O Maracatu Cambinda Brasileira foi fundado, no Engenho Cumbe, na Chã de Cazumbá em Nazaré da Mata, em 05 de janeiro de 1918, está com noventa e sete anos de história, é o segundo maracatu de baque solto mais antigo de Pernambuco e é o mais rural mais antigo em atividades ininterruptas no estado.
A agremiação mais longeva de Pernambuco é o Maracatu Cambindinha, que fora fundado no dia 15 de dezembro de 1914, no Sítio Chã da Jaqueira, no Engenho Cotunguba, que, na época, pertencia ao município de Nazaré da Mata e hoje faz parte do território de Tracunhaém. Entretanto, o Cambindinha, hoje presidido pelo mestre Dedinha, tem sua sede na cidade de Araçoiaba..
Os moradores do Engenho Cumbe e membros do Maracatu Cambinda Brasileira defendem que o nome do maracatu seria oriundo do de um peixe de água doce que, por conta de seu preço razoavelmente baixo, é muito consumido pelas pessoas mais pobres da região. Em depoimento, o Senhor Zé de Rosa informa que:
no ano que foi fundada a brincadeira, o povo passando dificuldade inté pra comer. O tempo das vacas magra. Teve um inverno rigoroso, aí o rio transbordou. O morador de engenho foi tudo pescar. Aí as tarrafa vinha cheia somente de cambinda. Só se comeu cambinda por muito tempo (VIEIRA, S., 1999, p. 30).
Os membros mais antigos do Cambinda sempre fazem questão de transmitir aos mais jovens as histórias que escutaram de seus antepassados, principalmente no que se refere às origens do Maracatu e as diferenças entre a brincadeira do passado e aquela vivenciada pelas atuais gerações de maracatuzeiros.
Brincantes como Dona Joaninha, João do Padre, Joãozinho do Padre e José de Rosa representam a ancestralidade do maracatu rural e, sobretudo, da história da Cambinda do Engenho Cumbe. O caboclo Zé de Rosa, ao falar sobre as origens do maracatu defende que
a brincadeira do Cumbe foi formada em 1918. O primeiro dono daquele maracatu chamava Severino Lotero. Era dono e mestre. Brincou uns tempos, abandonou, não quis mais. Meu primo João Fulosino da Silva tomou conta, ficou como mestre também. Meu pai, mãe, minhas tia, contou. Eu muito criança, lembro ter visto uma vez. Aí botou o cunhado dele na brincadeira pra ensinar ele. Esse mestre chamava João Lauro. Até que João Fulosino afastou e chamou João Lauro pro lugar dele. Depois João Padre se juntou com João
Lauro e ficou dono desse maracatu, porque ele foi apartado. Aí trouxe pra essa sede do Cumbe que tá hoje [...] (SOARES, 2006, p. 6).
Ainda, em se tratando das origens do Cambinda Brasileira, Dona Joaninha, matriarca do Cambinda falecida em 2009, em depoimento para o mesmo livro, complementa que, para o maracatu transferir sua sede para o Engenho Cumbe,
teve que pedir permissão aos donos do engenho. Naquele tempo era Dona Rosinha Borba. Ele aceitou, mas pediu que fosse chamado de Cambinda Brasileira, mode de ser homenagem ao nosso país. Aí para o primeiro carnaval do brinquedo saído aqui do Cumbe, ela fez com suas mãos e deu a primeira bandeira, que hoje chamam estandarte. E no domingo de carnaval, antes do maracatu ganhar o mundo, o brinquedo ia se apresentar para a família, na frente da casa-grande (SOARES, 2006, p. 7).
Todavia, há de se respeitar a versão de Cascudo (2001), pois, como já afirmamos, o nome Cambinda é muito recorrente tanto nos maracatus rurais quanto nos maracatus nação da região metropolitana do Recife. Ademais, como boa parte do conhecimento construído na cultura popular é transmitido na oralidade de geração a geração, esse processo de transmissão pode-se dar de maneira fragmentada.
Ainda a respeito da origem do nome do Cambinda, Medeiros (2005, p. 169) aponta que, originalmente, o maracatu chamar-se-ia Cambinda Amorosa ou Cambinda Nova, o que atesta a fragmentação à qual nos referimos.
Durante seus quase cem anos de existência, o maracatu do Cumbe tem incorporado inovações como a inserção da corte, por exigência da Federação Carnavalesca; a ampliação do número de participantes. Além disso, no início o grupo era formado somente por homens, sendo: uma Catirina, que levava a calunga; o Mateus; a Burrinha; duas ou três baianas e cerca de uma dúzia de caboclos de lança.
Não existia uma orquestra, o ritmo era ditado pelos instrumentos de percussão, o terno, geralmente composto por um mineiro, uma cuíca (porca), um gonguê, uma caixa e um bombo.
As fantasias eram muito simples, a fantasia do caboclo de lança, por exemplo, foi- se modificando, enriquecendo e se enchendo de detalhes. Por isso, Benjamim (1989, p. 202) entende que o caboclo de lança (lanceiro) é o mesmo Mateus do bumba meu boi e do cavalo-marinho, só que mais rico em detalhes e com um novo papel. A esse respeito, O caboclo de lança Zé de Rosa, em depoimento a VIEIRA (1999), afirma:
as datas certas nem tenho lembrança. Mas foi mais ou menos assim. No início mesmo, os caboco (indumentária) era tudo uns pedaço de pau de um metro e meio com dez, quinze, tira de pano amarrado. O chapéu era chamado de funil [...] quando não saía descalço, os mais inteligentes que achava a poeira quente, fazia uma ‘pragata’ com solado de pneu e riata de couro de boi [...] O surrão,
fazia enrolado em folha de banana, chamava imbiriba [...] pendurava os chocalhos com arame, [...] botava nas costa e saía aquilo tudo solto [...]. A gola começou com espelho, ainda quando João Padre começou a brincar de caboclo de lança. Adepois veio o ajoufre, umas pedrinhas (...) Eu num tenho boa lembrança, mai acho que foi 50 pra cá. Aí foi ficando mai bonito que mais ou menos em 63 veio o vidrinho. Aí foi ficando mais rico (...) E agora a lantejoula, eu penso que ... de 80 pra cá é que começou a lantejoula. Os povo deixou de brincar com gola de vidrilho porque era muito pesada (...) Aí o maracatu agora ficou civilizado (...) VIEIRA (1999, p. 35).
Até o início dos anos de 1990, quando foi fundada a Associação dos Maracatus de Baque Solto, o Cambinda Brasileira, assim como outras agremiações, mantinha-se através das doações registradas nos livros de ouro. Além disso, os membros dos maracatus realizavam bingos e vendiam rifas de bodes, porcos e outros animais.
Com o advento da Associação, os maracatus institucionalizaram suas diretorias, de forma que pudessem receber o apoio financeiro da FUNDARPE. Além disso, a Prefeitura de Nazaré da Mata e políticos da região também destinam recursos para os maracatus rurais. Maracatu rural na Mata Norte de Pernambuco gera votos e, por isso, atrai muitos aspirantes à vida política, que veem em agremiações como o Cambinda a possibilidade de formação de sua base eleitoral.
A agremiação hoje é presidida pelo senhor José Manuel da Silva, conhecido como Zé de Carlos, que nasceu numa família de maracatuzeiros e sai como caboclo de lança no Cambinda desde o carnaval de 1969.
O Cambinda Brasileira é símbolo da ancestralidade do maracatu rural e se orgulha por ser um dos poucos que ainda mantêm sua sede na zona rural. Ademais, é latente o sincretismo religioso que envolve as apresentações do Cambinda, o que não ocorre em outros maracatus mais novos, a exemplo do Coração Nazareno, que não mantém nenhum vínculo com cultos da umbanda ou do catimbó.
A responsável pela condução dos ritos espirituais do Cambinda Brasileira é Dona Biu, que, além de ser a mãe de santo do brinquedo, costura as roupas que são usadas nas apresentações. No Cumbe, ritos cristãos, de matriz africana e de origem indígena convivem harmonicamente.
Os membros do Cambinda creem em santos católicos como São Jorge e Nossa Senhora do Rosário, mas também se sentem blindados pela ingesta da jurema e têm na figura da mãe de santo a sua protetora espiritual. Outro calço espiritual de que os folgazões se utilizam é o cravo, que levam na boca durante os dias de brincadeira. A esse respeito Dona Biu, mãe de santo do Cambinda Brasileira informa o que pede aos caboclos do seu maracatu.
Eu peço a meus folgazão quinze dia ou oito dia separado de mulher. [...] pega o cravo daqueles caboco todinho eu boto lá na minha jurema. Aí eu benzo todos lá na jurema. Hoje é Sábado de Zé Pereira. Aí chega meus folgazão pra pegar os cravo. Aí eu digo a eles. Que hora você vai sair de casa! Eu eu. Toma teu cravo. Na hora dele sair, eu mando um mestre sair tal hora. Tal hora vai sair um folgazão. Vá minha jurema [...] qualquer mestre que acompanhar aquele folgazão os três dias de carnaval. Aquele folgazão que brinca muito pesado, brinca três dias. Não sente canseira, dor nos ossos, dor de cabeça. Problema errado eles não pode chegar perto, se chegar ele arreia [...] porque ele não respeitou o calço que recebeu da jurema. O cravo e o mestre que foi acompanhar ele os três dia. Quando passa o carnaval aí cada cá vem me entregando os cravo que é para tirar os calço que a gente fez na jurema. Aí afasta aquilo tudo. Aqueles preparo que eu dei, que eu botei naqueles cravo, aqueles calço que eu fiz dentro da jurema pra eles, eu tô retirando tudinho de volta pra mim porque não é meu! Eu dei a eles emprestado pra três dia de carnaval. [...] Porque eu num benzi eles na jurema? (VIEIRA, 2011, p. 552).
Embora o Cambinda Brasileira seja um representante dos primeiros maracatus rurais do estado de Pernambuco, ele tem sido o precursor de diversas inovações nos maracatus orquestra. Um exemplo é o fato de ter sido justamente nos terreiros do Engenho Cumbe que as primeiras mulheres começaram a tomar parte da brincadeira.
Além disso, nos últimos carnavais, a Cambinda vem sendo conduzida por dois dos mais talentosos mestres da nova geração, entre 2011 e 2013, pelo mestre Carlos Antônio; e, em 2014 e 2015, pelo mestre Anderson, de Nazaré da Mata, que tem apenas dezenove anos e é conhecido em Pernambuco como o Neymar do maracatu, obviamente em alusão ao jogador de futebol.