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2.1.1 Os antecedentes: o Estruturalismo de Saussure

Na história das Ciências Humanas e Sociais, a década de 1960 foi o tempo de predomínio incontestável do estruturalismo. Ferdinand de Saussure era a autoridade de maior relevância na área linguística. De notável amplitude, o

estruturalismo conferia cientificidade aos estudos da linguagem e ocupou um espaço

que antes era exercido por correntes como o existencialismo e o marxismo.

Entretanto na década seguinte, 1970, começava um movimento de questionamento aos princípios estruturalistas, crise que se agravou na década de 1980, quando se tornou consenso a contestação às ideias de Saussure. Nesse movimento, foram incluídas nos estudos sobre a linguagem discussões sobre o papel da fala, do sujeito, da ideologia, do social, da história, da semântica, dentre outros, abrindo possibilidades para o surgimento de várias novas disciplinas.

Estas tiraram a relevância da teoria da linguagem, da mesma forma que a sincronia e corte saussureano. Em seu lugar, propuseram uma análise transfrástica e subjetiva da linguagem. A questão central da linguística saussureana, língua x fala, é superada pelo reconhecimento da dualidade constitutiva da linguagem: por um

38 lado ela é formal, por outro é atravessada por aspectos subjetivos e sociais. É neste contexto que se situa o surgimento da análise do discurso (AD).

Essa nova metodologia surge no final dos anos 1960. Para muitos, sua fundação ocorre precisamente em 1969, com o lançamento do livro Análise

automática do discurso de Michel Pêcheux. Patrick Charaudeau (2004 apud

Carneiro, 2007:12) destaca que, com a AD, “pela primeira vez na história, a totalidade dos enunciados de uma sociedade, apreendida na multiplicidade de seus gêneros, é convocada a se tornar objeto de estudo”.

Em sua obra, Pêcheux percebe que são diferentes a transmissão de informação e o ato de dizer. Em comum, eles têm o discurso, que passa então a ser o objeto da AD. O discurso invoca a linguagem a uma exterioridade, tanto ideológica, quanto social e envolve questões de natureza não estritamente linguística. Ao romper com os postulados da linguística clássica, a AD define-se como um estudo linguístico interdisciplinar e cria a “tríplice aliança”, que é composta pela teoria da história – que busca a compreensão dos fenômenos das formações sociais –, pela teoria da linguística – que investiga os processos de enunciação –, e pela teoria do sujeito – que procura entender a subjetividade e a relação do sujeito como símbolo.

2.1.2 O discurso na Análise do Discurso

A AD tem como objeto o discurso. Este deve ser debatido teórica e metodologicamente, pois este debate é o objetivo da AD. Debater o discurso é discutir a linguagem como prática social, diferentemente da linguística crítica (LC).

A AD possibilita a tríade língua-discurso-ideologia. Esta se completa quando “o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a língua faz sentido.” (Pêcheux, 1975 apud Orlandi, 2005:17). A AD interage por entre esses campos, formando um novo objeto – o discurso.

A verdade apregoada pelo discurso é uma construção; sua naturalidade, uma miragem discursiva. A palavra dita nunca é ingênua, mas um exercício de poder. Por meio do discurso, as forças hegemônicas se viabilizam como tal. Michel Foucault (2009: 9) complementa: “o discurso é além do produto de lutas, ou mesmo o sistema de dominação; é a razão de se lutar”.

39 Pressupondo que a AD busca o sentido ou sentidos elaborados pelo sujeito quando pronuncia seu discurso, as suas intenções e a forma como ele é percebido pelo receptor, Pêcheux (1969 apud Silva, 2004:1) define discurso como “efeito de sentidos entre interlocutores.”.

Toda a AD é baseada no sujeito, pois é ele o autor dos discursos, entretanto, o sujeito não é o centro do seu discurso, visto que, para essa abordagem, ele não tem poder de decisão ou estratégia de produção discursiva. O sujeito do discurso é determinado e, sem consciência, diz o que seu papel na formação social o obriga a dizer. Ele pensa ter pleno domínio do que fala, mas os verdadeiros autores são o inconsciente e as ideologias, que compõem sua formação idiossincrática, introjetada e incapaz de ser desalojada por este sujeito.

Sabemos que o discurso é sempre produto de interdiscurso e que aquele que profere o discurso crê ser o autor dele, contudo, é somente suporte e efeito. É, com razão, descentrado, dividido, convivendo dentro de si com vários discursos. Jacqueline Authier-Revuz (1990 apud Silva, 2004:2) acrescenta outros aspectos dessa relação entre o discurso e o papel do sujeito:

Sempre sob as palavras, “outras palavras” são ditas: é a estrutura material da língua que permite que, na linearidade de uma cadeia, se faça escutar a polifonia não intencional de todo discurso, através da qual a análise pode tentar recuperar os indícios da „pontuação do inconsciente‟.

A AD também tem como base a língua e a história, que vão atuar conjuntamente no discurso. Busca, portanto, o contexto em que é construído o

discurso, os seus possíveis sentidos. E é no contexto histórico-social que a AD vai

organizar o discurso e obter os sentidos. Ou seja, “os efeitos de sentido” vão ser provocados pelos sujeitos discursantes nos sujeitos ouvintes.

Fala-se de “efeitos de sentido” porque a AD percebe a transmissão de informações entre interlocutores como ambígua e passível de mal-entendido. Isto vai depender de onde os interlocutores estão inseridos, suas diferenças ideológicas ou de formação discursiva, que resultarão em diferentes entendimentos para um mesmo dizer.

No estudo do discurso, inclusive o noticioso, deve ser mencionado o conceito de não-dito que van Dijk (1988:64) define como as proposições de um texto que se

40 deduz ou se pressupõe a partir das informações contidas no texto, sendo estas últimas expressas de modo indireto ou incompleto. Para o pesquisador holandês,

não-dito na notícia pode ocorrer quando o jornalista não esclarece uma informação

por pressupô-la conhecida. Mas o não-dito pode ter várias outras origens: semântica, pressuposições, sugestões e associações. Alguns conhecimentos e crenças se mantêm implícitos exatamente porque não necessitam ser expostos, já que, por suposto, compartilhados socialmente. Van Dijk (1988:64) ressalta a importância do não-dito como instrumento sutil para a análise ideológica do discurso noticioso:

um exame da coerência da (notícia) local ligando proposições nos capacita, então, explicitar as suposições tácitas e crenças do emissor/escritor. Desse modo, os elementos do discurso não-ditos, ainda que não explicitados, irão delimitar o discurso noticioso – especialmente em seu estilo – como os traços sociais e ideológicos.

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