...o desfecho dos grandes movimentos históricos não pode ser o efeito da única luta entre a razão e instinto, entre tolerância e crueldade ou brutalidade, mas que depende, em última instância, da relação entre a ação das personalidades históricas eminentes e as aspirações das massas populares mais amplas (TERTULIAN, 2008, p.171).
Lukács (2011) situa o surgimento do romance histórico em pelo menos dois momentos. O primeiro a partir do surgimento do romance social do século XVIII com Henry Fielding, Jonathan Swift e William Tackeray, e, em seguida, na nova percepção da história a partir do início do século XIX, quando Waverley, de Walter Scott, apareceu logo depois da queda de Napoleão, em 1814.
Segundo ele, após a experiência francesa das guerras revolucionárias, da ascensão e da queda de Napoleão, num período entre 1789 e 1814, foi possível ao homem compreender a sua própria existência como historicamente condicionada e ver na história alguma coisa que
afetava profundamente sua vida cotidiana – e que lhe dizia respeito de modo direto. Para ele, é desse contexto que nascem as condições concretas para que os homens concebam suas existências como algo fundado historicamente e vejam, na história, uma influência profunda sobre o seu cotidiano.
A consciência histórica da ‗historicidade da vida concreta‘ dos homens soma-se à consciência, simultaneamente nacionalista e internacionalista, de que a história de cada nação liga-se a de outras nações de modo a discriminar o que é local e típico, em contraposição às outras localidades e tipicidades. O fundamento desses caracteres distintivos deve ser trazido do passado. É a Europa, portanto, o lugar do solo social e ideológico que faz surgir o Romance Histórico43. É essa convulsão do ser e da consciência dos homens que vivem na Europa que formam as bases ideológicas e econômicas para o surgimento do Romance Histórico de acordo com o que podemos ler em O Romance Histórico, de Lukács.
Nessa compreensão, é Walter Scott, segundo Lukács, a grande referência entre os criadores do Romance Histórico. Dentre os traços estéticos que o seu romance introduziu na literatura épica, por exemplo, podemos citar o amplo retrato dos costumes e das circunstâncias dos acontecimentos; o caráter dramático da ação; e o novo e importante papel do diálogo nas narrativas. Em uma época em que toda a Europa é dominada por uma ideologia pós- revolucionária, esses traços mostram-se na Inglaterra – o grande modelo de desenvolvimento do continente44 – de modo muito especial. Não foi por acaso que esse novo tipo de romance surgiu exatamente naquele país45.
A relativa estabilidade do desenvolvimento inglês nessa época conturbada, em comparação com o continente, possibilitou que o sentimento recém-despertado pudesse se condensar em uma forma grandiosa, objetiva e épica. Essa objetividade é ainda intensificada pelo conservadorismo de Walter Scott. Com sua nova visão de mundo, ele permanece fortemente ligado às camadas da sociedade arruinadas pela Revolução Industrial, pelo rápido desenvolvimento do capitalismo (LUKÁCS, 2011, p.48).
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É o próprio Lukács (2011) quem dá essa resposta a respeito de uma forma clássica do romance histórico.
44Segundo Hauser (1972), no século XVIII, o comando das atividades intelectuais passa da França para uma
Inglaterra econômica, social e politicamente mais progressiva. O grande movimento romântico aí se inicia em meados desse século, mas o Iluminismo recebe também deste país o seu impulso definitivo. São as instituições inglesas a referência para o progresso.
45Os importantes traços realistas do romance inglês dessa época são consequências necessárias do caráter pós-
revolucionário do desenvolvimento da Inglaterra. O fato de a Inglaterra ter travado sua revolução burguesa no século XVII, e desde então, ter passado por um período de desenvolvimento duradouro, pacífico e progressista sobre as bases das conquistas da revolução burguesa mostraram que a Inglaterra era um exemplo prático para o novo estilo de concepção histórica (Ibid.).
Para Lukács, os contextos do iluminismo e da revolução francesa foram, em linhas gerais, momentos especiais para o nascimento e a consolidação do Romance Histórico clássico46, portanto. A construção da História, que por vezes revela fatos novos e grandiosos, serve para provar a necessidade de revolucionar a sociedade a fim de extrair, das experiências da história, princípios com os quais pode se criar e fazer nascer uma sociedade pensante. A França foi o país que mais se destacou intelectualmente no período do iluminismo militante, por exemplo.
Como consequência, a ascensão consciente da importância do historicismo apresenta suas raízes na discrepância entre o atraso econômico e político das nações – das sociedades de uma maneira geral. A Revolução Francesa, as guerras revolucionárias, a ascensão e queda de Napoleão fizeram da história uma experiência de massas em uma escala continental. Entre 1789 e 1814, as nações europeias viveram mais revoluções que em séculos anteriores.
Segundo Lukács,
a celeridade das mudanças confere a essas revoluções um caráter qualitativamente especial, apaga nas massas a impressão de acontecimento natural, torna o caráter histórico das revoluções muito mais visível do que costuma ocorrer em casos isolados. Se a essa experiência vem unir-se o reconhecimento de que tais revoluções ocorrem no mundo inteiro, fortalece-se extraordinariamente o sentimento de que existe uma história, de que essa história é um processo ininterrupto de mudanças e, por fim, de que ela interfere diretamente na vida de cada indivíduo (2011, p.38).
Na França ocorreu a necessidade de compartilhar o conteúdo e a finalidade do conflito com as massas populares (LUKÁCS, 2011). A revelação do conteúdo social, pressupostos históricos e circunstâncias da luta, estabeleceram a necessidade de uma conexão da guerra com a vida47 em sua totalidade e com as possibilidades de desenvolvimento do ponto de vista da nação. Na luta contra a coalizão das monarquias absolutistas48, a República da França foi forçada a criar exércitos de massa, de massa qualitativa, pois dizia respeito exatamente aos interesses de todos. A reivindicação da autonomia está ligada a um novo despertar da história nacional, com recordações do passado, da glória passada e também dos momentos de derrota. Lukács deseja implantar, portanto, o debate estético em uma ampla interpretação da história. A sua repulsa a toda forma de subjetivação da história resulta da própria convicção
46Lukács considera que sempre houve romances de temática histórica, desde adaptações de histórias e mitos
antigos da Idade Média até narrativas encontradas na Índia e na China. Para ele, os chamados romances históricos do século XVII (Scudéry, por exemplo) são históricos apenas por sua roupagem.
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Assim, criam-se possibilidades concretas para que os homens apreendam sua própria existência, como algo historicamente condicionado, e vejam, na história, algo que determina profundamente sua existência cotidiana.
48 As guerras napoleônicas provocaram por toda parte uma onda de sentimento nacional e revolta contra
profunda de que o destino dos movimentos históricos repousa em uma multidão de fatores objetivos e subjetivos – e são os primeiros que desempenham o papel decisivo, ainda que a importância dos fatores subjetivos não seja menor.
Nesse sentido, Lukács demonstra simpatia por escritores que correspondem à sua sede de autenticidade histórica, ou seja, os que sabem dar uma imagem multiforme dos acontecimentos históricos, observando a justa proporção entre os fatos e os gestos das personalidades, bem como às correntes populares da ocasião.
Não se deve esquecer outra condição fundamental para escrever um bom romance histórico: a aptidão para evocar os acontecimentos passados não com a curiosidade distanciada de um arquivista ou museólogo, mas considerando-os como precursores orgânicos, ainda que através de múltiplas mediações do presente. Deve-se considerar também o fluir da comunicação entre o passado e o presente, o sentimento do passado com pré-história do presente. Tais aspectos constituem sinais que distinguem verdadeiros êxitos do gênero histórico (TERTULIAN, 2008, p. 172)..
Segundo podemos entender em O Romance Histórico, o grau de profundidade, de densidade e de pregnância artística das obras não está desvinculado de sua inserção específica na dinâmica do progresso histórico do contexto no qual ela foi produzida. A relação entre os períodos em que as obras foram escritas e o nível de consciência histórica dos escritores se mostram tão estreitos que seus julgamentos estéticos – sobre o que ocorreu na história – chegam a ser, até mesmo, mais temerários.
A solidez do ponto de vista de Lukács com relação à qualidade do romance histórico se prende ao fato que a perspectiva histórica dos escritores deve ser analisada no nível da imanência49 artística das obras, bem como no nível de suas convicções explicitas. Nesse sentido, a glorificação de Walter Scott se dá, muito mais, às razões históricas que o seu romance evoca do que a razões estritamente estéticas. Para Lukács, é a partir de Walter Scott que o aspecto da historicidade revelada nos destinos e nas paixões humanas expressas pelas personagens em seus romances que marcam esse gênero na literatura.
Dentre os argumentos que levam Lukács a considerar um romance denominado de ‗histórico‘ está aquele em que a ação gira em torno de grandes crises históricas, da encenação de meios sociais muito variados e de estratificação complexa bem como da presença de personagens de envergadura média, que não apagam o foco das principais forças político- sociais antagônicas envolvidas e reveladas no enredo do romance. De uma maneira muito
49A ―imanência‖ está diretamente ligada à finalidade do romance ou resultado de seu efeito. O termo aplicado na
passagem acima apresenta o romance como um espaço que compartilha os limites da experiência possível – contrapondo-se, portanto, aos princípios "transcendentes" que ultrapassam esses limites.
clara, na infraestrutura de um romance histórico, a relevância dada à dimensão sócio-histórica das ações e dos caracteres humanos é plenamente valorizada50.
A importância dada à caracterização sócio-histórica das personagens, para Lukács, constitui um progresso estético em relação à sua fase anterior51, especialmente pelo fato de que ele estabelece uma relação entre a autenticidade épica do romance histórico e o respeito pelas justas proporções entre as ações das grandes personagens históricas e o modo de vida cotidiano da época; entre as escalas de valores do ‗alto‘ da sociedade e as correntes que atravessam o ‗baixo‘, vindas das profundezas da vida popular (TERTULIAN, 2008). A luta desses dois planos – o alto e o baixo – no romance histórico deve aparecer com a confrontação de dois sistemas de valores e, ao mesmo tempo, deixar claro que tal conflito se traduz como visões possíveis e diferentes do desenvolvimento de uma sociedade.
Logo, as considerações estéticas de Lukács estão permeadas por um feixe de hipóteses a propósito do condicionamento histórico social da vida humana em geral e das paixões em particular. Mas, não se trata de fazer da vida psíquica o reflexo mecânico das condições histórico-sociais preexistentes. Pelo contrário, as paixões humanas não se desenvolvem num espaço vazio, elas se chocam necessariamente com as normas e os hábitos existentes, e sofrem um trabalho de acabamento em função das circunstâncias sócio-históricas nas quais elas estão inseridas.
Como exemplo, se o caso entre Ester e o reverendo Dimmesdale se apresenta sem a relação sócio-histórica da época evocada – Salem dos puritanos do século XVII com todos os seus dogmas e leis –, estamos diante de um problema estético que não contempla o entendimento de Lukács para o romance histórico, pois haveria então, uma transgressão na lei do realismo do qual o enredo faz parte. Para ele, a lei estética do romance não é arbitrária, mas deve refletir exatamente as relações e as proporções dos fenômenos sociais reais. A presença da perspectiva comandada pelos valores morais populares lhes parece indispensável e sendo a única capaz de conferir-lhe as dimensões estéticas de profundidade e de densidade necessárias à compreensão da realidade.
É importante ressaltar que Lukács (2011) considera que a gênese e o desenvolvimento, o apogeu e o declínio do romance histórico resultam, inevitavelmente, das grandes transformações sociais dos tempos modernos, de modo que seus diversos problemas de forma, nada mais são que reflexos dessas transformações sócio-históricas.
50A Letra Escarlate traz, em seu enredo, uma interpretação dos processos históricos e sociais que ganharam vida
nos primeiros anos da formação da sociedade norte-americana.