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Ao longo da trajetória de cada uma das grandes civilizações e nas diferentes épocas históricas, tanto as formas de entender, conceitualmente, as “relações amorosas” como as práticas concretas dessas relações variaram muito.

Percebe-se que essa diversidade que se verifica no tratamento da questão afetiva decorre das idiossincrasias das diferentes culturas, especialmente no que se refere à “ideologia” (na acepção de “visão do mundo”) dominante. Vimos que as relações amorosas, longe de serem estáticas, assim como outras práticas culturais, transformam-se, ao longo do tempo, geralmente vinculadas a mudanças em outras áreas, seja a econômica, a política, a social, ou a religiosa, entre outras.

As mudanças nas relações amorosas não ocorrem no mesmo ritmo das transformações em outras áreas, além de não haver garantia de trajetória evolutiva, no sentido positivo do termo, abrangendo as diversas dimensões das relações afetivas. Nesse sentido, por exemplo, a violência contra a mulher, na atualidade, é muito maior do que na Civilização Romana dos séculos I e II. Evidentemente, essa atitude não se devia a nada que se aproxime das relações de gênero dos países nórdicos da Europa de hoje, mas, ao contrário, pelo fato de considerarem as mulheres como “quase crianças”; ou seja, a partir desse pressuposto cultural, nenhum nobre romano levaria muito a sério um deslize de sua esposa.

Análises comparativas entre sociedades de diferentes épocas apresentam, também, questões conceituais complexas, porque termos como homossexual e heterossexual, por exemplo, usados neste trabalho, somente são cunhados no final do século XVIII. Em outras palavras: as relações entre homens ou entre mulheres nas sociedades anteriores, sejam elas em parte aceitas (como na Grécia ou na Roma antiga) ou totalmente reprimidas (como na Idade Média

ocidental), não eram avaliadas sob os parâmetros atuais de dois sexos diferentes.

Ressalte-se que comparar relações amorosas entre duas civilizações, sem levar em conta os seus respectivos contextos culturais; ou seja, as “visões de mundo” diferenciadas acarretaria conclusões absurdas. Nesse sentido, as relações estabelecidas, na Grécia antiga, entre um homem mais velho, desempenhado o papel ativo, para preparar e iniciar um jovem na vida sexual, até se tornar adulto, seria, pelos pressupostos ocidentais atuais, um “crime de pedofilia”.

A cultura é de tal forma central para as relações sexuais, frente à questão biológica, que não há narrativa de casos traumáticos significativos na iniciação sexual dos jovens na Grécia e na Roma antigas. Por outro lado, no nosso contexto cultural, as práticas recentemente denunciadas, pública e judicialmente, de pedofilia, por parte de certo número de padres católicos, em vários países, causaram traumas em muitos jovens, sendo que, em certos casos, implicaram sequelas irreparáveis.

No caso das sociedades ocidentais, as relações amorosas da Modernidade foram fortemente marcadas pelo advento do “Amor Romântico”, que, por sua vez, sofreu forte influência do chamado “Amor Cortesão”, que teve seu apogeu entre os séculos XII e XV, e que utilizava a corte às damas como forma de educar os jovens homens a aprenderem a controlar os seus desejos sexuais, por via da sublimação de um amor puro ou, para Deleuze e Guatarri, diferente dessa interpretação, como um modo singular de produzir fluxos amorosos intensivos (DELEUZE & GUATARRI, 1999).

Na época atual, denominada, por alguns, de “Pós-modernidade” ou “Modernidade Avançada”, em um contexto de forte globalização, o “Amor Romântico”, veiculado na mídia internacionalizada (filmes, televisão, Internet, espetáculos, músicas, etc.), possibilitou não apenas um, mas vários modelos de amor idealizados. Isso, em princípio, permite que se tenha a difusão de

diversas formas de idealizações de amor mais compatíveis com diferentes realidades.

Por outro lado, como a Pós-modernidade se caracteriza por relações efêmeras no trabalho e nas relações afetivas, alguns autores acreditam numa tendência lenta, mas incremental, de questionamento do “Amor Romântico”, por ser um modelo que tenderia a se afastar da realidade concreta e a se transformar em “Amor Líquido” (BAUMAN, 2004).

Apesar de a Pós-modernidade apresentar questões interessantes sobre o futuro do Amor Romântico, a descrença ou a pouca fé em projetos coletivos, devido ao fim do socialismo real, às crises econômicas globais, às dificuldades de enfrentamento da questão ambiental, transferiu a busca de objetivos na felicidade individual. Nesse contexto de sentimento de impotência, angústia e medo do futuro incerto, segundo Jurandir Freire, o Amor Romântico tornou-se a última porta para o homem encontrar a autorrealização96 ( COSTA, 1998).

Sabíamos que, no nosso trabalho de campo no Talavera Bruce, não podíamos subestimar as especificidades da socialização de valores entre diferentes classes. As experiências de pesquisas por corte de classes costumam mostrar que os setores populares tendem a socializar valores de forma mais literal e ortodoxas, em contraposição às elites, que, normalmente, interpretam as regras de forma mais heterodoxa.

Realmente, os resultados da pesquisa corroboraram essa tendência. Assim, constatamos que a busca por afeto de parentes e amigos é grande, especialmente porque menos de 20% das presas recebem visitas com certa regularidade; ou seja, pelo menos uma vez por mês.

96 Na verdade, Jurandir Freire como Bauman, não acreditam que o Amor Romântico seja uma

verdadeira saída para a autorrealização. Caso ele esteja certo, uma questão para as futuras gerações será o que colocar nesse lugar, pois parece ser muito difícil viver sem sonhos! (COSTA, 1988).

Em leitura de entrevistas e de material de cunho religioso divulgado na prisão, bem como pelos anunciantes e leitores do Jornal Só Isso!, percebemos que

não somente as evangélicas — grupo religioso mais organizado do TB — mas, também, um contingente considerável de presas, de diferentes formas, buscam apoio no que poderíamos denominar de “amor espiritual”.

Entretanto, a demanda por “Amor Romântico” superou, em muito, as nossas expectativas, mas não foi somente a grande demanda nem a prioridade para viabilizar, mediante a adoção de diferentes estratégias, o acesso ao parlatório. O que se apresentou de forma muito mais contundente do que esperávamos foi a forte crença na capacidade do “Amor Romântico” de trazer a felicidade necessária não só para enfrentar as vicissitudes da prisão, como para continuar sonhando com a tão esperada liberdade.

A pesquisa mostrou que a maneira direta de se comunicar, a forte credulidade nos valores que expressam e a grande aposta nas possibilidades de ser feliz indicam que a ideia do “Amor Romântico” reina soberana nas mentes de presos e de presas do Sistema Penitenciário Brasileiro; ou seja, não apresenta qualquer sinal de desgaste ou de descrédito vaticinado, como vimos, por autores de renome como Costa (1998) e Bauman (2004).

Como explicar esse tipo de comportamento e de crença, por parte da população do Talavera Bruce, no amor como um instrumento para enfrentar as dificuldades da prisão? Acreditamos que o “Amor Romântico” é tão bem interiorizado, de forma pré-reflexiva, que passa a ser completamente “naturalizado” (e, portanto, praticamente sem possibilidade de ser questionado nos seus pressupostos97); ou seja, ele passa a ser uma verdade inquestionável. Evidentemente, esse tipo de verdade levaria a uma defesa do tipo ortodoxa, para quem está de fora, e, naturalmente, para quem comunga esse tipo de valores naturalizados, é quase impossível sair desse discurso.

97 Apenas especialistas, acadêmicos da área de Humanas, intelectuais e um percentual de

pessoas melhor informadas são capazes de perceber que ele é fruto de uma construção cultural.

Isso não significa que essa naturalização ocorra segundo parâmetros lógicos, como, por exemplo, nunca trair o companheiro que ama. Aliás, como se trata de valores interiorizados, essa questão de uma possível lógica sequer pode vir a ser aventada.

Evidentemente, essas pessoas, por mais otimistas que sejam em relação ao “Amor Romântico”, não estão livres de enfrentar situações que as levem, na prática, a não funcionar de acordo com as suas crenças, mas essa “atuação” prática para resolver questões concretas dificilmente as levará a repensar esses valores.

CAPÍTULO 4

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