Na lógica da cultura de mercado, consumir bens e serviços é ser cidadão; na lógica da cultura gospel, consumir bens e serviços religiosos é ser cidadão do Reino de Deus. Nesse caso, o consumo não é apenas uma ação que responde à lógica do mercado, mas constitui elemento produtor de valores e sentidos religiosos (CUNHA, 2007, p. 138).
Liberdade e concorrência tornaram-se as palavras de ordem para os fiéis e para as igrejas, respectivamente. A maior parte das denominações cristãs passou a encarar o campo religioso brasileiro como um mercado a ser conquistado, através da gestão profissional e do uso de ousadas estratégias (LOPES & REZENDE, 2009). O debate brasileiro sobre essas transformações está obtendo cada vez mais espaço. Muitos congressos são promovidos para compartilhar as recentes pesquisas do campo religioso; revistas, mesmo de outras áreas do conhecimento, têm publicado artigos sobre o tema; dissertações e teses sobre as estratégias de mídia de certas denominações estão sendo elaboradas e a discussão na academia tem desafiado os pesquisadores. Nesse sentido, tentar pensar o objeto de estudo aqui proposto a partir do exercício intelectual promovido por Mills (1965) em a imaginação sociológica, qual seja, compreender a relação entre as estruturas sociais e os problemas pessoais, parece-nos um dos exercícios de reflexão intelectual dos mais desafiadores.
Sendo assim, o que observamos através da literatura investigada e a partir dos depoimentos dos sujeitos participantes da pesquisa, é que o mercado religioso brasileiro mostra-se secularizado, pluralista e competitivo. A secularização permitiu que a sociedade moderna não buscasse respostas exclusivamente na religião, que agora deve manter um diálogo com outras áreas do conhecimento. A pluralidade religiosa, assegurada pelo Estado, e a liberdade individual moderna, moldaram o trânsito religioso atual e acirraram a competitividade do mercado.
Foi partindo dessas premissas e baseado nas informações verificadas no campo de pesquisa na Avenida Cruz Cabugá no Recife-PE, onde investigamos as igrejas neopentecostais IURD, IIGD e IMPD, que chegamos a algumas considerações que foram e são construídas de forma dinâmica, como assim também o é o campo religioso, por isso não nos permite elaborações fechadas e de caráter hermético, mas nos aponta para uma religiosidade que está em constante movimento e que se manifesta na vida das pessoas, das instituições e de seus líderes.
Uma primeira constatação é a de que a nova relação entre religião e finanças identificadas na prática dessas igrejas teria consequências e desdobramentos significativos para os fiéis e para o neopentecostalismo como um todo. Um expoente clássico nessa discussão é “Calvino, que não via na riqueza do clero nenhum empecilho à sua eficiência, mas antes via nisso uma expansão desejável de seu prestígio. E até lhe permitia aplicar seus recursos a juros” (WEBER, 2004, p.123). O modelo ascético protestante valorizou como nunca a vocação e a finalidade do trabalho voltado para a glória de Deus. O acúmulo de riquezas era uma ação natural da graça divina na vida do fiel, necessitando apenas de uma aplicação não voltada para os prazeres mundanos. Essa quebra do paradigma medieval colaborou não apenas para o modelo econômico capitalista59, mas para a inserção das denominações cristãs posteriores nessa mentalidade.
Assim, a riqueza seria eticamente má apenas na medida em que venha a ser uma tentação para um gozo da vida no ócio e no pecado, e a sua aquisição seria ruim só quando obtida com o propósito posterior de uma vida folgada e despreocupada. Mas, como desempenho do próprio dever na vocação, não é só permissível moralmente, como realmente recomendada. A parábola do servo fiel que foi rejeitado pelo Senhor, por não ter feito frutificar o talento que lhe fora confiado, parece afirma-lo claramente. Querer ser pobre era, como foi mencionado várias vezes, o mesmo que quer ser doente; era reprovável em relação à glorificação do trabalho e derrogatório para a glória de Deus. Especialmente a mendicância por parte dos que estão aptos para o trabalho não é apenas um pecado de indolência, mas também uma violação segundo as próprias palavras do apóstolo, do dever de irmandade (WEBER, 2004, p. 127)
A proposta da economia religiosa60, do sociólogo Rodney Stark e seus colaboradores, tem uma visão mais positiva do pluralismo religioso:
59 A afinidade entre protestantismo e capitalismo está principalmente na lógica de funcionamento. Para
ambos o trabalho é extremamente valorizado e sua receita excedente deve ser reinvestida na capacidade produtiva. Outro ponto é o valor intrínseco ao dinheiro: “Para Calvino, diferentemente de Aristóteles e Tomás de Aquino, que entendiam que o uso do dinheiro era apenas como meio de troca, o dinheiro é uma mercadoria, portanto ele é produtivo, desde que seja usado como objetivo de promover a economia por meio da indústria e do comércio, e não ser usado para socorrer as necessidades de alguém. Assim o dinheiro só tem caráter produtivo se for usado como investimento” (SOUZA, 2008, p.197)
60 Segundo Mariano (2008, p. 48): “Os expoentes da teoria da escolha racional da religião propõem que
o foco analítico seja deslocado da demanda para a oferta religiosa, proposição que tem por efeito enfeixar as abordagens sociológicas da religião no interior dessa dicotomia. A versão radical dessa teoria, esboçada por Stark, Finke e Lannaccone, parte do pressuposto de que a demanda religiosa é relativamente estável, o que justifica sua opção teórcia por depositar as fichas da explicação na pesquisa da oferta religiosa. Isto é, sendo a demanda praticamente constante, os níveis de participação religiosa podem ser mais bem explicados em termos de oferta”.
Para os teóricos norte-americanos a existência de um mercado é parte constitutiva de qualquer economia religiosa. Dado o caráter segmentado do mercado, estas economias deveriam estar compostas por distintas organizações religiosas que pudessem, em conjunto, satisfazer aos distintos nichos sociais. A situação natural de uma economia religiosa é o pluralismo, e o monopólio só é possível (ainda que só de modo incompleto) quando uma organização consegue o apoio do Estado para regulá-lo fortemente. A desregulação do mercado e da economia não leva a um estado inferior da atividade religiosa, mas a intensifica - na medida em que mais organizações oferecem seu produto mais eficiente e vigorosamente. Nada na teoria supõe que prover religião vigorosa e eficazmente implique racionalização, burocratização ou gestão empresarial, mas principalmente, a capacidade de gerar compromisso por parte de seus integrantes (FRIGERIO, 2008, p.24).
Além dessa questão, constatamos que o cenário secularizado, pluralista e competitivo em que se encontra o universo religioso, proporcionou um ambiente propício para a inserção do marketing no mundo religioso. Por meio de suas ferramentas, o marketing tem o objetivo de maximizar as relações de troca entre consumidores e fornecedores, agregando valor às mercadorias e serviços oferecidos de acordo com as necessidades e desejos do público alvo.
Todas as ações de marketing são desempenhadas dentro de um mercado e convém explicar esse conceito em duas linhas de conhecimento: a mercadológica e a sociológica. Para o marketing, mercado é “o conjunto de todos os compradores, efetivos e potenciais, de uma oferta de mercado” (KOTLER, 2000, p.140). É uma definição que abrange todos os tipos de mercado, sem considerar suas especificações. Em uma linha sociológica, o mercado religioso é tratado com mais profundidade. Pierre Bourdieu propõe um campo de força com quatro esferas de poder: os sacerdotes e a igreja, com seu conhecimento especializado e detentores de autoridade intrínseca ao cargo que ocupam; os leigos, que representam a demanda pelos bens religiosos; os profetas e suas seitas, os inovadores do campo religioso, que desafiam a autoridade estabelecida dos sacerdotes com seus discursos e práticas; e finalmente, os magos, interessados em atrair a demanda dos leigos (que se tornam clientes) para sua pessoa e seus serviços, sem construir novas estruturas religiosas. Invariavelmente, “toda seita que alcança êxito tende a tornar-se igreja, depositária e guardiã de uma ortodoxia, identificada com as suas hierarquias e seus dogmas, e por essa razão, fadada a suscitar
uma nova reforma” (BOURDIEU, 2001, p. 60). Um outro fator de transitoriedade do campo religioso está nos papéis desempenhados pelos seus atores:
O que se pode perceber é que esses agentes religiosos (sacerdotes, profeta e mago), que atuam no campo podem transitar entre as funções. Vale lembrar que esses conceitos foram desenvolvidos inicialmente por Weber, que não os tomara como conceitos estanques, mas previa uma relação, um intercâmbio entre os mesmos. Por isso é possível entender que um único líder assuma ora uma função, ora outra função. Em outras palavras, um profeta pode vir a ser um sacerdote e agir de maneira tal, que sua ação possa ser enquadrada como um ato mágico. O líder carismático pode ser profeta, sacerdote e, simultaneamente aos dois, ser um mago (MORAES, 2008, p. 100).
Vale ressaltar que, em algumas igrejas, sobretudo as neopentecostais, o marketing não é apenas um conjunto de ferramentas importadas do mundo empresarial, mas é a própria área de formação dos seus fundadores. Podem ser citados dois exemplos de igrejas recentes cujos líderes vieram da área de marketing. O primeiro é o fundador da Igreja Apostólica Renascer em Cristo: “Estevam [...] cursou até o terceiro ano de Administração de Empresas, especializando-se em marketing. Foi por mais de 12 anos, gerente de marketing da Xerox do Brasil e da Itautec” (SIEPIERSKI, 2003, p.130).
O segundo exemplo é o fundador da Bola de Neve Church, que, inclusive, utiliza o princípio da segmentação de mercado ao se dirigir prioritariamente ao público jovem (surfistas em sua maioria). “Rinaldo de Seixas Pereira, da Bola de Neve Church, é formado em propaganda e marketing, com pós-graduação em marketing” (PEREIRA; LINHARES, 2006, p.82 apud LOPES & REZENDE, 2009).
Podemos também aprofundar o entendimento do mercado religioso através da análise que empreitamos sobre a pluralidade. Um ambiente com diversos concorrentes, como é o caso do nosso campo de pesquisa, é benéfico ou não para a manutenção das estruturas religiosas? Berger postula que o pluralismo levou a religião para a burocratização e a cartelização (pelo ecumenismo) dos bens de salvação e mais:
Os efeitos da situação pluralista não se limitam aos aspectos socioestruturais da religião. Elas afetam também os conteúdos religiosos, isto é, o produto das agências religiosas de mercado. [...] Enquanto as instituições religiosas ocuparam uma posição de monopólio na sociedade, seus conteúdos podiam ser determinados de acordo com qualquer saber teológico que parecesse plausível e/ou conveniente para a liderança religiosa. [...] A situação pluralista,
todavia, introduz uma nova forma de influencias mundanas, provavelmente mais poderosa para modificar conteúdos religiosos do que as antigas formas, como os desejos de reis ou os capitais investidos de classes: a dinâmica da preferência do consumidor (BERGER, 2004, p. 156).
Esse ambiente de pluralismo e juntamente com uma concorrência aberta e acirrada entre as igrejas neopentecostais, finda proporcionando um efeito muito comum, o mesmo encontrado em outros “mercados”, que é o de gerar novas necessidades nos consumidores dos bens de consumo, sejam eles o de consumo religioso ou de outra natureza.
Na medida em que as “necessidades” religiosas de certas camadas de clientes, ou de clientes potenciais, são semelhantes, as instituições religiosas, ao atender a essas “necessidades”, tenderão a padronizar seus produtos de acordo com elas. [...] Essa padronização dos conteúdos religiosos, desenvolvida pela pressão do consumidor, tende a dar pouca ênfase às confessionalidades tradicionais (BERGER, 2004, p.159).
Ao traçar esse itinerário de análises em que trouxemos a visão dos autores que nos deram bases teóricas para nossa investigação, ficamos com a impressão que existem duas formas de ver a realidade das igrejas pesquisadas, realidade essa que nem sempre compartilham de uma mesma visão. A primeira delas é a dos teóricos que procuraram ver entre essas igrejas puramente relações de concorrência que são definidas através de ações expressas e realizadas no dia-a-dia dessas instituições. A segunda visão é a dos fiéis, dos frequentadores dessas igrejas, pois esses veem os fatos de outra ótica.
A impressão dos contatos que tivemos em nosso campo de pesquisa, com os obreiros, fiéis e frequentadores dos cultos dessas igrejas nos revela uma possibilidade de leitura diferente. Para eles, o mundo ainda oferece uma dose de encantamento. Esse encantamento é o que leva diariamente dezenas de pessoas comuns que trabalham nas proximidades da Avenida Cruz Cabugá, dentro do seu reduzido horário de almoço, por exemplo, tirarem um “tempinho” para ir buscar uma oração, uma palavra de conforto dos obreiros que se encontram durante o dia todo na igreja. Disso decorre boa parte da eficácia dessas igrejas.
Pessoas, que independente do que se diz ou se pensa dessas instituições, enxerga nelas um escape, uma possibilidade para amenizar sua dor, sua solidão, ou
outra situação que as estejam lhe incomodando. Assim, o “conflito” que é gerado pelas relações de concorrência estabelecidas entre as igrejas para conquistar o público e aumentar o capital simbólico de cada uma é feito num nível em que o encantamento do mundo não é afetado.
Por outro lado, os transeuntes possuem uma visão mais próxima do que é discutido na academia em relação às estratégias utilizadas pelas igrejas, pois para eles, por mais que não se tire a “boa intenção” e religiosidade de muitos dos que compõe essas igrejas na busca de promover auxílio espiritual, no final das contas, tudo aponta para um campo que está baseado na disputa de novos fiéis, onde para conquista-los são válidas todas as estratégias que estão ao alcance, onde nem sempre é “dado a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Diante dessa rápida recapitulação das principais categorias analíticas abordadas nesse trabalho, as quais voltamos a utilizar o nosso referencial teórico, trazemos algumas ponderações: quais os efeitos que a concorrência entre os neopentecostais irá trazer a médio e longo prazo para o ethos dessas igrejas? Essa concorrência tende a ser pulverizada entre outras denominações além das que pesquisamos, ou irá se concentrar entre elas? Caso haja essa concentração, haveria alguma relação com a gênese dessas denominações, haja vista estarem ligadas historicamente, pelo menos na biografia de seus líderes?
O fato é que fazer prognósticos num campo tão movediço, como é o religioso se torna uma tarefa ingrata, mesmo diante de pesquisas e de certo material científico já produzido sobre o tema. O que não nos limita dizer que essas igrejas, por sua natureza e identidade, tem assumido uma dimensão “Universal”, estabelecendo estratégias de alcance “Internacional”, e que produzirão no ambiente religioso, como já estão produzindo, efeitos a nível “Mundial”.
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