• No results found

5. Analyse av data

5.2 Datasettets egnethet

5.2.4 Programforpliktelse og programlojalitet

Em relação à Cantiga “Minha Nau”, constata-se ser tão antiga quanto à “Bico do Pica- pau”, haja vista o emprego de expressões como “nau”, “pomba real”. O conteúdo de sua letra denota, portanto, segundo alguns membros da Irmandade, a retomada de um passado distante e confirma sua transmissão de geração a geração.

Um fato que pode confirmar também o papel imprescindível da música nessa festividade foi a demora em relação ao início do levantamento do mastro no dia 21 de dezembro de 2013, em decorrência do atraso de alguns tocadores do grupo “Os Quentes da Madrugada”, que tinham ido trabalhar e, sem a performance musical do Carimbó, não poderia acontecer o levantamento, como bem justificou Mestre Ticó: “a batida do tambor, a cantiga

do mastro, os cantadores, os tocadores, não pode faltar, não tem a tradição sem o toque do

tambor”91.

91 Entrevista realizada com Mestre Ticó, no dia 26 de dezembro de 2014, no barracão da Irmandade, em Santarém Novo (PA).

Quanto à confecção do mastro, sabe-se que o mesmo é feito geralmente pelos parentes dos festeiros ou ainda pelo Seu Iramar, que há alguns anos, é o feitor desse mastro a pedido de alguns festeiros da localidade.

Na festividade de 2013, por exemplo, o mastro (Figura 42, p. 162) foi confeccionado pelo tio da Dandara, o Sr. Rui Corrêa Costa (Figura 42, p, 162). Ele informou que se sentia abençoado e orgulhoso com essa “missão”, pois tinha fé que São Benedito, o santo protetor, iria lhe proteger, conforme revelou:

Fui ao Igapó, cortei a árvore de Samambaia e decorei com frutas e flores. Coloquei a banana, o açaí, jaca, a pupunha e botei também a planta de cristo. Assim é a tradição. O Iramar é quem faz o mastro de São Benedito. Esse ano fui eu [...] Não cobrei nada, claro. Foi a minha primeira vez. [...] Mas tenho fé que São Benedito vai me proteger, me abençoar92.

Em relação aos enfeites do mastro, posso afirmar que se traduz em uma construção significativamente coletiva e cultural, pois muitos se predispõem a essa realização. Constatei essa participação da comunidade quando, em 2014, acompanhei o Seu Iramar (Figura 43, p. 162) em todo o processo de enfeitamento do mastro. Verifiquei, então, que algumas pessoas da localidade se envolveram nessa construção, haja vista esse momento ser também uma forma de contribuir com a Festividade oferecendo algo para São Benedito. Dona Raimunda, por exemplo, que doou alguns cachos de açaí para enfeitar o mastro, comentou: “[...] Pra São Benedito nunca vou negar. Ele me protege, me dá forças. Tenho fé!”93.

92 Entrevista realizada com Rui Corrêa, no dia 21 de dezembro de 2013, no Igarapé do Bacuri, em Santarém Novo (PA).

93 Entrevista realizada com Dona Raimunda, no dia 21 de dezembro de 2014, na sua residência, em Santarém Novo (PA).

Figura 42 - Rui Corrêa e o Mastro da festividade de 2013

Fonte: Acervo do autor, 2013.

Figura 43 – O Seu Iramar

Do mesmo modo, quando Seu Iramar precisou pegar bananas na casa de Dona Isa, ela disse que as frutas faziam parte do alimento de sua família e, por isso, ela iria ofertar para o Santo. “É uma forma de agradecer a São Benedito por não faltar comida na nossa mesa, sabe? Se não fosse essas frutas, a gente podia até passar fome, né? Mas não! São Benedito ajuda, abençoa a gente. [...] Obrigado, São Benedito!!”94

Por conta disso, para os membros dessa Irmandade, as frutas representariam a boa colheita e a fartura, então, o mastro seria carregado em agradecimento a São Benedito pelas colheitas feitas no ano.

No que tange ao cortejo, sua organização obedece a uma hierarquia. Ou seja, à frente dele, posicionam-se o grupo de tocadores e o Juiz de Mastro (o festeiro promesseiro) que carrega em suas mãos a bandeira com a imagem de São Benedito, como podemos observar, a seguir, na imagem de Dona Rubenita e de sua filha Dandara (a festeira) segurando a bandeira (Figura 44, p. 164). Depois desses, seguem os demais participantes (Figura 45, p. 164).

E, novamente, como não poderia faltar, a gengibirra é oferecida durante todo o cortejo. Em 2013, Dona Rubenita e sua cunhada Vera não deixavam faltar essa bebida. Havia até um carro seguindo o cortejo, de onde, de vez em quando, elas pegavam mais bebidas e mais fogos de artifício.

Quando o cortejo se aproxima do barracão da Irmandade, normalmente muitos fogos são soltos e várias pessoas, que esperam em frente a ele, começam a agradecer ao Santo as graças alcançadas, gritando algumas vezes “Salve, São Benedito” ou “Obrigado, meu santinho preto!”

94 Entrevista realizada com Dona Isa, no dia 21 de dezembro de 2014, na sua residência, em Santarém Novo (PA).

Figura 44 – Dona Rubenita e sua filha Dandara (a festeira) segurando a bandeira

Fonte: Acervo do autor, 2013.

Figura 45 – Participantes carregando nos ombros o mastro – na foto, em primeiro plano, destaca-se D. Joana

Nesse momento, outros tocadores também aguardam com seus instrumentos de percussão a chegada da procissão. Quando o cortejo chega, há um encontro sonoro marcado pelos instrumentos de percussão, e especialmente pelos seus tambores, envolto de grande comoção por parte dos irmãos presentes. Desse modo, esse momento, segundo alguns integrantes, reforça a força do Carimbó nessa festividade e, por conseguinte, a fé em São Benedito. Inclusive, porque, como elucida Dona Rubenita, “na hora que levanta o mastro, nós chegamos mais perto do Santo [se referindo a São Benedito]. É como se a gente conseguisse sair da terra e ir ao céu”95.

Figura 46 – Imagem de São Benedito pintada na bandeira

Fonte: Acervo do autor, 2013.

95 Entrevista realizada com Dona Rubenita, no dia 21 de dezembro de 2013, na sua residência, em Santarém Novo (PA).

Enquanto é concluído o cavamento do buraco, a bandeira (Figura 46, p. 165) com a imagem pintada de São Benedito é posta na ponta superior do mastro e os tocadores se juntam e cantam outras cantigas de Carimbó. Em determinada ocasião, muitos fogos são soltos, os tocadores executam novamente a cantiga “Minha Nau”, o mastro é erguido - geralmente por muitos homens devido o seu peso e tamanho -, e é fixado no chão, efetivando- se, assim, o Ritual de Levantamento do Mastro de São Benedito.

4.1.3. A reza para o Santo Preto

Por volta das dezenove horas e trinta minutos, com duração de meia hora aproximadamente, ocorre durante os 11 dias dessa festividade a reza – denominada pelos membros da Irmandade de ladainha ou novena – dedicada a São Benedito.

Fogos! Muitos fogos de artificio são soltos geralmente alguns minutos antes de iniciar a procissão. Eles anunciam no céu que a procissão vai começar.

Alguns tocadores com seus instrumentos de percussão buscam o festeiro, seus familiares e alguns irmãos na sua casa e o levam até a Capela de São Sebastião onde é atualmente e quase sempre realizada essa reza. Se, por algum motivo (por exemplo, a não solicitação prévia do festeiro pelo dia) os responsáveis desse espaço não o liberar, a reza ocorrerá no primeiro barracão da Irmandade. É importante ressaltar ainda que ela acontece somente mediante o convite do festeiro, porém, como alguns festeiros não fazem questão, atualmente, esse momento da festividade nem sempre tem ocorrido.

A configuração instrumental que acompanha esse momento é formada pelos seguintes instrumentos: carimbó pequeno, um reque, um par de maracas e um triângulo. Segundo seus integrantes, essa formação instrumental é menor nesse momento em virtude de os tocadores terem que caminhar pelas ruas cantando e tocando esses instrumentos de percussão, e com isso fica difícil carregar os outros tambores mais pesados, os quais são tocados estando seus

tocadores sentados. É nesse momento, tal como ocorre no cortejo de levantamento do mastro

e mais tarde no derrubamento e varrição do mastro que o tambor pequeno é tocado seguro por uma corda no ombro e apoiado abaixo dos braços, conforme explicitado anteriormente sobre a maneira de tocar esses instrumentos.

Geralmente a esse momento da festividade comparece um número bem reduzido de pessoas, restringindo-se, em sua maioria, a alguns membros da família do festeiro e a pouquíssimos amigos da família.

Quando a procissão sai pelas ruas do município são os tocadores e, no caso, o Mestre Ticó que vai cantando a cantiga de Carimbó “Casa santa” (Transcrição 6, p. 167) que, segundo seus tocadores, é uma cantiga tradicional, cantada de geração a geração, sempre executada obrigatoriamente nesse momento da procissão e cujo refrão geralmente todos cantam.