O instrumento originalmente elaborado por Karasek para avaliar características sociais e psicológicas do trabalho foi o “Job Content Questionnaire” (JCQ), que atualmente é composto por 49 questões, distribuídas em cinco dimensões:
Demandas psicológicas (nove itens);
Controle no processo de trabalho (18 itens - sete sobre uso de habilidades; três sobre autonomia para decisão; e oito sobre autoridade para decisão em nível macro);
Apoio social (11 itens – cinco sobre apoio de colegas e seis itens para apoio social dos chefes no ambiente de trabalho);
Demandas físicas (cinco itens); Insegurança no trabalho (seis itens);
Esse instrumento foi traduzido para vários idiomas e vem sendo utilizado e reavaliado por pesquisadores de vários países do mundo, de forma colaborativa (KARASEK, 1985).
Em 1988, Theorell (1988) propôs uma versão curta e modificada do JCQ, o Demand Control Support Questionnaire (DCSQ), utilizado principalmente nos países escandinavos, abrangendo 17 itens distribuídos em três dimensões: demandas psicológicas (cinco itens), controle no processo de trabalho (quatro sobre uso de habilidades e dois sobre autonomia para decisão) e apoio social no trabalho (seis itens). No Brasil, a versão do DCSQ foi adaptada e validada por Alves (2004) (Figura 3).
Dentre os itens que avaliam a dimensão “demandas psicológicas no trabalho”, quatro se referem a aspectos quantitativos, como tempo e velocidade para a realização do trabalho (a, b, c, d) e um analisa o aspecto qualitativo do processo de trabalho (item e) (Figura 3).
O controle no processo de trabalho é avaliado por seis itens, distribuídos nas seguintes subdimensões:
Uso de Habilidades: essa subdimensão é composta por quatro itens (f, g, h, i), que avaliam respectivamente a possibilidade de aprendizado, o uso de habilidades, iniciativas e a repetição de tarefas no trabalho.
Autonomia para decisão: nessa subdimensão a avaliação é feita por meio de dois itens (j, k), que analisam a autonomia para a tomada de decisão sobre o processo de trabalho (Figura 3).
Figura 3 - DCSQ (versão para o português do Brasil). Demanda
a) Com que frequência você tem que fazer suas tarefas de trabalho com muita rapidez? b) Com que frequência você tem que trabalhar intensamente (isto é, produzir muito em pouco tempo)?
c) Seu trabalho exige demais de você?
d) Você tem tempo suficiente para cumprir todas as tarefas de seu trabalho? e) O seu trabalho costuma apresentar exigências contraditórias ou discordantes? Controle
f) Você tem possibilidade de aprender coisas novas em seu trabalho? g) Seu trabalho exige muitas habilidades ou conhecimentos especializados? h) Seu trabalho exige que você tome iniciativas?
i) No seu trabalho, você tem que repetir muitas vezes as mesmas tarefas? j) Você pode escolher como fazer o seu trabalho?
k) Você pode escolher o que fazer no seu trabalho? Apoio Social
l) Existe um ambiente calmo e agradável onde trabalho. m) No trabalho, nos relacionamos bem uns com os outros. n) Eu posso contar com o apoio dos meus colegas de trabalho. o) Se eu não estiver num bom dia, meus colegas compreendem. p) No trabalho, eu me relaciono bem com meus chefes.
q) Eu gosto de trabalhar com meus colegas. Fonte: adaptada por Alves, 2004
A última dimensão, “apoio social no trabalho” é composta por seis itens (l, m, n, o, p, q), que avaliam o apoio que o trabalhador recebe da chefia e dos colegas de trabalho. As quatro categorias de resposta para apoio social variam de concordo totalmente a discordo totalmente. Para os itens das dimensões demandas psicológicas e controle no processo de trabalho as categorias de resposta varia de frequentemente a nunca.
Ambos os instrumentos (JCQ e DCSQ) são amplamente utilizados na avaliação de fatores psicossociais do ambiente de trabalho e desfechos negativos em saúde. No entanto, em recente revisão sistemática sobre estresse no trabalho considerando o modelo demanda- controle (ALVES; HOKERBERG; FAERSTEIN, 2013), verificou-se que o instrumento mais utilizado foi o Job Content Questionnaire (79% dos estudos), seguido pela versão sueca resumida, o Demand Control Support Questionnaire (19% das pesquisas). Em ambos os instrumentos, a forma mais frequente de avaliar a exposição principal foi por meio dos
quadrantes e a definição mais comum para o ponto de corte foi a mediana. O apoio social no trabalho foi avaliado em parte dos trabalhos analisados (44%) e os desfechos e fatores de risco mais estudados foram os cardiovasculares (45%), seguidos por aqueles relacionados à saúde mental (25%) (ALVES; HOKERBERG; FAERSTEIN, 2013).
Os resultados dessa revisão confirmam o interesse dos pesquisadores na utilização do modelo demanda-controle em suas investigações, mas ressaltam o fato de poucos estudos informarem sobre as avaliações das propriedades psicométricas desses instrumentos. Nesse sentido, Pasquali (2001) observa que uma avaliação deve ser respaldada em critérios científicos que possibilitem medidas confiáveis do fenômeno observado de uma determinada amostra. Uma das formas de se estabelecer a validade de um instrumento é por meio da análise fatorial. Por meio desse tipo de análise é possível verificar se um número menor de variáveis, intituladas como fatores (dimensões) é suficiente para explicar uma série maior de variáveis observadas (itens de uma escala) (HAIR et al., 2009).
O DCSQ foi o instrumento escolhido na realização do presente estudo, considerando a disponibilidade de uma versão adaptada para o português do Brasil (ALVES et al., 2004) e ao número reduzido de perguntas, o que facilita sua aplicação em estudos epidemiológicos com questionários multidimensionais (SANNE et al., 2005).
A adaptação transcultural do instrumento (DCSQ) para utilização em contexto brasileiro foi realizada por Alves (2004). O processo de adaptação desse questionário permitiu sua avaliação por meio de seis tipos de equivalência: conceitual, de item, semântica, operacional, de medida e funcional.
De acordo com Herdman (1998), a equivalência conceitual refere-se à existência do mesmo conceito num contexto semelhante, entre o grupo populacional em que a escala foi desenvolvida e naquela em que a mesma será aplicada. Nesse tipo de equivalência é realizado um julgamento da pertinência dos conceitos assimilados pelo instrumento original na cultura da versão traduzida. A equivalência de itens significa que os mesmos devem ser correspondentes nos dois idiomas estudados. A equivalência semântica, por sua vez, corresponde à transferência de significado das palavras entre os idiomas e à obtenção de um efeito emocional similar nos respondentes, quando a escala é aplicada em diferentes idiomas.
A equivalência operacional diz respeito ao formato do questionário, às instruções, ao modo de administração e aos métodos de medida do instrumento. A equivalência de medidas verifica as propriedades psicométricas da versão em análise. A última equivalência, a funcional, verifica se as escalas medem o mesmo conceito em culturas diferentes. No entanto, em termos de validação, no estudo de Alves (2004), a avaliação foi restrita à confiabilidade
teste-reteste e à análise da consistência interna, indicando a necessidade de uma análise mais aprofundada do DCSQ (ALVES et al., 2004).
Além do estudo de Alves (2004), foram encontrados sete estudos que realizaram validação do DCSQ (THEORELL, 1996; SANNE et al., 2005; HÖKERBERG et al., 2010; GRIEP et al., 2009; FRANSSON et al., 2012; MASE et al., 2012; CHUNGKHAM et al.., 2013). Dois desses estudos (GRIEP; et al.,2009; HOKERBERG et al.; 2010) realizaram análise psicométrica do DCSQ em contextos brasileiros. O primeiro, em uma população de trabalhadores de enfermagem e, o segundo, incluiu trabalhadores hospitalares e de restaurantes do Rio de Janeiro.
Os estudos de validação do DCSQ trouxeram informações importantes para o desenvolvimento de outros estudos. O estudo de Sanne et al. (2005) confirmou a estrutura tridimensional do DCSQ considerando uma amostra representativa de trabalhadores noruegueses. No entanto, os autores referem que, para ocupações específicas, são preferíveis as análises separadas das subdimensões do controle (uso de habilidades e autonomia decisória), considerando assim a escala formada por quatro fatores (dimensões).
Entre os estudos brasileiros, Griep et al. (2009) encontraram baixa correlação entre as subescalas da dimensão controle (uso de habilidades e autonomia decisória) e argumentam que este conceito foi construído com base em uma combinação de construções teoricamente distintas. No estudo de Hökerberg et al. (2010), as subdimensões do controle formaram duas dimensões distintas e alguns itens da escala poderiam ser removidos por resultarem em cargas não significativas, como no caso do item “trabalho repetitivo”, ou pela possibilidade de estarem duplicados, como o caso dos itens “trabalho rápido” e “trabalho intenso”. Resultado semelhante aos de Hökerberg et al. (2013) foram encontrados em estudo com amostra representativa de trabalhadores suecos (CHUNGKHAM et al., 2013).
No estudo de Mase et al. (2012), realizado no Japão, os autores referiram a necessidade de realização de mais estudos para estabelecer a validade do DCSQ, uma vez que, para uma população de ensino em berçário e funcionários da cozinha japonesa, as dimensões demanda psicológica e controle no processo de trabalho não compuseram dimensões separadas.
Landsbergis et al. (2000) afirmam que avaliações detalhadas e minuciosas sobre questões específicas de um determinado grupo ocupacional são valiosas para orientar intervenções que promovam mudanças no estado de saúde dessa população de acordo com suas especificidades. Dessa forma, o presente estudo, pretende avaliar os fatores ocupacionais associados ao estresse no ambiente de trabalho segundo o modelo demanda-controle em uma
população de professores do ensino básico, e é sobre o trabalho docente o conteúdo desenvolvido na próxima parte deste referencial teórico.