3 Method
3.2 Procedure
Ainda do ponto de vista dos percalços que passa o escritor de minorias étnicas para poder publicar e, efetivamente, existir como voz, encontram-se os possíveis “ajustes de representação” que, de fato, também fazem parte do processo de exotização anteriormente citado, já que perseguem idêntica finalidade: adequar a autorrepresentação do outro étnico ao “gosto” das maiorias e manter o domínio cultural e social destas. Os estudiosos da cultura, Shohat e Stam, conceituam esses ajustes no âmbito do cinema na sociedade estadunidense, porém, considero a definição adaptável para o segmento literário no que diz respeito à literatura de minorias em várias sociedades majoritárias. Para os teóricos, os ajustes ocorrem quando os valores de uma luta por libertação radical são dissolvidos para agradar a plateia, [...] o desafio de conciliar diferenças culturais é “dificultado por problemas de profunda incompatibilidade ideológica”. Os estudiosos dão como exemplo o caso do filme sul africano
Mapantsula (1989) que, para ser filmado, teve que se disfarçar como um “filme apolítico sobre um grupo de gângsteres”432, deixando as questões sobre o Apartheid como pano de
fundo, de forma a minimizar o impacto da plateia essencialmente branca. No contexto da literatura romani, um dos exemplos significativos se dá no primeiro romance do escritor Jorge Nedich, Gitanos para su bien o para su mal (1994), que após ser publicado em Buenos Aires, sem grandes repercussões433, foi “ajustado” e voltou a ser publicado na Espanha, em 2001434. Na adaptação realizada pelos editores espanhóis, observa-se uma amputação expressiva da obra, que se efetiva exatamente nos momentos em que o narrador expõe alguma situação de confronto entre romà e não-romà. Vejamos, por exemplo, a seguinte passagem da obra sem cortes:
Com o amanhecer chegou a sua cama um rumor de vozes, Stieva acreditou que era a sua mulher, porem ela dormia [...].Se vestiu rapidamente e no instante estava com os niachs [não- romà] que, junto as autoridades, efetuavam a inspeção de rotina com os forasteiros. Stieva explicou que eram pessoas trabalhadoras e que estavam de passagem […] lhes deu de presente um punhado de peixinhos vermelhos […] Depois de algumas conversas os visitantes foram embora, deixando claro que poderiam ficar o tempo que quisessem, sempre que não fizessem coisas de ciganos435.
O mesmo trecho, na edição espanhola se reduz a essas poucas linhas:
se vestiu rapidamente. Então viu a Mitra que estava cantando e acomodando os cheirosos peixes coloridos em um lado do cesto, havia uns quinze ‘tubarões’ vermelhos436.
Percebe-se mudança considerável nas informações. Tendo em vista que Espanha é um país onde os confrontos entre romà e não-romà são intensos e abertos. Também a discriminação ocorre em grau elevado e a situação dos romà é de total guetização, sendo assim, as alterações no romance são significativas. No corte efetuado, não existe confrontação com policiais, nem abuso de autoridade, tampouco preconceitos por parte deles. Esses conflitos são substituídos pela cena da personagem Mitra, cantando e preparando-se para mais um dia de trabalho. A supressão não chega a alterar o enredo, pois não interfere no
432 Crítica da imagem eurocêntrica, p.274.
433 Publicada primeiramente por Torres Agüero Editor. Em 1995, ganha o segundo lugar no concurso Amico
Rom, promovido por escritores romà em parceria com a Universidade de Paris-Sorbonne e pela Comunidade Econômica Europeia.
434 Publicado por Ediciones del Bronce.
435 Gitanos para su bien o su mal, p.13. “Con el Alba llegó hasta su cama un rumor de voces, Stieva creyó que
era su mujer, pero esta dormía [...]. De un salto cayó dentro de sus pantalones y al segundo estaba con los niachs que, junto a las autoridades, efectuaban la inspección de rutina con los forasteros. Stieva explicó que eran gente de trabajo y que estaban de paso […] les obsequió un puñado de tiburones rojos […] Después de algunos cabildeos los visitantes se fueron, dejando en claro que se quedaran el tiempo que quisieran, siempre y cuando no hicieran cosas de gitanos”.
436 NEDICH, Jorge. La extraña soledad de los gitanos, p. 12. “de un salto cayó dentro de sus pantalones.
Entonces vio a Mitra que estaba cantando y acomodando los olorosos peces de colores en un costado del canastro, había unos quince tiburones rojos”.
andamento da trama, porém, como este corte, outros foram feitos, frequentemente em passagens relevantes, nas quais o caráter de denúncia se intensifica como em: “Paraguay Felipe foi atendido por Darinca porque no povoado não tinha médico para eles”437 . Este
trecho, retirado da segunda versão do romance, é outro exemplo das eliminações efetivadas na obra. As passagens suprimidas, contudo, não são numerosas e trata-se na sua maioria de pequenas digressões e algumas explicações do narrador, de forma que podem passar despercebidas a um leitor menos atento. No entanto, representam considerável ruído à voz romà e permitem questionar o que houve: interferência ou censura da editora? É provável que se trate de censura mercadológica (modalidade apropriada aos tempos capitalistas, que retira das obras o que não é apelativo). Sara Almarza, em relação às eliminações que foram praticadas na segunda edição de Cidade de Deus, de Paulo Lins, e após sua adaptação para o cinema, faz a mesma pergunta: “por que na nova edição do romance as plásticas imagens ficaram ‘mais econômicas’”. A obra será entendida facilmente ou terá uma venda maior que o filme? Interrogações que o tempo responderá, mas que faz notar como a literatura se vê envolvida nas sufocantes redes globais438. Em se tratando da produção literária de minorias, mais vendável é o exotismo, a singularidade atrativa que não permite que sejam aprofundadas nas obras, as questões sociais e a afirmação identitária.
Por que compactuam com essa “censura” os escritores oriundos das minorias? É uma pergunta pertinente. Jorge Nedich, por exemplo, fala com certo incomodo sobre os “ajustes” realizados no seu primeiro romance: “não teria permitido se fosse hoje. Atualmente, não aceito mais cortes tão significativos [...], porém, certamente, não houvesse publicado nada mais além de meu primeiro livro, se não tivesse acatado algumas alterações nos meus primeiros romances”. O escritor também reconhece que aceitou os cortes, porque estava convencido de que tinha problemas com a escrita – pelo fato de ter sido autodidata – e possuir, naquela época, um estilo “contaminado” pela oralidade. Dessa forma, acreditava que “necessitava fazer uma adequação da obra para poder publicar nos padrões exigidos, e isso, era o que me diziam”439.
São muitos os problemas que se podem discutir a partir dessa realidade exposta pelo escritor rom. Para qualquer minoria marginalizada, seja étnica, de gênero ou classe, o espaço adquirido no campo literário, ainda que pequeno, representa mais do que a conquista de um saber ou uma arte. Acima de tudo, significa poder narrar-se e, enfim, poder apropriar-se de
437 NEDICH, Jorge. La extraña soledad de los gitanos, p.71. “Paraguay Felipe fue atendido por Darinca porque
en el pueblo no había medico para ellos”.
438 “Literatura e globalização”, Cerrados, n.17, p.11.
seu discurso. Michel Foucault argumenta que, mesmo que o discurso seja mínimo, os impedimentos que o atingem demonstram a ligação com o desejo de poder. O discurso não é só aquilo que manifesta ou oculta ou o que traduz as lutas e os sistemas de dominação, mas pelo que se luta, isto é, o poder do qual nos queremos apoderar440. As interdições feitas ao discurso dessas minorias significam destituí-las desse poder desejado e do consequente reconhecimento. O sociólogo alemão Jürgen Habermas explica que o reconhecimento público pleno conta com duas formas de respeito “o respeito pela identidade inconfundível de cada indivíduo, independentemente do sexo, raça ou procedência étnica; e o respeito por suas formas de ação, práticas e visões peculiares de mundo que gozam prestígio junto aos integrantes de grupos desprivilegiados”441. Negar esses discursos é uma tentativa de
silenciamento dessas vozes. Foucault chama a atenção para o fato de que nas sociedades os discursos são reiteradamente controlados e selecionados por procedimentos que têm por finalidade conjurar seus poderes e perigos, bem como, evitar seu temível aparecimento442.
Regina Dalcastagnè explica esse controle do discurso das minorias dominadas como uma censura velada, uma forma de negar o direito de fala aos que não preenchem certos requisitos sociais. Na esteira de Pierre Bourdieu, ela argumenta que o que está em jogo não é somente uma questão do direito de falar – que é garantido pela liberdade de expressão – “mas da possibilidade de ‘falar com autoridade’, isto é, o reconhecimento social de que o discurso tem valor e, portanto, merece ser ouvido”. Dalcastagnè ainda lembra que esse processo de controle do discurso das vozes minoritárias, apenas se efetiva graças à introjeção dos constrangimentos estruturais pelos próprios agentes sociais, nesse caso, os romà (o que observamos na fala anterior de Jorge Nedich), possibilitando que os limites impostos ao discurso não sejam tensionados, tendo em vista que, o escritor de minoria mantém-se dentro de seu espaço “autorizado”. Em relação à expressão literária, significa dizer que aqueles que estão excluídos do fazer literário, pela suposta falta ou precariedade no domínio de determinadas formas de expressão, acreditam que são incapazes de fazer literatura, porque o conceito de literatura não inclui suas formas de expressão443.
Pode-se perguntar de que modelos se falam? Como colocou Dalcastagnè, certamente, não se leva em consideração que existam outras possibilidades de escrita. Também que a estética da arte, produzida às margens da cultura dominante, possa ser bastante distinta dos cânones majoritários, além de diferentes em suas marginalidades. E que haja outros cânones,
440 A ordem do discurso, p.10.
441 A inclusão do outro: estudos de teoria política, p.240. 442 Op.cit., pp. 8-9.
que não o Ocidental, branco e elitista. Igualmente, que qualquer adjetivação ao termo literatura, no caso, de uma literatura de minoria étnica, que poderia também ser pós-colonial, feminina ou marginal, já é, em si uma proposta de corte com uma hegemonia literária. No entanto, o que se observa é que, ou se fazem ajustes nas produções literárias das minorias, ou se recai em uma postura de certa forma paternalista, comum no meio literário, que guetiza essa literatura, enquanto solicita aos escritores uma “originalidade” com base no que se espera que sejam suas singularidades. Essa postura, por sua vez, também é incapaz de reconhecer a autonomia e a maturidade das expressões advindas dos grupos excluídos, mantendo uma posição condescendente e distante, que não produz reconhecimento e mantém a subalternidade.
O linguista e literato argentino Walter Mignolo, versando sobre a questão do cânone, ante o leque de literaturas latino americanas, dentre elas as de minorias, afirma que o campo dos estudos literários é constituído, na verdade, por um corpus heterogêneo de produtos discursivos e artefatos culturais. O fato de que alguns desses corpus adquire estatuto canônico é parte da complexidade das forças sociais em conflito e não um fenômeno natural ao campo de estudo. Mignolo destaca assuntos como as tradições orais, a escrita feminina e os produtos culturais híbridos – que hoje reclamam sua voz – que tinham permanecido ocultos por trás de uma noção de literatura, que identificava o cânone com o campo de estudo, o qual tinha nas histórias da literatura, a expressão de sua autoridade444. Ele propõe que se pense a literatura como um corpus composto de cânones alternativos, que reflete as forças de dominação e poder, também de oposição e resistência. Dessa forma, é importante que se recepcione essas “outras literaturas”, a partir de uma abertura crítica, que considere as várias identidades e cânones coexistentes. No mesmo sentido, só que no contexto das produções literárias orientais ante um cânone Ocidental, Edward Said observa que essas narrativas das margens são experiências coexistentes e devem ser lidas em contraponto com os textos provenientes do centro445. E não por uma guia padronizada e inflexível de leitura. A propósito desses padrões, a escritora e crítica literária Marisa Lajolo, por sua vez, afirma que a literatura hoje tem uma função e posição diferente da que era produzida em épocas anteriores – e que desempenha direção distinta de acordo com a sociedade em que é produzida. Não obstante, as formulações
444“Entre el canon y el corpus: alternativas para los estudios literarios y culturales en y sobre América Latina”,
p. 25.
literárias atuais continuam com base em postulações do tempo de Sócrates e de Platão, que se cristalizaram como naturalizações da arte literária446.