No obra Memória dos Bairros, Nunes afirma que, a partir da fundação do DEMHAB, em 30 de novembro de 1965, através da Lei no 2902, abriram-se os caminhos para as primeiras remoções das famílias de baixa renda das vilas Ilhota, Theodora, Marítimos e Santa Luzia. Sendo os reassentados conduzidos para uma área distante 22 quilômetros do centro de Porto Alegre, denominada Restinga. Que, após a implantação da Nova Restinga, ficou sendo chamada de Restinga Velha.
O caso da Restinga é emblemático. Localizada a 22km do perímetro central, e isolada dos equipamentos urbanos,a Restinga foi criada a partir de 1964 pela Prefeitura(com financiamento do Plano Nacional de Habitação Popular), para funcionar como centro de triagem da população. Entre os anos de 1971-1976 chegou a receber 2.020 famílias removidas de outras vilas (sendo 1.273 na Restinga Velha e 747 na Restinga Nova), tornando-se, na década de 90, um bairro com mais de 100 mil moradores de baixa renda, cuja relação com o poder público (Executivo e Legislativo) foi marcada por forte conteúdo clientelista na distribuição de casas. Ainda na década de 70, foram lançados diversos programas e projetos estatais relacionados direta ou indiretamente com o problema social e político da crescente
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favelização em Porto Alegre. Além do projeto CURA (Comunidade Urbana para Recuperação Acelerada) instituído nacionalmente e financiado pelo BNH, em 1972, cuja intenção era promover a urbanização das cidades (não se destinando, portanto a construção de unidades habitacionais) [...].129
Restinga, no dicionário Aurélio Buarque de Hollanda significa: pequeno arroio, com as terras cobertas de mato, sanga. Lá está localizado o Arroio do Salso, o maior em extensão da cidade.
As remoções eram executadas de forma traumática, as populações não eram consultadas, e além de tudo eram usurpados de “sua maloquinha”.
A visão corrente dos administradores na época era de que o que é “feio” deve ser distanciado, em acordo com as concepções higienistas do início do século passado, em consonância com os interesses das camadas de renda maior.
Vários depoimentos na obra Memória dos Bairros, relatam que em sua maioria, os removidos tinham seu sustento próximo dos seus locais de origem. O que trouxe um enorme prejuízo para os reassentados, pois desta forma estavam distantes de suas ocupações e lugares originais.
O território chamado Restinga era uma sesmaria de propriedade de Sebastião F. Peixoto e tinha atividade agrícola. Não tinha ligação com o rio Guaíba. Foi considerada área rural até 1971, depois determinada como área urbana - para justificar os reassentamentos - sem, no entanto ter a mínima urbanização. Não havia rede de água instalada, de esgoto, de iluminação, assim como não havia escola nem creches.
Vários depoimentos relatam que muitas famílias eram oriundas de ocupações organizadas próximo ao centro, ou seja, já tinham alguma experiência organizativa. Diante de tantas precariedades, iniciou-se a organização, com abaixo assinados, reuniões com representantes do governo. Uma das principais reivindicações era uma escola primária.
O papel da Igreja foi fundamental, nas organizações, nas lutas, no conforto e na sociabilidade. Inclusive na formação de um conjunto musical, que mais tarde vai dar origem a primeira escola de samba.
Contudo, vários “políticos” foram promovidos e prestigiados, pois no entender de muitos “limparam a cidade”, e para os moradores da Restinga conseguiram algumas benfeitorias na região, como um poço, um bico de luz, um horário melhor para os ônibus, etc..
Na verdade, de 1966 até 1971, não houve um desfavelamento, só mudaram de endereço as precariedades, que ficaram agravadas devido a distância de recursos, da dificuldade ainda maior
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de arranjar trabalho e no desconforto de suas residências. Embora a proposta veiculada pelo DEMHAB fosse outra. O que de fato ocorreu foi a construção de casas de madeira com dois cômodos e a promessa (que não se confirmou) de casas de alvenaria, que nunca chegaram na Restinga Velha.
Nunes aponta, que apesar das dificuldades a população criava seus laços, construía, aos poucos a sua identidade, nos momentos de luta e de confraternização irmanavam-se. Exemplo disso foi a organização social com festividades: bailes do Ademar, Niuvo, Salão de baile do seu Valdir, Clube das Sete Facadas.
A região da Restinga, apesar de ser longe, também atraía famílias que não possuíam outra alternativa de moradia. Tanto que o DEMHAB vai assumindo algumas tarefas, que legalmente não seriam do órgão, como patrolamento de loteamentos clandestinos e irregulares que também se desenvolveram na região, que era vasta em território. Logo, é importante ressaltar que existe uma parcela da população na Restinga Velha que não foi reassentada.
Em 1977 aconteceu um Mutirão, a imprensa noticiava a ação conjunta da prefeitura, onde a mesma refere uma ação “desfavelamento”, que consistia numa união de forças de DMLU - Departamento Municipal de Limpeza Urbana, SMSS - Secretaria Municipal de Saúde e Serviço Social, SMEC - Secretaria Municipa de Educação e Cultura, ou seja, um período onde várias secretarias municipais somariam esforços para, mesmo que pontualmente, aliviar um pouco a precariedade das condições de vida do povo da Restinga. Esta ação noticiada vem confirmar a reterritorialização da precariedade. Numa clara transferência de problemas estruturais para uma área invisível da cidade. No entanto, a comunidade pressiona por melhorias, e, mesmo num período de ditadura militar, algumas mobilizações surtem efeito:
Em 1977, começa a haver a regularização da vila Restinga Velha. Assim ficou conhecida a primeira parte a ser ocupada do Complexo Restinga, utilizado para trazer famílias removidas de outros locais da cidade. O Departamento, preocupado com as péssimas condições deste núcleo, organiza um mutirão com a participação do Departamento, do DMLU e da comunidade [...]. O DEMHAB também fez investimentos que beneficiaram cidadãos com regularização de lotes.
Em 1976, o Pro- Gente inicia alguns melhoramentos, mas atende só o núcleo original da Restinga Velha e o conjunto Sargento Hollenbach, construído em 1978.
A partir deste momento, a Vila Restinga passou a ser oficialmente denominada Restinga Velha e junto a ela se agregaram vários outros núcleos. Eram núcleos de ocupação irregular, alguns com o consentimento do proprietário da área, outros sem este consentimento do proprietário, e transferências feitas pelo próprio DEMHAB. Assim foram surgindo o Beco do Bita, Barro Vermelho I, Barro Vermelho II, Cabriúva, Figueira, Castelo, Esperança, Santa Rita, Nova Santa Rita e Chácara do Banco.130
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A Restinga Velha possuía uma precária infra-estrutura, e o que contrastava na época (e ainda hoje), eram as condições das casas, das ruas, das praças, os centros comerciais, as redes instaladas na Nova Restinga representavam o oposto das condições em que viviam os moradores da Restinga Velha. Apenas separados por uma avenida, João Antônio da Silveira. Para os parâmetros impostos pelo BNH, os moradores da Restinga Velha, eram “desclassificados”.