Com base na Administração Científica, os primeiros entendimentos acerca do processo decisório eram marcados pela crença da existência de uma seqüência de etapas
essencialmente racional, no qual se decidia com vistas exclusivas a obtenção de objetivos, pautando-se pela melhor utilização dos recursos existentes. A visão neoclássica da firma apregoa que, mesmo na alta gestão, quando se dispõe de igualdade de informações, diferentes sujeitos conduzem a semelhantes decisões. Esta despersonalização da Administração, não leva em conta preferências, habilidades e questões referentes ao risco. Contudo, na década de 50, os estudos de Herbert Simon destacaram a existência de elementos não considerados na abordagem científica e racional de tomada de decisão, que Motta (1999 apud LUCIANO, 2000, p. 6) classifica como “[...] humanas (motivação, conflito e personalidade), políticas (interesses particulares e de grupos) ou sociais (grupos de referência, valores sociais) [...]”
O nascimento de uma “escola da liderança”, que defende que os atributos dos líderes e das organizações exercem influência sobre o processo de tomada de decisão é uma evolução e uma realidade obtida a partir dos estudos da vertente humanista. Entretanto,
As abordagens prevalentes nos estudos de Finanças, parecem coadunar-se com a chamada ‘escola das restrições’, linha de pensamento segundo a qual os atos dos gestores são demasiadamente constrangidos por restrições ambientais e internas à empresa para que seus estilos pessoais impactem significativamente a performance ou as políticas da organização. (BARROS; SILVEIRA; FAMÁ, 2006, p. 1).
Tal evidência levou os autores à realização de uma pesquisa descritiva, que concluiu pela influência dos chamados efeitos fixos (características pessoais, ou de “estilo”) nas decisões de financiamento das empresas por eles estudadas, não encontrando a mesma correlação em todas as variáveis abordadas no estudo.
Embora enunciado por Barros, Silveira e Famá (2006, p. 2) como sendo o trabalho que oferece “[...] as primeiras evidências de efeitos fixos gerenciais no Brasil [...]”, observa-se que o tema já fora explorado em alguns outros estudos apresentados no ENANPAD nesta década. De qualquer maneira, os resultados por eles obtidos são convergentes com os demais encontrados, entretanto, indo de encontro aos achados de Ahn et al. (2004 apud BARROS; SILVEIRA; FAMÁ, 2006), que apontam para a não influência de presidentes de empresas no Japão sobre os resultados das mesmas durante a década de 90.
Com base em Sitkin e Pablo (1992 apud PASSUELLO, 2006), a autora conclui que a tomada de decisão estratégica é basicamente influenciada por três fatores: as características
pessoais do decisor (posição relativa ao risco, o que depende em muito de aspectos psicológicos, como a personalidade); as características do contexto organizacional (com destaque para questões como os valores e o sistema de controles existentes); e as características da situação-problema, em que se consideram a familiaridade do decisor com a problemática, bem como a maneira como a mesma é apresentada a ele. Desta maneira, a pesquisa conclui que o processo decisório é realmente afetado por dois mundos, tal como propõem Bannister e Remenyi (2000 apud PASSUELLO, 2006, p. 32). O primeiro é o “[...] mundo real, onde as situações ocorrem, dados e fatos podem ser levantados, e opiniões expressas, enquanto que [...] [o outro] se refere ao mundo interno do indivíduo, composto por aspectos subjetivos”, formada por elementos nem sempre conscientes, tais como “[...] preconceitos, valores pessoais, experiências e senso de dever.” (MILLER; HICKSON; WILSON, 1996 apud PASSUELLO, 2006, p. 32).
Convergente a posição de Passuello (2006), que dá destaque ao sujeito no contexto da tomada de decisão, Paiva (2002) e Sousa (2007) apresentam algumas variáveis que influenciam no processo decisório. Destas, algumas merecem destaque para os propósitos deste trabalho. Primeiramente, os autores chamam a atenção para a “racionalidade limitada” existente neste tipo de situação. Isso representa dizer que, por não terem condições de enxergar a totalidade do cenário, dada sua complexidade (ou mesmo falta de informações), os decisores realizam simplificações da realidade, a partir dos elementos que possuem. Além disso, Paiva (2002) também destaca a existência de algumas diferenças individuais que afetam o comportamento do decisor, tais como: recursos temporais (disponibilidade de tempo, por exemplo), recursos econômico-financeiros, recursos cognitivos (capacidade de processamento mental do indivíduo), além de suas atitudes, motivações, personalidade, valores e estilo de vida. Além disso, lista algumas influências ambientais que também podem afetar o processo decisório. São elas: a cultura em que o decisor está inserido, a sua classe social e família, além de sua “situação atual”, ou seja, que dá conta de outros fatores de ordem pessoal, tal como o estado civil em que se encontra. Sousa (2007), por sua vez, acresce que as questões políticas podem, consistentemente, influenciarem a racionalidade na tomada de decisão.
No que se refere aos fatores que podem afetar o processo decisório, também é importante a contribuição do modelo proposto por Rajagopalan et al. (1993 apud SOUSA, 2007), onde são identificados nada menos que trinta itens, agrupados em fatores ambientais, fatores organizacionais, fatores específicos da decisão, além das características do próprio
processo decisório em questão. Apesar da variedade de fatores identificada pelos autores, chama atenção a pouca importância dada ao sujeito tomador de decisão, como fator influenciador no processo de tomada de decisão. Por outro lado, Mintzberg et al. (1976 apud SOUSA, 2006) destaca a existência de uma estrutura, ou sistema lógico por trás dos movimentos individuais daqueles em posição de tomada de decisão estratégica. Afirmam eles que
[...] processos decisórios são programáveis mesmo que de fato não sejam programados: embora os processos utilizados não sejam predeterminados e explícitos, existe forte evidência de que uma lógica básica ou estrutural encontra-se subjacente ao que o decisor faz e que essa estrutura pode ser descrita pelo estudo sistemático de seu comportamento. (SOUSA, 2006, p. 31).
Assim sendo, pode-se compreender que, mesmo não sendo processos absolutamente controláveis e plenos em sua racionalidade, existe a possibilidade de se compreender, em cada organização, a dinâmica das relações e das ações, podendo-se, assim, agir em busca de melhores resultados.