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Prognose for netto driftsmessige eiendeler

In document Verdsettelse av BEWI ASA (sider 72-0)

7. Fremtidsestimat

7.2. Estimering av nøkkeltall

7.2.3. Prognose for netto driftsmessige eiendeler

O olhar, o direcionamento dado à perspectiva de quem observa está em pauta no trabalho de Eliane. Não foi despretensioso intitular sua coluna no jornal Zero Hora e o posterior livro homônimo de A Vida que Ninguém Vê. Não é à toa a escolha do nome Olho da Rua para um livro que reúne as reportagens publicadas na revista Época. Há a busca por um recorte temático diferente do pautado tradicionalmente pelo jornal, a intenção de olhar de que forma o pequeno, o esquecido, o que ninguém vê representa o totalidade, o universal da condição humana.

Nas reportagens da jornalista, pessoas comuns, sem nada de aparentemente interessante para torná-las manchete de jornal, ganham destaque, são consideradas em sua complexidade, suas particularidades e individualidades, tornam-se extraordinárias ainda que, à primeira vista, sejam absolutamente ordinárias. O que de interessante poderia ter uma mulher que anda com os olhos radiantes pelas ruas de Porto Alegre, como no texto “Dona Maria tem olhos brilhantes”? O que teria para contar de novidade o homem que vai todos os dias procurar emprego, como em “O Homem Estatística”? Por que um senhor que ganha a vida carregando malas no aeroporto, como no texto “Adail quer voar”, faria com que os leitores perdessem seu precioso tempo de leitura do jornal?

As indagações continuam: o cidadão comum, aparentemente sem nada de extraordinário, aquele que anda pelas ruas com milhões de tantos outros, pode virar notícia? As histórias destes personagens são de fato relevantes? Podem trazer à tona problemas da sociedade e, finalmente, informar e fazer refletir o leitor? A grande receptividade das reportagens de Eliane Brum pelo público do jornal Zero Hora traz estas possíveis indagações: o que, afinal, é considerado importante para se tornar notícia? E de quem forma esta notícia deve ser pensada e desenvolvida?

O modelo “ideal” de se fazer jornalismo, ensinado na maioria dos cursos de comunicação, é ainda aquele ditado pela objetividade, pela informação rápida e neutra. O tradicional lead (fórmula de noticiar que responde, logo no primeiro parágrafo, às perguntas:

as informações “mais importantes” vêm no topo do texto) são assimiladas pelos estudantes que provavelmente vão colocar em prática o que aprenderam nas redações. Apesar de estar se tornado mais comum, o contato com alternativas ao modelo convencional ainda é tímido entre aqueles que esperam respostas para as perguntas acima.

No modelo tradicional, entende-se como notícia a divulgação de um acontecimento que seja de interesse público por meios jornalísticos. Por ter como finalidade um reconhecimento socialmente relevante, os fatos devem ser excepcionais, de grande impacto social. O seu valor está vinculado à atualidade e à novidade do que está sendo noticiado. Os textos de Eliane Brum, no entanto, não se enquadram nesses pressupostos do jornalismo clássico. Sua temática é a gente da rua, gente que não se vê, não se percebe.

O cotidiano da experiência humana como principal eixo de uma nova forma de narrar é, para Cremilda Medina, o cerne de sua proposta: a narrativa da contemporaneidade. Entendendo a narrativa como a organização do caos, Medina, em A Arte de Tecer o Presente fala sobre a valorização dos protagonistas sociais na narração, sobretudo dos anônimos, na construção da cidadania. Medina conta o que a oficina de narrativa experimental sobre o assunto enfrenta para seu desenvolvimento:

Numa outra perspectiva, a oficina narrativa se confronta com limitações que vão dos reducionismos técnicos de uma racionalidade monádica ou maniqueísta, a um autoritarismo não solidário, muitas vezes aético, ou mesmo irresponsável, até uma incapacidade estética para produzir novos sentidos do acontecimento humano. A razão treinada para resultados imediatos perde a força do afeto e não dá margem a um insight criativo. No fundo essa é a marca de autora que se inspira: contar sua história ou a história de forma sutil e complexa, afetuosamente comunicativa e iluminando no caos alguma esperança do ato emancipativo. (MEDINA, 2004, p. 49) As considerações de Cremilda colaboram para colocar em pauta o debate sobre o que pode se tornar pauta no jornalismo. Mais uma vez, a referência a João Antônio é inevitável. Os textos do jornalista-escritor tematizam a dialética social que se estabelece para ele como a revelação de algo que precisa ser dito.

Jane Christina Pereira, em seu artigo sobre o livro de João Antônio Malagueta, Perus

e Bacanaço, apresenta de que forma trazer à tona o submundo, aquilo que comumente não

dito, é discutir a vida social brasileira da maneira com que precisa ser discutida. Jane aponta também de que forma a utilização da poesia é necessária para que a pluralidade de significados pretendida pelo escritor seja alcançada:

O olhar tem que acontecer num recuo necessário para aprofundamento nas malhas do texto, num gesto em que a poesia vai redimensionando a distância, desvelando o outro lado do abordado cintilante do progresso, das ruas ajardinadas, das famílias

felizes e das casas e salários fixos, onde aparece a parte enviesada, com pedaços de linha expostos, fiapos cortados, descontinuidade de cor, fragmentos súbitos, sem arremates, nem beleza estereotipada. João Antônio nos impele a ver o avesso, o negativo da sociedade, liberando-o por meio do poético que se extinto, deixaria apenas a prosa pura, a técnica, o significado que busca que busca outro significado. Essa é sua lei formal, lógica interna particular, cujo procedimento artístico é revelar um mundo outro do marginalizado, cujo sentido aqui é o mais amplo. (PEREIRA, 2008, p. 101)

A perspectiva do autor recua-se da temática tradicional para que o aprofundamento reflexivo necessário aconteça. O olhar se fixa para além “das famílias felizes e das casas e salários fixos”, fixa-se no indigente, nos que perambulam pelas ruas, aqueles que passam as madrugadas em bares da periferia, os “merdunchos”, a gente indigente.

João Antônio apreende a realidade dentro de um projeto que é designado pela pesquisadora Ieda Magri como político-literário. “A experimentação e a busca de novas formas de mostrar a realidade da pobreza e da marginalidade brasileira fazendo literatura de alto valor estético é também a luta contra o enquadramento e a repetição de modelos” (MAGRI, 2008, p. 93).

Como em João Antônio, os novos enquadramentos temáticos são o eixo do trabalho de Eliane Brum. Em A Vida que Ninguém Vê, as fotografias das reportagens já sugerem essa escolha em observar o detalhe, aquilo que não seria observado à primeira vista. Quase totalmente desfocadas, as fotografias ganham um pequeno recorte no qual a imagem se torna nítida. A foto abaixo se relaciona ao texto “O Menino do Alto”, que conta a historia de um menino que morava no alto do Morro da Polícia e, depois de ter sido atropelado, ficou paraplégico. O drama do garoto e dos pais que precisam carregar o menino de maneira improvisada morro abaixo e morro acima para as seções de fisioterapia é ilustrada no livro com a foto de umas descidas. Em destaque, as mãos de um homem, provavelmente do pai, que carrega a cadeira improvisada, e as pernas do menino.

Figura 7- Fotografia, com intervenção, que acompanha a reportagem “O Menino do Alto”.

Outro exemplo expressivo sobre o enquadramento temático e estético do livro é a foto do texto “O Sapo”. O homem que não tem paralisia nas duas pernas e arrasta-se pelo centro de Porto Alegre pedindo esmola ganha destaque da edição fotografia em suas mãos e na tampa da caixa de sapato que usa para pedir dinheiro.

Figura 8 - A foto acima abre a reportagem “O Sapo”.

Ao se atentar para o recorte fotográfico feito no livro de Eliane Brum, é válido mencionar uma citação de Nanami Sato, no livro Jornalismo e Literatura. A sedução da palavra em que a fotografia é aproximada ao ato de narrar pela importância da escolha que o repórter ou o escritor vai fazer sobre a realidade. O enquadramento temático pode ser comparado ao recorte que o fotógrafo precisa fazer das infinitas possibilidades que se apresentam diante da lente de sua máquina. Sato menciona o paradoxo que se apresenta para grandes fotógrafos: o de recortar o fragmento de uma realidade, dar e ele determinados limites, e, ao mesmo tempo, fazer com que o recorte atue como uma explosão, como uma abertura para uma realidade mais ampla.

O fotógrafo precisa escolher a imagem que vai limitar, o repórter, por sua vez, o acontecimento significativo que valha por si mesmo e que, ao mesmo tempo, seja capaz de atuar no espectador ou no leitor como uma abertura, algo que projete a inteligência e a sensibilidade em direção a algo que vai muito além do argumento visual ou literário contido na fotografia ou no texto.

O recorte na fotografia que ilustra o texto de Eliane é um convite significativo para o texto da jornalista, janela para uma realidade que se apresenta e que precisa ser observada pelo leitor.

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