, mesmo com todos os tratamentos e garantias de ausência de lesão orgânica, não melhorava.

Embora também se possa pensar na dissociação histérica, a gravidade da situação apontava para algo mais complexo. Além disso, Mariano não tinha nada da belle indifférence tão comum no histérico. Ao contrário, era sobressaltado e afrontado por aquela situação em si próprio, e não parecia capaz de usar insights para aquela parte si mesmo. Neste ponto, parecia reviver uma cesura (TUSTIN, 1990), uma traumática separação, num momento em que sua mente estava totalmente incapaz para isso.

Trazemos para terminar, algumas considerações a partir da leitura de Grotstein (2009). Esse autor publicou um livro com o sugestivo nome de:...But at the same time and on another level... (...Mas ao mesmo tempo e num outro nível...) Nele estuda e discute ricamente várias teorias psicanalíticas baseadas em Klein e Bion. Um dos temas consiste nos refúgios psíquicos. Embora siga Steiner, Grotstein acrescenta ênfase à catástrofe emocional nos primórdios da