Esta unidade de significação está implicada em nossa percepção mais aproximada da conjuntura:
NEROALDO: É evidente que em termos pessoais eu não tenho dificuldades de interlocução com pessoas de outros partidos, pessoas que pensam diferente. Entendo que aprendi ao longo do tempo a respeitar as idéias dos outros e naturalmente pretendo também ter sido respeitado e continuar sendo respeitado dentro da sociedade paraibana onde eu vivo há trinta anos.
GESUÍNA: você fala com uma tranqüilidade que eu admiro...
NEROALDO: agora aí vem a seqüência, não sei se é isso que você quer dizer. Evidente que na hora em que você está num cargo executivo e num cargo executivo que tem, ligado a um grupo de partidos que administra o estado, que se constitui na situação e que há um outro grupo de partidos que se constituem em oposição evidente que há dificuldade de interlocução. É por isso que eu comecei falando do ponto de vista pessoal, do ponto de vista institucional evidente que há dificuldades, porque muitas vezes as questões são colocadas não em termos da educação, não em termos daquilo que está sendo feito, mas em termos da disputa de poder seja pelo governo, seja pela oposição, e aqui eu não quero falar da situação ou da oposição, mas do confronto de posições que existem dentro do executivo e como eu estou no executivo e estou na situação evidente que enfrento dificuldades por parte da oposição, muito menos por princípio, muito menos por questões ligadas à própria educação e mais por essa disputa de poder que acontece.
Nem todo mundo que tem as dificuldades institucionais, próprias da dinâmica, tem a facilidade ao nível pessoal para conversar. Estou falando com Prof. Dr. Neroaldo que é um homem de letras, das palavras, que tem um perfil conquistado com uma história pessoal. Em sua passionalidade, ele é uma pessoa que se colocou entre três palavras: ousadia, prudência e paixão. Um homem apaixonado, um homem com uma gã, um homem com uma sede de participar, que enfrenta situações muitos difíceis ao nível pessoal, se a consideramos sua história. Aqui voltamos à narrativa de Prof. Dr. Ronaldo Monte:
GESUÍNA: Ronaldo falava do dia que você subiu no caminhão para dispersar uma manifestação, dispersar não...NEROALDO: Não, não, fui falar no meio de uma manifestação...
GESUÍNA: No meio de uma manifestação contra você.... NEROALDO: Exatamente...
GESUÍNA: isso não é fácil, quem ouve falar da política brasileira, só Woody Allen que poderia mostrar...
NEROALDO: uma cena dessas...
NEROALDO: Veja eu tenho entre minhas profundas admirações intelectuais e de gente algumas pessoas na minha vida como um Dom Helder Câmara, quando eu estudei em Recife Dom Helder Câmara era o arcebispo, e quando ele ia conversar com a gente ele sempre começava dizendo “conversa clara faz amigos”, isso eu aprendi com Dom Helder. E todo mundo sabe a enorme capacidade de diálogo de Dom Helder. Eu não estou aqui querendo me comparando com Dom Helder eu estou me colocando como um discípulo, estou me colocando como um homem que teve a sorte de ter até convivido com pessoas como Dom Helder, como Dom Marcelo Carvalheira, que foi arcebispo aqui da Paraíba e que foi meu Reitor durante o período que estive em Olinda, então são pessoas que mantiveram sempre um alto grau de diálogo, mas que experimentaram extremas dificuldades no exercício executivo do cargo, Dom Helder em Recife, inclusive em relação à própria instituição igreja, Dom Marcelo aqui na Paraíba quantas dificuldades ele teve. E um desses meus grandes mestres é Paulo Freire e quem não conhece as dificuldades de Paulo Freire, secretário de educação do Município de São Paulo, tendo que deixar...um intelectual que era Paulo Freire, com toda experiência de vida e de diálogo, sendo incompreendido como gestor da educação em São Paulo, no tempo da Prefeita Erundina, tanto é que deixou o cargo, ou seja com toda experiência de vida, com toda capacidade de diálogo, Paulo Freire entendeu que não era possível continuar como secretário de educação dadas as incompreensões que ele teve por parte da urdiduras da rede municipal e dos conflitos políticos que se estabeleceram em São Paulo naquele momento. A gente tem que conviver com essas dificuldades, tem que conviver com essas questões. E isso faz parte do dia a dia, a gente convive no sindicato, a gente convive em casa, a gente convive na rua, a gente convive no trabalho.
GESUÍNA: Ronaldo dizia para mim que você é um incendiário, que é uma pessoa que agita muito, é um agitador que vai aonde os problemas estão e lá onde os problemas estão, você procura fazer com que se busque um consenso com os protagonistas dos problemas...a diretora do Lions de Tambaú, dizia justamente que às vezes ia falar com você e você dizia um não, e depois ela pensava por que saia sorrindo com um não do Prof. Neroaldo. Ela percebia que precisava conversar. Os professores querem conversar, a normatividade é narrativa se você tem um problema e não tem com quem falar e você não pode ver isso então não tem como resolver esse problema. Então esse aspecto de conversa com os outros políticos passa por aí, porque e se o segundo momento a dificuldade é uma dificuldade institucional este deve ser um problema de todos.
NEROALDO: Um problema de todos que eu naturalmente eu também tenho e eu também enfrento e eu não fujo a me identificar como um homem que está na situação e quando você está na situação você enfrenta o elogio do trabalho ou a crítica quando eventualmente as coisas não acontecem de acordo como quer a sociedade ou muitas vezes a crítica injusta como quer um ou outro da oposição. GESUÍNA: Porque aí passa por uma prática de desqualificação.
NEROALDO: Exato.
GESUÍNA: Eu já desqualifiquei, mas eu tenho trinta e nove anos, eu nunca fui secretária de educação, eu fui uma pessoa revoltada que queria xingar eu já xinguei secretário de educação, quando eu comecei o magistério, antes de entender o que era o sindicalismo, aquela coisa toda e eu acho que isso fez parte da minha construção de identidade.
NEROALDO: Exatamente.
GESUÍNA: Mas eu aprendi que a desqualificação é algo que se volta contra o desqualificador.
NEROALDO: Exatamente.
GESUÍNA: E que nós temos que qualificar nosso interlocutor.
NEROALDO: Claro, claro e respeita-lo na diversidade. Agora essa é a luta contínua do dia a dia
4.14 A FISCALIZAÇÃO DA CONTROLADORIA GERAL DA UNIÃO E O PROCESSO